Negócio

Empresas da Ásia disputam fatia minoritária na Fiagril


Valor Econômico - 24 out 2014 - 10:19 - Última atualização em: 29 nov -1 - 20:53
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A Fiagril, empresa de Mato Grosso que opera nos segmentos de trading e processamento de grãos, negocia a venda de uma participação minoritária a uma companhia asiática, também do ramo do agronegócio. O aporte para a aquisição dessa fatia da empresa brasileira deve ser da ordem de R$ 400 milhões a R$ 500 milhões e a Chinatex, estatal chinesa que atua na compra de algodão e grãos, é a mais forte pretendente, segundo o Valor apurou.

Se confirmada, a operação será a estreia da companhia chinesa em ativos brasileiros e a segunda mudança societária empreendida pela Fiagril em poucos meses.

Com dificuldades para desenvolver seus projetos, a Fiagril recorreu em março à Amerra Capital Management, gestora de fundos americana que abocanhou 25% do capital da trading brasileira. À época, Craig Tashjian, diretor e um dos fundadores da Amerra, disse que a elevação nos preços dos grãos nos últimos anos restringiu a habilidade da empresa em usar capital próprio para seguir com investimentos estratégicos – e a necessidade de um parceiro que pudesse injetar capital tornou-se urgente.

Assim, a Amerra, que já havia feito empréstimos à Fiagril, entrou no negócio. Ocorre que o perfil desse fundo não é ter participação acionária, por isso ficou estabelecido que ele teria de seis meses a três anos para deixar a empresa. E é então que entra em cena o novo sócio.

Uma fonte a par do assunto disse ao Valor que há "um grupo restrito" de empresas asiáticas participando da negociação. Outra fonte, também com conhecimento da operação, detalhou que a Chinatex está com conversas mais adiantadas junto à Fiagril. A indicação é de que essa nova parceira poderá comprar a fatia da Amerra e possivelmente uma parcela adicional. Mas não está decidido se a Amerra deixará o negócio ou se ainda manterá uma pequena parte das ações que detém hoje.

Fundada em 1989, a Fiagril começou comercializando insumos, mas logo se lançou a uma acelerada diversificação de atividades. Começou a negociar soja e milho há uma década e, mais recentemente, investiu na produção de sementes, armazenagem e logística - o que exigiu grande volume de recursos.

Uma das maiores apostas da Fiagril é o corredor logístico do Norte do país, onde a companhia se dedica à estruturação da Cianport, criada em 2012 em parceria com a comercializadora de grãos Agrosoja. Com um aporte estimado em R$ 360 milhões, a Cianport transportará grãos de um terminal em Miritituba, no Pará, para o porto de Santana, no Amapá. A previsão é de que a obra entre em funcionamento no segundo semestre de 2015, movimentando inicialmente 500 mil toneladas, que podem chegar a 3,5 milhões em 2018.

A expectativa é que o sócio asiático, além de sustentar os investimentos logísticos, ajude a pavimentar o caminho da Fiagril rumo ao exterior. Atualmente, a trading exporta apenas 20% do que origina de grãos - os demais 80% ficam no mercado interno. A intenção da empresa, indicam pessoas familiarizadas com o tema, é inverter esse cenário em até cinco anos, deixando o futuro da empresa "mais voltado para fora do que para dentro".

Criada em 1951, a postulante à compra Chinatex dedica-se à produção, processamento e comercialização de grãos e fibras. A estatal começou a adquirir soja do Brasil em 2003, com maior agressividade nas operações de trading no Sul do país, mas o interesse cresceu. Por algum tempo, chegou a cogitar instalar uma filial em São Paulo, projeto que não avançou.

Recentemente, representantes da Chinatex realizaram duas viagens de prospecção de negócios ao país. Em uma dessas ocasiões, em julho deste ano, os chineses foram ao Rio Grande do Sul em busca de parcerias com cooperativas do Estado. Informações publicadas pelo governo gaúcho apontam que a estatal chinesa compra cerca de dois milhões de toneladas de soja anualmente do Brasil. A China é a maior importadora mundial da oleaginosa, com uma aquisição estimada de 74 milhões de toneladas na atual safra 2014/15, de acordo com dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

Uma fonte graduada do setor afirma que a Fiagril ainda tem problemas financeiros a solucionar, apesar do recente aporte do fundo americano. "A companhia tem porte bom, mas não é rentável. Ela faz volume, mas não ganha dinheiro", diz. Outra comenta que lançar-se ao mercado "era algo previsível, já que a empresa entrou em muitas frentes novas de negócios".

A Fiagril ainda tenta captar recursos de um outro fundo americano para dar prosseguimento ao plano de construir uma planta de etanol de milho em Lucas do Rio Verde. Conforme a imprensa americana, o U.S. Farmland Fund, braço de equity do Summit Group, negocia com a empresa brasileira a injeção de US$ 140 milhões para implementar a usina, com capacidade para esmagar 500 mil toneladas de milho por ano, volume suficiente para produzir até 200 milhões de litros do biocombustível.

Com sede em Lucas do Rio Verde, a Fiagril movimenta entre 2,5 milhões e 3 milhões de toneladas de grãos por ano, com um faturamento de R$ 2,75 bilhões em 2013. Procuradas, Fiagril e Amerra preferiram não comentar o assunto.

Bettina Barros, Mariana Caetano e Fabiana Batista - Valor Econômico