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Fábio Rodrigues, de São Paulo
Por dever de ofício, damos muito mais atenção à porta de saída das usinas. É por ela, afinal, que precisam sair, sem falha, os bilhões de litros de biodiesel que mantêm o Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel nos trilhos. Mas para que tudo suceda sem contratempos, um bocado de coisas igualmente impressionantes precisa acontecer antes. Afinal de contas, para que bilhões de litros de biocombustível acabado saiam por uma porta, antes os mesmos bilhões de litros têm que entrar na forma de matérias- -primas e insumos.
Conseguir costurar uma operação dessas e fazê-la funcionar não é algo banal. Até porque os volumes envolvidos são sempre espantosos, mesmo no caso de uma usina relativamente pequena. Basta considerar a menor produção entre as 40 usinas que operaram durante o primeiro semestre de 2014: “apenas” 380 mil litros, algo em torno de 2.100 litros todo dia. Já a maior produção foi de 132,8 milhões de litros – o bastante para encher mais de 50 piscinas olímpicas.
Para manter girando as engrenagens nessa escala de produção, as usinas precisam ir às compras constantemente. O óleo de soja está no topo de sua lista de prioridades, uma vez que foi a origem de 75,1% do biodiesel brasileiro fabricado entre janeiro e junho – foram mais de 1,13 bilhões de litros. E a tendência é que a fatia da soja cresça ainda mais, à medida que os reflexos da introdução do B6 e do B7 se façam sentir até o final do ano.
Integradas
Nem todas as usinas precisam sair correndo como loucas para garantir o óleo que precisam para operar. Parte considerável delas, especialmente as de maior porte, faz parte de grupos verticalizados que contam com esmagadoras próprias e prefere trabalhar com soja em grão comprado diretamente dos agricultores. O interessante é que elas não ficam sentados sobre o produto, mas, na prática, deixam tudo vendido. “Eles vendem o farelo e óleo [de soja] na [Bolsa de] Chicago no mercado futuro. Quando o leilão vem e [a usina] sabe quanto conseguiu vender e fixou o preço, vai lá e recompra essas posições que havia vendido em Chicago”, explica João Batista Cardoso. No fundo, compram de si mesmas.Cardoso já esteve dos dois lados desse balcão, como diretor da usina goiana Binatural e, hoje, como um dos sócios da Fortisagro – plataforma online para a negociação de produtos do (ou para o) agronegócio. Para ele, as empresas pequenas são as que mais compram no mercado spot. “É o que os pequenos fazem, compram pouco depois do leilão”, diz.
Na prática, contudo, todo mundo se aventura no mercado. “Todas compram no [mercado] spot. Sempre tem alguém comprando”, diz Andrea de Melo, que há três anos coordena a área de óleos vegetais e subprodutos animais da UniAmérica, corretora paulistana com atuação no mercado de óleos vegetais.
Até a elite do setor vez ou outra tem que recorrer a fornecedores externos para conseguir fechar o suprimento. É o caso, por exemplo, da gaúcha Bianchini. Embora seja um dos maiores grupos verticalizados de soja do país, a empresa não dispensa as aquisições. “Nesses dois últimos anos precisamos comprar um pouco de óleo do mercado”, reconhece o diretor executivo da empresa gaúcha, Antin Bianchini. Segundo o executivo, aproximadamente 5% do volume de biodiesel foi fabricado a partir de óleo adquirido. Considerando que no ano passado a empresa fabricou pouco mais de 192,5 milhões de litros, estamos falando de 9,5 milhões de litros comprados.
Melo explica que, embora invariavelmente comprem em “programações mais longas”, as usinas nunca deixam passar uma boa oportunidade. (O termo descreve as condições de entrega: um contrato para entrega na semana que vem é curto; um que preveja entregas ao longo dos próximos dois ou três meses é longo.) “Elas compram o volume maior com uma programação longa e quando a matéria-prima cai, vão para o spot para fazer média de preços”, complementa, acrescentando que outras matérias-primas importantes – como o sebo bovino, por exemplo – praticamente só estão disponíveis no mercado spot. “No caso do sebo, o mercado é spot porque não tem volume para fazer programação longa”, arremata.
De 2 em 2
A despeito da importância dessas aquisições de oportunidade, as programações das usinas de biodiesel tendem a acompanhar bem de perto o cronograma dos Leilões de Biodiesel da ANP. É o que informa a Louis Dreyfus Commodities (LDC) – uma das maiores negociantes de commodities agrícolas do mundo e dona de cinco processadoras de oleaginosas só aqui no Brasil – quando questionada pela reportagem de BiodieselBR. “A maior parte das produtoras de biodiesel somente compra óleo após a conclusão do leilão de biodiesel”, afirmou a empresa por meio de sua assessoria de imprensa.Outras fontes ouvidas por esta reportagem concordam que esse é o padrão da indústria. “Elas compram conforme o leilão”, explica Adriane Gaia, responsável pela unidade de soja da Aboissa. “Eles tentam garantir uma parte boa de volume numa programação longa, mas estão sempre comprando de acordo com as oportunidades de mercado”, aponta.
