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2006

Medioli: A farsa da mamona e os pseudofabricantes de biodiesel


2006 Fevereiro - O Tempo - BH - 08 fev 2006 - 22:00 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:22

Logo após o discurso em que Lula se apresentou humildemente como o Getúlio Vargas do biodiesel e anunciou que a Petrobras contratou a compra de 65,3 milhões de litros desse combustível, ofereceu um frasco de sementes de mamonas ao governador do Paraná, Roberto Requião que, de pronto, passou a mastigá-las como se fosse amendoim salgado.

Risadas de Lula e um aviso, “É tóxica”.

Requião, governador de um Estado que “vive” de agricultura, não sabia até ontem o básico, o bê-a-bá que um trabalhador rural aprende antes mesmo de dar o primeiro golpe de enxada.

Do óleo de mamona se extrai a ricina, um portentoso veneno, mais mortífero que o da jararaca. Em pequenas quantidades, como se encontra no óleo de mamona, provoca um poderoso efeito laxante. Todavia, hoje foi banido da farmacopéia por sua elevada periculosidade.

As risadas de Lula-Getúlio e a fome de Requião (em ano eleitoral) não são bons sinais para o programa do diesel vegetal. Um programa que pode substituir o petróleo, gerar alternativas renováveis, renda e emprego.

A própria toxicidade da mamona que será plantada, segundo Lula, em grande quantidade no Nordeste trará problemas ambientais desde o plantio até a industrialização. Mamona deverá doer não só no estômago e nos pulmões dos desavisados, ela afetará já na primeira fase os bolsos dos agricultores.

É um óleo, próprio para uso lubrificante, comercializado a US$ 1.000 a tonelada, valor que lhe garante competitividade com o barril de petróleo acima de US$ 150. Absurdo, ainda, suar para produzir um óleo de US$ 1.000 a tonelada para transformá-lo em diesel que vale internacionalmente US$ 480. Alguém usaria uísque de 18 anos para produzir outro de 8 anos?

A relação custo/benefício e as características químicas da mamona não atendem ao programa de biodiesel, como não atendem por outras razões sementes oleaginosas como a soja, o nabo forrageiro, o girassol e o amendoim.

Nos ambientes (sérios) de estudo e pesquisa já se conhecem essas limitações. É uma pena, todavia, que apareçam nas telas de televisão malabaristas para badalar o assunto.

Por que razão os maiores esmagadores mundiais de soja (quem mais entende do assunto) não aderiram ao programa exaltado por Lula?

Tem algo errado. Ou tem algo eleitoreiro demais.

Ainda sobre a mamona: vale lembrar que a produtividade média por hectare no Brasil é de uma tonelada, seu preço é R$ 500 e requer plantio e colheita manual a cada ano. Um hectare fornece, portanto, cerca de 440 litros (40% do peso da semente) de biodiesel por cada hectare plantado, uma quantidade ínfima para um plano de larga abrangência e geração de renda.

Basta pensar que um hectare de cana, que se replanta uma vez a cada quatro colheitas, produz em média no Brasil 7.000 litros de combustível.

Mais problemas: a combustão do biodiesel de mamona, pelo excesso de resíduos, empastela o motor.

Com o mundo movido a dinheiro precisa enfrentar outro obstáculo: não existe margem econômica para quem planta apenas mamona, para quem extrai seu óleo visando ao combustível e para quem o comercializa como biodiesel. Outra impossibilidade crônica é o fato de que a União e os Estados deveriam retirar todos os tributos que mordem na venda de combustível e fornecer subsídios desbragados a todos os participantes da cadeia.

Preste-se atenção, também, ao rol das empresas que assinaram contrato com a Petrobras: a maioria delas não tem condição de produzir nem poucos litros por dia, suas plantas industriais são tecnicamente inviáveis e rudimentares.

Quem é técnico do setor alerta que em menos de dois anos esses pseudofabricantes fecharão as portas, algumas sem ter produzido uma tonelada.

Na Internet sobram alertas, explicações científicas, cálculos econômicos sobre a inviabilidade do programa lançado pelo Planalto.

Alguns, professores e cientistas, o ridicularizam sem meios termos.

Ainda é preciso lembrar que a Petrobras, coordenadora oficial do programa, ganha (e muito) com extração de petróleo. Sabemos que na estatal são todos santos, mas não existe dentro dela qualquer estímulo para desenvolver uma tecnologia que concorra com seu monopólio. Ou alguém gostaria de atirar no próprio pé?

O programa é viciado de ingerências, de exaltações eleitoreiras, de demagogia, de lógica marqueteira. Pretende- se com ele fazer sonhar o “pobre” nordestino, como já se tenta com a transposição do São Francisco que nunca dará certo, pois se trata de “loucuras” sem lastro.

O biodiesel chegará sim a resultados, por outros caminhos, com outras técnicas que não as propaladas. Até lá os improvisos, as precipitações, as sabotagens, os interesses oblíquos e eleitorais provocarão perdas de tempo precioso e de capitais. Um enxame de escroques já ronda o negócio, alguns cobrando royalties e preços obscenos para vender água com açúcar como elixir de longa vida!

Os tropeços do programa, em suas fases iniciais, deixarão a via livre aos combustíveis fósseis, a cada dia, mais caros e lucrativos.

E se Requião não sabe o que come, Lula não sabe o que diz, ou diz apenas o que é bom para aumentar seu cacife eleitoral.

VITTORIO MEDIOLI é colunista do jornal O Tempo de Belo Horizonte

Jornal O Tempo - Vittorio Medioli 

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