Conferência BiodieselBR 2018

O custo do Selo Social para uma usina de biodiesel

Todos os gastos incorridos por uma usina na prestação de assistência técnica e eventual pagamento de bônus sobre a matéria-prima proveniente da agricultura familiar entram (ou deveriam entrar) na planilha de custo de uma empresa produtora de biodiesel como “Custo de Selo Social”. Quando uma usina paga valores como, por exemplo, R$ 1,80 por saca de soja proveniente de uma cooperativa de agricultura familiar a título de “bônus + ASTEC”, este custo é chamado de “Custo de Selo Social”. Isto tem de ser considerado no momento da precificação do produto nos leilões.

É preciso ficar claro que o Custo de Selo Social se comporta como um Custo Fixo para o produtor de biodiesel. O produtor de biodiesel precisa firmar os seus contratos de aquisição de matéria-prima da agricultura familiar no ano anterior ao ano de produção de biodiesel. Trocando em miúdos: uma usina que pretenda rodar sua planta em 2018 à sua capacidade máxima de produção precisa, em 2017, firmar contratos de aquisição de matéria-prima proveniente da agricultura familiar em volume equivalente à quantidade projetada de biodiesel a ser produzido, considerando, claro, os multiplicadores e percentuais estabelecidos pelas regras do Selo. Se a empresa não conseguir rodar em 2018 sua planta de biodiesel à capacidade máxima de produção, conforme planejara, ela terá de arcar, de qualquer maneira, com os custos relativos aos contratos de aquisição de matéria-prima da agricultura familiar, leia-se bônus + ASTEC.

Vamos ilustrar alguns cenários utilizando exemplos fictícios. Visando tornar os exemplos mais simples, não irei considerar a regra de conta-corrente estabelecida pelas regras do Selo. Imaginemos uma unidade de produção de biodiesel com as seguintes características:
  • Capacidade máxima de produção diária = 800 m³ (equivalente a uma capacidade anual de 288.000 m³).
  • Planta de biodiesel integrada com esmagamento de soja.
  • Produção de biodiesel 100% proveniente do óleo de soja do seu esmagamento.
  • Programa de Selo Social integralmente feito com cooperativas de agricultura familiar dos três estados do Sul do Brasil.
  • Custo de bônus + ASTEC = R$ 1,80 por saca.
Para que esta usina tenha cobertura de Selo Social equivalente a 100% da sua produção de biodiesel, ela terá de gastar em bônus + ASTEC o equivalente a R$ 11,5 milhões. Deverá, neste cenário, ser originado um total de quase 390 mil toneladas de soja proveniente de cooperativas de agricultura familiar. Se esta unidade realmente conseguir rodar a 100% da sua capacidade, ela terá, no final do ano, incorrido em custo de R$ 40,20 por m³ de biodiesel ou R$ 45,70 por tonelada do biocombustível.

Suponhamos que, por um problema de natureza técnica, financeira, regulatória ou comercial, esta usina tenha conseguido utilizar apenas 60% da sua capacidade máxima de produção, ou seja, 480 m³ por dia (ou 172.000 m² no ano). Como ela se comprometeu com a aquisição de quase 390 mil toneladas de soja da agricultura familiar junto às cooperativas fornecedoras, ela terá de cumprir estes contratos e terá de pagar os valores de bônus e ASTEC referentes a este volume. Isto significa que o custo relativo a Selo Social por unidade de produção irá subir. Em outras palavras, os R$ 11,5 milhões corresponderão a R$ 67,32 por m³ de biodiesel ou R$ 76,50 por tonelada do biocombustível. O custo de Selo Social se comporta de forma idêntica aos outros custos fixos do negócio. A estratégia de preços mais baixos de uma empresa em determinado momento pode ser motivada pelo interesse em diluir estes custos, ou seja, torna-los menores por unidade de biodiesel.

Continuando com a ilustração, vamos supor que esta mesma unidade produtora de biodiesel fabrique seu produto usando um blend de matérias-primas ao invés de grãos de soja como matéria-prima exclusiva. Suponhamos que este blend de matérias-primas seja composto por 70% de grãos de soja e 30% de sebo bovino e óleos vegetais processados. A tabela abaixo traz uma análise comparativa entre os custos relativos ao Selo Social para os dois cenários acima discutidos:

Cenário 1: biodiesel produzido exclusivamente a partir de soja em grãos.
Cenário 2: biodiesel produzido a partir de um blend de matérias-primas composto por 30% de sebo, óleo de algodão e óleo de soja e 70% a partir de soja em grãos.
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*Considerando que a empresa realizou seu programa de Selo Social considerando 100% da sua capacidade produtiva em ambos os cenários.
**Considerando que a empresa produziu 100% da sua capacidade de produção ao longo do ano, diluindo ao máximo, portanto, o custo de Selo Social.

O quadro acima mostra que uma empresa que gerencie de forma estratégica seu suprimento de matéria-prima para a produção de biodiesel (arbitrando entre as diferentes matérias-primas disponíveis no mercado) tem condições de obter ganhos próximos a R$ 2 milhões por ano (ou quase R$ 7 reais por m³) em relação a um player com as mesmas características produtivas e que gerencie seu suprimento de matéria-prima de forma mais simplista. Isto considerando apenas ganhos com o Selo Social.

Partindo para o fechamento deste artigo, vale a pena fazer a seguinte reflexão: imaginemos agora duas plantas de biodiesel com as mesmas características produtivas mencionadas no início deste artigo (capacidade produtiva de 800 m³ por dia, Selo Social feito integralmente no Sul). Suponhamos que uma destas plantas não possua esmagamento de soja, ou seja, seu suprimento de matéria-prima seja composto exclusivamente de óleo de soja, sebo bovino, óleo de algodão ou outras matérias-primas que não soja em grão. A outra planta, por outro lado, possui esmagamento de soja e não compra outras matérias-primas no mercado para a sua produção de biodiesel. Os custos de Selo Social destas duas plantas seriam:

Planta 1: com esmagamento de soja;
Unidade opta por produzir biodiesel exclusivamente a partir do óleo de soja fornecido pelo seu esmagamento;
Capacidade diária de produção = 800 m³ por dia.

Planta 2: sem esmagamento de soja;
Produção de biodiesel integralmente à base de óleo de soja, sebo bovino e óleo de algodão;
Capacidade diária de produção = 800 m³ por dia.
 
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Levando em conta somente os custos diretos, a planta 2 tem uma economia de 54% com Selo Social em relação à planta 1. Se considerarmos os custos indiretos (por exemplo, número de pessoas necessárias para gerenciar os contratos de agricultura familiar), esta economia é ainda maior, haja vista que a planta 1 terá de ter mais gente em campo e no escritório para coordenar quase 400 mil toneladas em contratos de soja da agricultura familiar, enquanto que a planta 2 precisará gerenciar menos do que a metade disso. Percebam que não entramos no detalhe sobre o quanto uma unidade produtora de biodiesel poderia ganhar em termos de redução de custo de aquisição de matéria-prima quando se tem a oportunidade arbitrar entre as várias opções disponíveis no mercado (sebo, óleo de soja, óleo de algodão, soja em grão).

Este ponto apresentado é apenas um dos vários que uma unidade produtora pode atuar no sentido de reduzir seus custos e aumentar sua competitividade. E é também uma das diversas maneiras que a Vedana & Goulart Consultoria pode ajudar uma usina a melhorar sua performance no negócio de biodiesel.

Daniel Goulart – Sócio da Vedana & Goulart Consultoria

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