Negócio

Importador independente se afasta e Petrobras amplia domínio no diesel


Valor Econômico - 04 set 2018 - 09:09

A Petrobras deve continuar ganhando participação no mercado de diesel nos próximos meses. Em meio à vigência do programa de subsídios nos preços do derivado, as importadoras privadas reduziram suas cargas e, nos últimos dois meses, responderam por menos de 10% da demanda por diesel no país, segundo dados da própria estatal.

A perspectiva até o fim do ano é que a participação de terceiros perca ainda mais fôlego. Em janeiro deste ano, as importações por terceiros respondiam por 35%. O percentual foi caindo: 21% em fevereiro, 23% em março, 21% em abril, 16% em maio, 13% em junho e para menos de 10% de julho para cá.

Embora o avanço da petroleira sobre a concorrência seja uma realidade desde o início do ano, como parte de uma estratégia de redução das margens, a recuperação de participação da Petrobras tem se intensificado desde o início do programa de subvenção ao combustível, em junho: a companhia, que em maio respondia por 84% do mercado de diesel, teve sua fatia elevada para mais de 90% nos dois últimos meses.

E, enquanto vigorarem as atuais regras do programa de subsídios, a expectativa é que as importadoras independentes se ausentem cada vez mais do mercado. A Raízen, por exemplo, estima que a Petrobras deverá responder nos próximos meses por entre 75% e 80% das importações de diesel - ante 50% em agosto.

O quanto esse aumento de participação da Petrobras se dará de forma rentável, contudo, é uma incógnita. A Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) já manifestou publicamente que os atuais preços de referência - utilizados para cálculo de quanto o governo deve às empresas pela subvenção do diesel - não cobrem todos os custos necessários para internalizar o derivado.

O próprio gerente-executivo de marketing e comercialização da Petrobras, Guilherme França, disse na sexta-feira que os atuais preços de referência do diesel estão "no limite" da viabilidade econômica. "No limite, em alguns pontos, dá para fazer importação. Apertada, mas dá."

O presidente da Associação Nacional das Distribuidoras de Combustíveis, Lubrificantes, Logística e Conveniência (Plural), Leonardo Gadotti, acredita que as incertezas em torno da continuidade ou não dos subsídios (que perdem validade a partir de a partir de 1º de janeiro) estão afugentando investimentos.

Segundo Gadotti, iniciativas como a criação do programa de subsídios nos preços do diesel e a proposta de resolução da Agência Nacional de Petróleo (ANP) sobre a transparência dos preços do derivado são "perigosas". Para ele, pode ser mal recebida por investidores a intenção do órgão regulador de obrigar a Petrobras e demais produtoras e importadoras de derivados a abrirem suas fórmulas de reajustes.

"Não se atrai investimentos através de fórmulas [de preços] e intervenção. Isso afugenta investidores e são anos que se passam para corrigirmos. É perigoso e atrapalha o Brasil", disse, lembrando que o país deve ter, nos próximos dez anos, crescimento médio de 2,2% no consumo de combustíveis e precisará atrair investimentos em logística e infraestrutura.

O UBS destacou que a sinalização das importadoras, de que devem reduzir as cargas nos próximos meses, é uma notícia negativa para a estatal. "A Petrobras está tendo que importar com prejuízo [para compensar a redução da importação por terceiros]. Ela está perdendo dinheiro e o importador está deixando de ser competitivo", afirmou o analista Luiz Carvalho.