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Nos pequenos frascos

entrevista
Rodrigo Prosdócimo Guerra tornou-se uma das vozes mais importantes em defesa da indústria de biodiesel, em especial das menores empresas
Edição de Abr / Mai 2014 13 min de leitura
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Rodrigo Prosdócimo Guerra tornou-se uma das vozes mais importantes em defesa da indústria de biodiesel, em especial das menores empresas

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Rodrigo Prosdócimo Guerra tornou-se uma das vozes mais importantes em defesa da indústria de biodiesel, em especial das menores empresas


Fábio Rodrigues, de São Paulo

A Bio Óleo ocupa um lugar desproporcional no setor de biodiesel. Com uma capacidade produtiva relativamente modesta – com 54 milhões de litros anuais, ela é apenas a 41ª do ranking –, essa usina de Cuiabá (MT) acabou virando uma das referências do setor. Isso porque seu presidente, Rodrigo Prosdócimo Guerra, se tornou uma das vozes mais ativas em defesa da indústria, especialmente no que diz respeito à importância das empresas de menor porte para o Programa Nacional de Produção de Biodiesel. Foi sobre isso que ele conversou com BiodieselBR.

BiodieselBR – Qual é a história da Bio Óleo?
Rodrigo Guerra – A Bio Óleo começou em 2006. A empresa foi idealizada por meu pai, que foi aconselhado pelo próprio Univaldo Vedana [um dos fundadores de BiodieselBR] de que o biodiesel poderia ser um negócio promissor. Então o meu pai me convenceu a entrar nesse negócio junto com ele e o meu tio. Na época eu estava em Goiás e tinha empresa do ramo de galvanização. Vendi tudo e me mudei para Cuiabá. Nosso contrato social foi firmado em novembro de 2006, tendo o biodiesel como seu principal objeto. Atualmente, meu pai não faz mais parte do quadro societário. Os proprietários da Bio Óleo somos eu e o meu tio.

BiodieselBR – E como a Bio Óleo tem evoluído nesses mais de sete anos?
Rodrigo Guerra – Era uma empresa que tinha uma capacidade autorizada para 10 mil litros por dia [3,6 milhões de litros por ano]. No final de 2011 a gente evoluiu para uma capacidade de 150 mil litros por dia [54 milhões de litros por ano], começando a vender com essa capacidade em 2012. Esse aumento de capacidade nem chegou a ser bem um esforço para maximizar nossos lucros, o que estávamos tentando era mais nos manter no mercado.

BiodieselBR – Recentemente tivemos usinas, algumas delas importantes, anunciando sua saída do ramo. Qual é a sua leitura para esse momento do mercado? A situação é mesmo desanimadora?
Rodrigo Guerra – Termos players saindo do mercado ou colocando seus negócios em suspensão. É uma coisa que a gente já sabia que poderia acontecer. Temos uma superoferta no mercado, então algo assim era até inevitável. Particularmente, eu não vejo a situação atual como desanimadora, mas reconheço que a situação é, no mínimo, desafiadora. O que as empresas do setor precisam fazer é modificar seus modelos de negócio.

BiodieselBR – E como a Bio Óleo está se preparando para esse desafio?
Rodrigo Guerra – Acho que a exigência do mercado de hoje é ter uma usina que seja o mais flexível possível no uso de matérias-primas, que não fique restrita à soja. Você também tem que adequar a parte fabril para ter a maior eficiência possível. Essas são as duas primeiras coisas que me vêm à cabeça. Outra coisa importante é não ficar tão alavancado, não descuidar da qualidade e construir um bom relacionamento com as distribuidoras. No fundo, precisa de um diferencial num mercado cujas margens são reduzidíssimas. Construir esse diferencial passa a ser o desafio do setor. Outra alternativa seria partir para a diversificação de atividade agregando outros tipos de produtos que possam ajudar você a se manter no mercado. Sei que já há usinas caminhando nesse sentido.

