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Como determinar a real capacidade de uma usina de biodiesel?


BiodieselBR.com - 09 mai 2011 - 12:31 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:16

Em sua edição mais recente a revista BiodieselBR traz uma reportagem sobre uma dúvida que anda rondando o setor há tempos: será que as usinas de biodiesel realmente têm a capacidade de produção que alegam? Considerando que as vendas das usinas nos leilões estão restritas a 80% de sua capacidade produtiva autorizada, existe incentivo pra lá de óbvio para que as usinas inflem os números que apresentam para a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) na hora de pedir suas autorizações.

Ninguém tem dúvidas de que o maior problema da indústria hoje em dia é o excesso de oferta, mas o problema pode estar longe de ser tão agudo quanto aparenta. Na contabilidade oficial da ANP, a indústria de biodiesel tem capacidade para fabricar 5,6 bilhões de litros ano, bem mais do que o dobro da demanda criada pelo B5 que, ano passado, ficou em 2,4 bilhões de litros. É essa matemática que tem derrubado os preços do biodiesel nos leilões da ANP.  Se parte dessa oferta for mesmo falsa, caem por terra os cálculos que os empresários têm usado para balizar suas estratégias nos leilões. Pode ser que o setor esteja apertando os cintos sem necessidade por medo de fantasmas. Sem contar que as decisões para o aumento da mistura de biodiesel levam em conta os números duvidosos da ANP.

Claro que o tamanho do problema é difícil de constatar, afinal nenhuma usina vai admitir ter mentido sobre seus números e são raríssimos os usineiros que têm a coragem de denunciá-lo abertamente. Um dos corajosos a quebrar o silêncio foi sócio da SPBio, Haroldo de Barros, que confirmou que muitas usinas por aí não produzem tanto quanto seria de se esperar. Segundo ele o problema é a facilidade em convencer a ANP a dar seu aval para um aumento de capacidade. “Agora isso até está um pouco mais difícil, mas antes você só precisava ir lá e dizer que tinha acrescentado, digamos, uma centrífuga na sua linha e que isso tinha dobrado sua capacidade para que a ANP te aumentasse sua capacidade autorizada”, explica.

A ANP assegura que faz uma análise criteriosa dos projetos encaminhados pelas empresas e que seus técnicos visitam as unidades para conferir tudo in loco procedimentos que estão descritos na Resolução ANP 25/2008.

A BiodieselBR pediu ao engenheiro químico Dimas Marchi, com base em sua experiência e os requisitos descritos na resolução 25, a elaboração de um roteiro de verificações que seriam necessárias. Marchi descreveu um processo com duas etapas e um total de 17 ações que o leitor confere a seguir:

1ª Etapa - Avaliação da documentação enviada
•    Consistência do balanço de massa: avaliar se há coerência entre as entradas e saídas de materiais no processo;
•    Relação molar das matérias-primas: verificar as relações molares entre as principais matérias-primas utilizadas (óleos, ácidos graxos, alcoóis e catalisadores) e a proporção dos produtos (biodiesel e glicerina);
•    Dimensionamento: checar dimensionamento básico dos equipamentos em função da capacidade horária de produção;
 
2ª Etapa - Avaliação em campo
•    Verificar as condições gerais da usina;
•    Verificar da capacidade de estocagem de matérias-primas e produtos finais;
•    Avaliar os sistemas de controle e as vazões de processo;
•    Verificar histórico de produção através de relatórios diários, semanais e mensais de produção, quando disponíveis;
•    Verificar os dados reais de dimensionamento dos principais equipamentos (reatores, colunas, vasos de decantação, centrífugas);
•    Checar o dimensionamento dos equipamentos secundários (bombas, , filtros, etc) e tubulações;
•    Avaliar os tempos e os volumes das bateladas (quando este for o caso);
•    Avaliar a geração, tratamento e disposição final dos resíduos;
•    Validar a cadeia de medida para medição de testes reais;
•    Realizar testes reais de capacidade por, no mínimo, três dias seguidos.
•    Avaliar histórico da produtividade da usina e os fatores que a compõe (disponibilidade, confiabilidade, qualidade);
•    Avaliar nível de ocupação da usina;
•    Avaliar histórico e plano de manutenções preventivas;
•    Coletar amostra para avaliação se o produto atende especificações na vazão projetada.

Marchi ressalta ainda que seria importante a ANP conduzir auditorias específicas na área de segurança de processos, uma vez que (considera) o nível de acidentes no segmento muito elevado. “Em minha opinião, estudos ‘HAZOP’ [sigla para Hazard and Operability Studies o que pode ser traduzido como Estudos de Risco e Operação] ou equivalente deveriam ser exigidos evidenciando que a segurança do processo e das instalações foi avaliada”.

Dimas Marchi possui elevada experiência em indústrias químicas e usinas de biodiesel. Conheceu dezenas de plantas e tecnologia no Brasil e no exterior. Atualmente é gerente de Produção e Processos da Química Amparo Ltda., Black Belt na metodologia Six Sigma e especialista em segurança de processos.

Fábio Rodrigues - BiodieselBR.com