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2006

Vittorio Medioli - Menos mamona e mais pinhão


2006 Março - O Tempo - BH - 05 mar 2006 - 23:28 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:22

Recebi nos últimos dias mais de cinqüenta manifestações a respeito do texto “Mamona assassina*”, publicado recentemente nessa coluna. Artigo bom! Teve até plágio, ipsis literis, da professora Adriana Flach da Universidade Federal de Roraima (!). Certo é que navegando por muitos sites o texto bateu na trave e respingou na mesa do presidente Lula que exigiu de pronto providências da sua equipe. **

A maioria dos leitores, especialmente quem estuda a produção de biodiesel, foi favorável às minhas ponderações críticas ao uso da mamona, assim como está sendo apresentada no programa lançado pelo governo. Recebi outras mensagens nitidamente contrárias e, como sempre, de dois ou três fanáticos que enxergam o mundo de cabeça para baixo. Vieram no bolo das acusações “libelo contra o biodiesel”, “desinformado”, “colunista de província”, “gringo” etc. ***

No meio de tantas mensagens uma em língua espanhola me alegrou, chegando de Buenos Aires, e me certificou como um ser inteligente que não fala português, mas entende de biodiesel, e compreendeu o cerne do problema.

Vejam o que ele diz, “El programa para producir biodiesel (no Brasil) es un fracaso total desde el punto de vista agrícola, político, económico y más desde el punto de vista tecnológico. Es simplesmente el sueño de uma política mal informada y populista que se quiere aprovechar de la (aparente) ignorancia dos que creen y confían em uma política que les ‘está tomando el pelo’ (em português: “tirando o couro”). Qué pena que en un país civilizado como Brasil tenha que suceder esto. Lo que está ocurriendo verdaderamente es esclavitud moderna utilizandose del trabajo sincero de campesinos nordestinos”.

O leitor argentino foi sem cerimônia à jugular do assunto, mas o que ele diz coincide com uma grande parcela de pessoas que torce para o sucesso do programa, o conhece e lamenta tanto os erros “tecnológicos” como as trapalhadas eleitoreiras.

Se o presidente Lula fosse bem assessorado compreenderia que o biodiesel não merece ser tratado como o seu governo o trata, ou seja, cada vez mais eleitoralmente inventando ficções já vencidas, em parte pela experiência e em outra pelos estudos.

Hoje conspiram contra o biodiesel os interesses da Petrobras (que vê uma ameaça na alternativa “de fonte renovável”), da Receita Federal (interessada em manter os impostos que incidem sobre os derivados de petróleo e deverá ceder sobre os biocombustíveis), dos escroques (vendendo tecnologias furadas depois de ter perdido a freguesia de elixir de longa vida) e da Casa Civil (voltada à reeleição). Acrescente-se o enxame de políticos que em ano eleitoral precisam montar um espetáculo em seus redutos castigados pela seca.

É nessa convergência de tantos interesses subalternos que vem crescendo o monstrengo chamado de “programa do biodiesel”. A mamona virou estrela no mesmo momento em que se registra uma queda vertical de sua produção no seu principal pólo!

Data vênia, a via correta do biodiesel passa mesmo pelo semi-árido nordestino e pelas áreas “pobres”, suficientemente extensas e inaproveitadas, plantando oleaginosas da família do pinhão-manso.

Um grupo de cientistas que pessoalmente recolhi pelo caminho à procura de uma solução limpa para abastecer caminhões, depois de três anos de pesquisa da qual participei como coordenador, chegou à conclusão que uma espécie rara de pinhão-manso (Jatropha curca) não-tóxico é a via sustentável e até rentável para dar partida à produção de um biodiesel competitivo, que possa garantir renda ao pequeno produtor.

Entretanto, a Jatropha não-tóxica (e não-trangênica) será disponível em larga escala a partir de 2008 trazendo a vantagem de uma produtividade até quatro vezes superior à mamona sem precisar de replantio e permitindo a consorciação com outras espécies de culturas como feijão e milho. Apenas essa espécie gerará resíduos aptos à adubação sem riscos ao consumo alimentar.

É bom deixar claro que outra oleaginosa “nobre” como a soja não sobra no mercado internacional, e caso se desvie quantidade significativa dela para produzir biodiesel passará a faltar para uso alimentar. O aumento de demanda da soja representa, ainda, um risco de mais desmatamento para dar lugar a sua cultura. O que parece recomendável e viável é incentivar a rotatividade com oleaginosas nos ciclos de produção da cana-de-açúcar aproveitando os aspectos sinérgicos das atuais usinas de álcool.

Não seria uma solução definitiva, mas já representaria uma quantidade significativa para substituir diesel na região Sul. A quem me acusa de ignorância tiro o chapéu e faço reverência. “Eu sei de não saber”. Ignoro muito, estudei apenas por milhares de horas nos últimos quatro anos o assunto, rodei três continentes para ver de perto e tirar dúvidas.

Ainda prefiro me sentar no banco para escutar profetas e falsos profetas. Quando estiver mais maduro publicarei minhas experiências esotéricas a título de contribuição com a humanidade não-xenófoba (os xenófobos quero que paguem seus pecados de intolerância e arrogância). Até lá não vou me calar frente aquilo que reputo exploração dos inocentes. Só isso.

Para finalizar, me permito lançar uma proposta, “Jogue- se fora esse programa de biodiesel, pare-se de falar de mamona e de oferecê-la a Requião”. A mamona pode “matar”.

VITTORIO MEDIOLI é colunista do jornal O Tempo de Belo Horizonte

Notas BiodieselBR:

* Texto publicado aqui com o nome "A farsa da mamona e os pseudofabricantes de biodiesel". 

**  Nós não tivemos acesso a resposta do planalto, assim solicitamos aos leitores do jornal o dia ou ao próprio planalto a reposta, para que seja publicada aqui.

*** O autor possivelmente se refere a repercussão de seu artigo em nosso site.

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