Isso não significa que as estratégias de negócio sejam todas iguais. “Cada empresa tem sua própria estratégia”, analisa Cardoso. Saber navegar com maestria entre as diferentes opções faz diferença, mas já ficaram para trás os tempos em que um negociador virtuoso poderia subverter o mercado. A soja, como outras commodities, é um produto de grandes escalas e margens magérrimas. “O mercado está muito plano, sem diferenças muito grandes. Hoje o preço da tonelada varia R$ 20 ou R$ 30”, opina Cardoso, lembrando que qualquer um que tenha um smartphone pode acompanhar as cotações internacionais praticamente em tempo real.
Comprar de quem?
Mesmo que a diferença seja pouca, todas as usinas estão atrás dela e o caminho mais comum para fechar negócios tende a ser por meio das corretoras. Antin Bianchini estima que aproximadamente 60% das aquisições feitas pelas usinas de biodiesel passa pelas casas de corre-tagem especializadas. “Eu entendo que o maior volume transita através das corretoras, embora o volume de negociação direta não seja nada desprezível”, pondera o entrevistado.Pode soar um tanto contraintuitivo que usinas que estejam atrás de margens mínimas topem colocar mais um elo na cadeia de negociação – especialmente um que vive de cobrar comissões –, mas Andrea diz que ter a informação certa à disposição pode fazer a diferença. “Como eles [as usinas] operam sempre dentro de uma mesma região, os preços ficam muito parecidos. Eles nos procuram para ter uma informação mais geral, a gente pode ter a resposta já na ponta do lápis”, comenta.
Adriane, da Aboissa, ressalta ainda que um dos papéis das corretoras é “buscar o melhor negócio” de forma ativa para seus clientes e que, no final das contas, é o comprador que vai bater o martelo. “O que ele encontrar de melhor [em termos de preços] ele fecha”. Ela diz que as usinas têm uma arma fundamental para conseguir preços melhores: grandes volumes. “O ás que as usinas têm na manga é o volume e as retiradas constantes. Isso permite que elas consigam negociar preços melhores, normalmente abaixo dos preços de indicação”, avalia.
Foi justamente para tentar encurtar a distância que ainda separa comprador e fornecedor que João Batista Cardoso fundou a Fortisagro. “A ideia é agilizar o processo de compra e venda”, diz, explicando que por meio da ferramenta as empresas podem anunciar ao mercado o que querem vender – ou o que precisam comprar – para o negócio ser fechado diretamente.
No fundo, todas essas opções não passam de atalhos. A relação que importa de verdade aqui é entre os fabricantes de óleo e os produtores de biodiesel. É aí que algo estranho acontece. Como muitas das grandes processadoras acabaram entrando no mercado de biodiesel, não chega a ser incomum que concorrentes num elo da cadeia também sejam parceiros de negócios em outro. Cardoso acha que essa é uma situação que já entrou na normalidade do mercado. “Digamos que um grupo verticalizado esmague 3 mil toneladas de soja por dia, ele vai produzir umas 18 mil toneladas de óleo por mês. Aí ele vende 15 milhões de litros de biodiesel no leilão. O que ele vai fazer com o resto do óleo?”, questiona.
Na cama com o inimigo
Não significa que todos vendam para a concorrência. Adriane lembra que grupos mais complexos geralmente terão opções melhores de venda. “Elas podem vender o óleo delas envasado, na forma de biodiesel ou a granel. O que vai definir é como o mercado está. Mas é mais raro para as verticalizadas venderem para outras usinas de biodiesel porque não dá preço”, comenta.De qualquer forma, não estão faltando fornecedores no mercado. De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), há 104 processadoras de oleaginosas em atividade espalhadas por 14 estados brasileiros e nem todas contam com usinas. A Dreyfus, por exemplo, não atua com biodiesel no Brasil. Potências nacionais como o Grupo Amaggi, a Coamo ou a Cocamar também não.
Além do mais, o mercado brasileiro passa por um período bom em termos de abastecimento. As projeções da Abiove indicam que este ano o Brasil vai produzir 7,1 milhões de toneladas de óleo de soja, dos quais pouco mais de 2 milhões de toneladas (mais ou menos 28% do total) serão absorvidas para a produção de biodiesel. “Nota-se que há disponibilidade suficiente no que diz respeito ao fornecimento de matéria-prima”, diz o economista Leonardo Zilio, da entidade.
Para Cardoso, da Fortisagro, o risco de uma usina não verticalizada acabar ficando nas mãos de algum concorrente é pequeno. “Elas têm de quem comprar”, garante. O que acontece é que as verticalizadas conhecem bem o negócio dos concorrentes e trazem essa expertise para a negociação. “Uma ADM da vida sabe como funciona o mercado de biodiesel. Mas o mundo é assim mesmo. Os pequenos têm que comer pelas beiradas”, comenta.
Sem contar que mesmo os concorrentes mais aguerridos não desprezariam um bom comprador. Antin Bianchini mesmo reconhece que vender para outras usinas de biodiesel seria sua primeira alternativa se tivesse óleo à disposição. “A gente não vive de preconceitos, mas de contas e de resultados financeiros”, resume.
