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Sinais do Mercado

No final de junho saiu o esperado relatório de plantio da safra de verão americana, produzido pelo Departamento de Agricultura dos EUA. Em linhas gerais, era o que o mercado estava esperando, ou seja, diminui a área de soja e algodão e aumenta a área de milho. O que sacudiu o mercado foi a intensidade das modificações, com uma subida mais forte do que o esperado na área de plantio de milho e uma queda muito forte na área de soja.
Decio Luiz Gazzoni 5 min de leitura
No final de junho saiu o esperado relatório de plantio da safra de verão americana, produzido pelo Departamento de Agricultura dos EUA. Em linhas gerais, era o que o mercado estava esperando, ou seja, diminui a área de soja e algodão e aumenta a área de milho. O que sacudiu o mercado foi a intensidade das modificações, com uma subida mais forte do que o esperado na área de plantio de milho e uma queda muito forte na área de soja.

O que está nos bastidores do relatório são dois aspectos importantes. O primeiro aspecto é que os EUA estão no limite da sua área agricultável, a menos que seja reduzida a área de proteção ambiental. Ou seja, para aumentar a área de um cultivo, os americanos precisam reduzir no mesmo tamanho a área de um ou mais cultivos, plantados na mesma época.

O segundo aspecto é o crescimento da área agricultável dedicada à obtenção de biocombustíveis. Os diferentes níveis de governo dos EUA (estaduais e federal) estão exarando diversas políticas públicas de suporte à produção e uso de etanol e biodiesel. São políticas mandatórias de mistura e políticas fiscais de fomento, além dos subsídios às diferentes cadeias produtivas.

O descompasso nas áreas de soja e milho ocorreu porque o incentivo para a produção de etanol de milho foi muito mais intenso que o incentivo para produção de biodiesel de soja. Nada a ver com a eficiência energética de um ou outro combustível, mas sim com o peso dos lobies. O lobby da cadeia do milho tem sido muito mais eficiente que o da soja e conseguiu diversos benefícios, em especial financeiros, que redundam em fomento para a expansão da área. Na pratica significa que 20% da área de milho norte-americana será destinada a produzir etanol. E, diga-se de passagem, um etanol caro e insustentável do ponto de vista energético, que apenas se mantém à tona à custa de pesados subsídios governamentais.

Com a subida da área de milho, a nova previsão de colheita de soja retraiu para perto das 80 milhões de toneladas. Logo o mercado fica atento a qualquer perturbação climática durante a safra americana. E também vai ficar ligado no comportamento do clima entre novembro e março, período de cultivo da soja no Brasil e na Argentina. Uma seca mais forte ou mesmo um ataque mais intenso da ferrugem, pode fazer a cotação da soja disparar, podendo até atingir a maior cotação da série histórica.

O reflexo desta modificação na agricultura americana é o aumento do preço da soja no mercado internacional e, conseqüentemente, do óleo de soja. O óleo de soja atingiu cotação próxima a US$800,00, na esteira da subida do preço da soja. E aí não há como não discutir o conflito entre produção de energia e produção de alimentos, em escala planetária. No nosso Brasil, temos área suficiente para dar conta da demanda doméstica tanto de alimentos quanto de agroenergia. Entretanto, vivemos uma quadra de comércio globalizado com canais comunicantes que internalizam preços em função da situação da demanda e da oferta mundial de produtos agrícolas.

E então chegamos ao biodiesel e aos seus custos de produção. Não há como não levar em consideração que a subida de preços dos óleos em geral – e da soja em particular – vai causar profundas turbulências no mercado de biodiesel, podendo comprometer as metas previstas na Lei de Produção e Uso de Biodiesel. É preciso também considerar que não se trata apenas de produção de biodiesel nos EUA e no Brasil. É preciso considerar que existem outros 70 países com políticas públicas de fomento ao uso do biodiesel e que, em teoria, vão entrar no mercado comprando óleo e pressionando ainda mais as cotações. Em especial, é preciso olhar com cuidado para a União Européia, que leva muito a sério as metas de inclusão de energia renovável na matriz e que prevê a adição de 5,75% de biodiesel no diesel vendido no Velho Continente.

É preciso aproveitar a turbulência do mercado – que vai durar alguns anos – para investir na busca de novas fontes de matéria prima, em especial oleaginosas de uso exclusivamente industrial, que sofram menor interferência da competição entre produção de energia e de alimentos. É necessário garantir os recursos para as instituições de pesquisa, de maneira que, ao longo da próxima década, o Brasil possa dispor de outras alternativas de oleaginosas, garantindo as condições para o atingimento das metas propostas na legislação.

Decio Luiz Gazzoni é Engenheiro Agrônomo, colunista membro do Painel Científico Internacional de Energia Renovável.
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