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Bioquerosene

UFJF coordena pesquisa sobre uso de biocombustíveis na aviação


G1 - 20 jun 2022 - 10:47

Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) vai realizar uma pesquisa sobre o uso de combustíveis sustentáveis de aviação. A ação ocorre após uma parceria entre a instituição e a Secretaria Nacional de Aviação Civil (SAC), do Ministério da Infraestrutura.

De acordo com a instituição, o estudo irá avaliar as alternativas do setor aéreo diante dos compromissos nacionais e internacionais de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE), tendo em vista as discussões para criação de um mandato obrigatório para mistura de combustíveis de aviação sustentável (SAF).

Vale lembrar que em 2020, a UFJF assinou um termo de cooperação entre a Prefeitura de Juiz de Fora e a empresa inglesa de combustíveis renováveis Green Fuels para o desenvolvimento de projeto de pesquisa de validação tecnológica, econômica e ambiental sobre a utilização de biodiesel feito a partir de óleo de cozinha descartado.

Com isso, é realizada a instalação de uma unidade de processamento de biodiesel no Centro Integrado de Ensino, Pesquisa, Extensão, Transferência de Tecnologia e Cultura (Cieptec-UFJF Norte) no Distrito Industrial de Juiz de Fora. Desde a assinatura do termo, várias etapas já foram realizadas e a previsão para início das atividades é no próximo mês.

O estudo

Coordenado pelo professor Fabrício Campos, diretor de inovação da UFJF, o projeto visa passar para a SAC informações técnicas capazes de embasar e auxiliar o processo decisório.

“Temos a expectativa de contribuir de forma complementar na construção de políticas e diretrizes para a regulação econômica de serviços aéreos por meio de mapeamento do atual cenário relativo à SAF, no Brasil e no exterior", afirmou.

O estudo tem prazo de 2 anos e os resultados serão úteis para o planejamento relacionado à infraestrutura aeroportuária e ao melhor aproveitamento logístico para disponibilidade de SAF em aeroportos estratégicos.

Além de pesquisadores da UFJF, a equipe também conta com especialistas em biocombustíveis de aviação das universidades federais de Goiás (UFG), do Mato Grosso (UFMT) e de Minas Gerais (UFMG).

Destaque brasileiro na produção de biocombustíveis

A Organização de Aviação Civil Internacional (OACI) estabeleceu como objetivos o crescimento neutro em carbono a partir de 2020 e criou o "Carbon Offsetting and Reduction Scheme for International Aviation" (Corsia), mecanismo de compensação simples que auxilia os estados a cumprirem essa meta no curto prazo.

Com isso, o cumprimento das obrigações de compensação pode se dar pelo uso de combustíveis sustentáveis de aviação, uma vez que a troca de aeronaves é impraticável nos próximos 30 anos.

Segundo o docente titular da UFJF, Adilson David Silva, que também faz parte da equipe, o Brasil está em vantagem em relação a outros países, uma vez que é atualmente o segundo maior produtor mundial de biocombustíveis, contando com uma cadeia de suprimento bem estabelecida como etanol e biodiesel.

“Nós temos competência instalada na produção de outros combustíveis renováveis. O Brasil tem também grande potencial eólico, solar, de hidrelétricas e biomassa, fundamental para produção de hidrogênio verde (HV), que é a matéria-prima para produção de combustíveis sustentáveis de aviação”, avaliou.

Com relação à análise sobre a indústria nacional de SAF, os especialistas consideram a perspectiva de aderência aos objetivos do Programa Combustível do Futuro e às metas estabelecidas pelo Programa Corsia, “a partir de avaliação do ambiente interno e externo que envolve o segmento nacional de aviação civil, elencando suas oportunidades, ameaças, forças e fraquezas frente ao processo de descarbonização das cadeias produtivas globais”.

Ainda conforme o pesquisador Adilson, os biocombustíveis de aviação mais promissores são os que utilizam matéria-prima renovável e podem ser obtidos por processos de hidrotratamento de óleos vegetais, Fischer-Tropsch, oligomerização de álcoois e fermentação de açúcares.

"Apesar do avanço das tecnologias das aeronaves, e consequente maior eficiência operacional, bem como das melhorias na gestão do tráfego aéreo e dos programas de offset de carbono, estudos apontam que a adoção de SAF em substituição aos combustíveis fósseis é a única maneira eficaz de garantir a operação neutra em carbono do segmento no longo prazo", completou.

O professor também coordena a Plataforma de Biodiesel da Zona da Mata, projeto formado pela hélice tríplice entre Universidade, Prefeitura e Green Fuels. Segundo ele, é urgente as ações por parte do governo na promoção de políticas públicas, estabelecimento de metas de curto e longo prazo, incentivos fiscais, estímulo à P&D e regulação responsiva.

"Se o Brasil demorar na criação dessas regulamentações, seremos seriamente prejudicados", disse.

Acordo global

O acordo global que culminou nos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU) prevê diversas metas voltadas para um mundo mais sustentável.

O Brasil deve superar vários desafios ambientais, dentre eles, a redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) em 37% abaixo dos níveis de 2005, até 2025, com uma contribuição indicativa subsequente de 43%, em 2030, conforme Contribuição Nacionalmente Determinada (iNDC, da sigla em inglês).

A aviação civil tem impacto significativo nessa determinação, uma vez que é responsável por cerca de 2% das emissões globais de gás carbônico, o que tem relação direta com o processo antropogênico de aquecimento global.

Dados do Grupo de Ação de Transporte Aéreo (Atag, da sigla em inglês) mostram que a indústria da aviação se comprometeu a zerar as emissões líquidas de carbono até 2050, ano em que se estima que serão transportados mais de 10 bilhões de passageiros, movimentando quase US$ 9 trilhões na economia mundial.