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[Leilão 23] Um leilão, muitas leituras. A opinião das usinas


BiodieselBR.com - 01 set 2011 - 08:21 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:17

Com o fim da negociação do 23º Leilão de Biodiesel da ANP, BiodieselBR procurou algumas usinas para sentir quais foram as impressões da indústria sobre a primeira disputa realizada sob as novas regras definidas pelo Ministério de Minas e Energia.

A maioria parece ter gostado do que viu e acha que as novas regras deixam a disputa mais bem balanceada. Apesar disso, não falta quem aponte que ainda são necessárias correções no novo formato para que o Fator de Ajuste Logístico não se torne um peso excessivo na competitividade de usinas localizadas em regiões exportadoras de biodiesel.

Uma coisa parece estar atraindo cada vez mais a atenção do empresariado – as óbvias limitações do ComprasNet. Depois de anos lidando com uma ferramenta improvisada, o setor parece estar farto e começa a falar mais abertamente sobre esse incômodo.

Veja as opiniões da indústria:

Erasmo Carlos Battistella
Presidente da BSBios com usinas em Passo Fundo (RS) e em Marialva (PR) que venderam 50,3 milhões de litros dos 57,3 milhões que poderiam

O que achou do leilão?
Do ponto de vista da BSBios, o leilão foi satisfatório e eu achei que o sistema evoluiu de uma forma geral. O ajuste feito pelo MME foi um passo importante e trouxe um equilíbrio para a disputa. Ele ainda tem pontos a melhorar, particularmente eu achei que os FALs para o Rio Grande do Sul e no Paraná estão acima dos valores de mercado, precisamos aprimorar esse cálculo para que ele não traga problemas de competitividade. Mas o ministério está tentando melhorar o sistema de comercialização de biodiesel. Porém, a ferramenta que está sendo usada [o ComprasNet] tem se mostrado inadequada para a importância do biodiesel para o País. Há muito tempo já deveríamos ter uma ferramenta exclusiva para os leilões de biodiesel, não dá mais para a ANP ficar demorando para fazer a parte dela.

Por que vimos uma diferença tão marcante entre os lotes com e sem selo?
Na minha opinião, o fator primordial para explicar essa diferença é a relação de oferta e demanda. O leilão sem selo tem 20 usinas a mais disputando, então você tem um nível de oferta muito maior com demanda extremamente menor. Sem contar que temos algumas usinas grandes que só podem vender nesse lote.


Marcelo Alcantara de Queiroz e Eduardo Luiz Rota
Diretor de biodiesel e diretor de controladoria da Minerva, usina de Palmeiras de Goias (GO) que vendeu 1,6 milhão de litros dos 3,24 milhões que poderia

O que achou do leilão?
Ele atendeu a nossa expectativa para a realidade de mercado que temos hoje. Para quem não tem selo é difícil conseguir competir e rentabilizar a operação, o preço do óleo de soja e do sebo estão puxados. Para quem tem selo a realidade é bem diferente, basta olhar para a diferença de deságio dos lotes. O ComprasNet é ruim para os leilões de biodiesel. O sistema em si é bom, mas nós tivemos alguma dificuldade com a velocidade de resposta da ferramenta que nos causou série problemas. Chegamos a perder oportunidades por causa de problemas com o sistema.

Por que vimos uma diferença tão marcante entre os lotes com e sem selo?
A gente também gostaria de entender isso. No mercado, a gente vê que o lote sem selo fica muito prejudicado. Tem uma sistemática meio predatória em relação aos preços. É difícil saber o que acontece durante a disputa, se a usina prefere vender no vermelho do que ficar parada ou se é reflexo do excesso de capacidade instalada que temos hoje. Acho que a solução seria o governo federal definir logo o marco regulatório e o B10 porque temos matéria-prima e capacidade produtiva. Nos leilões anteriores, quando você tinha o lote com selo negociado no primeiro dia e o lote sem selo negociado no dia seguinte, era um pouco mais fácil de entender. As empresas que tem selo já tinham vendido e podiam usar uma série de recursos de controladoria para saber até onde eles poderiam baixar seus preços. A gente achou que a alternância entre lotes com e sem selo talvez diminuísse essa diferença, mas não foi isso o que aconteceu. Uma sugestão seria iniciar a disputa pelos lotes sem selo para que as usinas com selo entrassem com menos força.


Geraldo Martins
Diretor Geral de Fertibom usina de Catanduva (SP) que vendeu 13,5 milhões de litros de um total de 23,9 milhões que poderia

O que achou do leilão?
As novas regras deixaram o leilão um pouco mais equilibrado, tanto que as vendas acabaram ficando um pouco mais pulverizadas entre as concorrentes. Nós da Fertibom gostaríamos de ter vendido um pouco mais, mas esse é problema de desequilíbrio entre a oferta e a demanda do biodiesel que só vai ser resolvido mesmo quando o novo marco regulatório vier.

Por que vimos uma diferença tão marcante entre os lotes com e sem selo?
Por que a relação de oferta e demanda dos dois lotes é completamente diferente. Especialmente num momento em que a ADM está sem selo e precisa disputar apenas no lote de 20% e tem outras usinas grandes, como a Bionasa, por exemplo, que também estão nessa situação. Não adianta nada você que querer forçar uma situação quando sabe que a dinâmica da relação de oferta e demanda estão desequilibradas.


