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Bioquerosene

Brasil inaugura 1ª fábrica de petróleo sintético para aviação a partir de biogás e hidrogênio verde


Valor Econômico - 18 jun 2024 - 13:57

Foi inaugurado dentro da usina de Itaipu Binacional, nesta segunda (17), a primeira fábrica do Brasil para produção de petróleo sintético a partir do biogás e hidrogênio verde, com foco na produção de combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês).

O empreendimento foi criado pelo Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás) e pela Cooperação Brasil-Alemanha para o Desenvolvimento Sustentável, por meio do projeto H2Brasil. A usina recebeu 1,8 milhão de euros (cerca de R$ 10 milhões) do governo alemão e tem por objetivo viabilizar uma rota para produção de combustíveis verdes a partir do biogás, produzido a partir da decomposição de materiais orgânicos.

Como o projeto ainda é de caráter experimental, a unidade vai produzir 6 quilos por dia de uma mistura de hidrocarbonetos sintetizada a partir de biogás e hidrogênio verde, chamada de biosyncrude, que será destinada à produção do SAF. Para produzir um volume de combustível suficiente para suprir uma aeronave comercial de grande porte, seria necessário fazer uma campanha de produção.

O SAF pode ser obtido a partir de diferentes rotas tecnológicas e com matérias-primas que vão de oleaginosas a etanol e resíduos sólidos urbanos. No caso da unidade do Paraná, a ideia é utilizar até 50 Nm³/dia de biogás produzido na unidade de biodigestão da Itaipu como fonte de carbono para a produção dos hidrocarbonetos. Além disso, serão utilizados 53 Nm³/dia de hidrogênio verde produzido pelo Núcleo de Pesquisa em Hidrogênio (NUPHI) do Parque Tecnológico Itaipu (PTI).

O biosyncrude será enviado para o Laboratório de Cinética e Termodinâmica Aplicada (Lacta) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) para caracterização e refino para obtenção do SAF. Além disso, o Laboratório de Materiais e Energias Renováveis (Labmater) da UFPR (Palotina/PR) realizou estudos sobre o processo de reforma a seco do biogás e desenvolveu os catalisadores utilizados.

Ao Valor, o diretor da agência de cooperação alemã GIZ, e um dos responsáveis pelo projeto H2Brasil, Markus Francke, explica que a ideia é demonstrar a possibilidade de aproveitar a vocação local de biogás, mas ainda existem fronteiras técnicas e econômicas a serem superadas para que o projeto ganhe escala.

“Estamos usando dinheiro público alemão. Então decidimos eleger essa possibilidade de fábrica combinada de biogás hidrogênio verde (...). Não temos condições de fazer uma produção industrial, então o objetivo é promover estudos de viabilidade”, afirma.

O superintendente de Energias Renováveis da Itaipu, Rogério Meneghetti, explica que a planta de biogás recebe matéria orgânica de restaurantes, copa da empresa e cargas de alimentos apreendidas na região da tríplice fronteira. O diretor presidente do CIBiogás, Rafael Gonzalez, acrescenta que foi criado um mapa dinâmico para identificar áreas com maior potencial de produção de SAF no Paraná, para dar escala ao projeto.

Interesse das empresas no SAF

Empresas como Embraer, Petrobras, Vibra, e Shell, Boeing, por exemplo, têm realizado ensaios com SAF ou pretendem produzir o combustível, porém a regulação no Brasil sobre essa nova tecnologia não deixa as empresas confortáveis em investir no insumo.

O governo alemão já investiu mais de 36 milhões de euros em novas tecnologias relacionadas à transição energética. Entretanto, o SAF não tem viabilidade econômica comparado com querosene de aviação, de base fóssil, podendo ser até quatro vezes mais caro. No caso dos projetos de combustível sustentável de aviação, o Brasil tem sido visto como um potencial player, dada sua vocação para produção de óleos vegetais, proteína animal, etanol ou biomassas em geral.

Etanol como alternativa

O diretor da Escola de Engenharia da USP de São Carlos e pesquisador apoiado pela Fapesp, Fernando Catalano, avalia que o etanol seria a melhor alternativa ao Brasil, já que este é um segmento que tem uma cadeia de suprimentos estabelecida no país.

O acadêmico acrescenta ainda que o país carece ainda de um arcabouço legal, por meio de uma regulação e subsídios necessários para viabilizar a produção em larga escala.

Robson Rodrigues – Valor Econômico