Aiton Braga Domingues
Diretor Presidente da Bioverde, usina de Taubaté (SP) que vendeu 20,5 milhões de litros dos 36,2 que poderia ter vendido

O que achou do leilão?
Eu achei que foi ótimo! No formato anterior, o leilão tinha certos desvios que foram corrigidos. Claro que ele não é perfeito, mas é um avanço. No futuro espero que seja criada alguma forma de ouvir as distribuidoras durante o processo de comercialização, imagino que – cedo ou tarde – o releilão vai se juntar com o leilão da ANP. Eu também queria destacar que, embora o modelo seja bom, a ferramenta [a plataforma ComprasNet] ainda é ruim. Comercialmente falando foi um bom leilão para a Bioverde. Não foi um dos leilões no qual mais vendemos, mas essa foi uma decisão estratégica nossa,

Por que vimos uma diferença tão marcante entre os lotes com e sem selo?
Primeiro porque o biodiesel vendido nesses lotes tem custos completamente diferentes. Para ter direito ao selo, as usinas precisam fazer investimentos altos e, portanto, precisam proteger esses investimentos no lote exclusivo. É lá que você precisa buscar o seu break even. No lote sem selo você já pôde absorver parte dos custos e ser mais competitivo. Também não devemos esquecer a diferença das quantidades comercializadas, os lotes sem selo são bem menores e temos algumas usinas grandes disputando apenas neles. No final tivemos esses preços que eu não considero salutares.


Roberto Pusch de Souza
Diretor Comercial da Binatural, usina de Formosa (GO) que vendeu 20,9 milhões de litros dos 32,4 que poderia

O que achou do leilão?
Foi um leilão razoável. A gente vendeu quase 21 mil metros cúbicos, mas a perspectiva era ter vendido mais. Também foi um leilão pouco mais complicado do que os outros porque você precisava ter todos os seus custos muito bem conhecidos para pode saber em quais regiões poderia vender sem tomar prejuízo. Particularmente, eu achei o mecanismo [do FAL] inteligente, embora, para as usinas, essa regionalização do mercado seja um risco a mais. As usinas do Centro-Oeste que precisaram vender para outras regiões acabaram prejudicadas.

Por que vimos uma diferença tão marcante entre os lotes com e sem selo?
Acho que a questão é o número de players, temos relativamente poucas usinas com selo e elas podem vender nos dois lotes. Isso já gera uma pressão. Você também tem algumas usinas menores que usam óleo recuperado que é mais barato e, consequentemente, elas podem vender seu biodiesel a preços menores.


Haroldo Barros
Sócio da SP BIO, usina de Sumaré (SP) que vendeu 4,5 milhões de litros dos 5 milhões que poderia ter vendido no leilão

O que achou do leilão?
Na média, ele foi muito melhor que o leilão passado. O FAL foi bem aplicado e teve um impacto muito bom o que criou condições melhores de competitividade dentro dos lotes regionais. Isso descentralizou um pouco a disputa e a concorrência ficou mais saudável. Não foi a carnificina que vimos em outros leilões. Por isso, conseguimos vender o volume que nos propusemos. Naturalmente, o preço não foi bem o que nós queríamos porque houve uma disparidade de preços entre os lotes sem selo e com selo.

O ComprasNet também incluiu o uso de captchas em todos os lances. Isso dá mais trabalho para quem está concorrendo, mas também ajuda a inibir o uso dos robôs. Antes era uma coisa de maluco: mal você tinha clicado no botão para dar seu lance e ele já tinha sido coberto.

Por que vimos uma diferença tão marcante entre os lotes com e sem selo?
As empresas com selo têm uma vantagem muito clara que é a de poder entrar nos dois lotes. Eu acho que o formato antigo era até pior porque as usinas com selo podiam ganhar muito no lote exclusivo e voltavam no dia seguinte para fazer um pouco mais de volume já sabendo o que tinham ganhado e o quanto poderiam baixar seus preços. Eu acho que os lotes sem selo deveriam ser negociados antes dos lotes com selo, assim as usinas com selo não chegariam na disputa sabendo o quanto podem ser competitivos.


Sérgio Di Bonaventura
Diretor vice-presidente da Araguassú, usina de Porto Alegro do Norte (MT) que vendeu 1 milhão de litros dos 7,2 milhões que poderia

O que achou do leilão?
Na minha opinião, as mudanças não foram tantas em termos práticos. A disputa foi tranquila com preços razoáveis e que ficaram praticamente equivalentes aos de leilões passados. Vendemos pouca quantidade, mesmo assim acho que foi um bom leilão. No nosso caso particular, acho que fomos penalizados por um FAL enganoso. Ele nos obrigou a disputar nos lotes do Norte e do Nordeste como se o nosso biodiesel saísse de Cuiabá quando, na verdade, nós estamos quase na divisa com o Pará.

Por que vimos uma diferença tão marcante entre os lotes com e sem selo?
Simplesmente por uma questão de oferta e demanda. A oferta no lote sem selo é muito maior que a demanda. Os volumes negociados no lote com selo também estão atrelados à capacidade das usinas demonstrarem ao MDA que estão financiando a agricultura familiar. Muitas usinas podem ter certa dificuldade em comprovar isso e vendem mais no lote sem selo por essa razão. Outra causa é que se as usinas grandes começassem a baixar seus preços com mais vontade nos lote com selo, isso derrubaria demais os preços e ficaria ainda pior para elas, por isso elas tentam não ser tão agressivas assim nesse lote.

Fábio Rodrigues - BiodieselBR.com
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