BiodieselBR – Quais seriam as possibilidades de diversificação para uma usina de biodiesel?
Rodrigo Guerra – A indústria química é muito versátil e muito fértil nisso. A parte fabril do biodiesel pode ser adaptada para outros afazeres químicos e produtos. No próprio beneficiamento da glicerina, você pode começar a aproveitá-la internamente para fabricar produtos de limpeza. É tudo uma questão de fazer as adaptações necessárias e conseguir as autorizações dos órgãos competentes.

BiodieselBR – Muita gente fala do novo marco regulatório como se ele fosse a única saída para o setor. Você concorda com isso?
Rodrigo Guerra – O problema é que, quando a gente fala no marco regulatório, não estamos falando apenas de aumento na mistura. Estamos falando de um arcabouço legal que vai trazer uma segurança maior para os investimentos. O que queremos é poder programar a nossa vida. Se o biodiesel é um mercado regulado, então a gente precisa saber quais são as regras, não é mesmo? Sem isso, a gente não sabe se deve continuar investindo ou se chegou a hora de sair do mercado. Até 2013 a gente tinha um marco regulatório que nos dava um norte. Hoje não temos mais isso. Logicamente que, dentro disso, a coisa mais esperada pelas empresas é o aumento na mistura, porque isso pode resolver parte da sobreoferta no setor. Essa é a única saída? Eu não diria isso, mas é uma das saídas mais importantes.

BiodieselBR – E se o marco acabar não vindo?
Rodrigo Guerra – Se o marco não vier, isso teria que ser colocado claramente pelo governo. Teria que dizer: “Não vai acontecer”. Acho que o governo federal tem uma obrigação moral com o mercado de biodiesel. Precisamos de algo mais concreto para podermos tomar decisões relativas aos nossos negócios.

BiodieselBR – Mas o setor pensa em alternativas para criar mais demanda para o biodiesel? Antes havia propostas como o B20 Metropolitano, mas já tem um bom tempo que não vemos outras bandeiras sendo agitadas.
Rodrigo Guerra – A proposta que sempre se mostrou mais promissora e mais próxima de acontecer para aumentar a demanda era a exportação de biodiesel. À primeira vista, esse seria o caminho mais fácil. Mas as usinas que já exportaram ou que têm um interesse maior no mercado externo reclamam que a tributação afeta aviabilidade desse negócio. Esse é um sentimento generalizado dentro do setor, o de que sem mudanças na tributação, não vamos conseguir ter a competitividade que precisamos para exportar. As empresas já estão em seu limite de rentabilidade. Sozinhas elas não conseguem mais baixar o preço do biodiesel para conseguir exportar. Resolver isso exigiria um trabalho conjunto entre governo e empresas.

BiodieselBR – E quanto ao Biodiesel Interiorano? Com os preços do diesel e do biodiesel cada vez mais próximos não há um aumento de interesse?
Rodrigo Guerra – No momento não temos nenhum trabalho nesse sentido porque isso dependeria de um arcabouço legal que não existe. O Biodiesel Interiorano é muito mais complicado na prática do que na teoria porque existem várias barreiras. É verdade que o biodiesel esteja custando até menos que o diesel nos postos, o que tornaria a venda economicamente viável aqui nos estados do Centro-Oeste. Legalizar isso é um trabalho de Hércules que não temos mais força para fazer sozinhos, e não encontramos as parcerias que precisaríamos.

BiodieselBR – Que parceria seria essa?
Rodrigo Guerra – Com os governos estaduais e o governo federal. Uma questão importante com a qual esbarramos quando falávamos do Biodiesel Interiorano é o que aconteceria nas fronteiras entre os estados, porque de cada lado da linha você teria uma mistura diferente. Para resolver isso precisaríamos de um arcabouço legal que não depende só de nós. A gente deu o pontapé inicial mostrando que havia essa possibilidade, mas nunca tivemos uma devolutiva.

BiodieselBR – Já que estamos falando na relação com os governos estaduais, você acha que eles apoiam o setor como deveriam?
Rodrigo Guerra – Eu não saberia falar sobre a situação nos outros estados, mas aqui no Mato Grosso não temos qualquer problema de conversação com o governo estadual. A conversa por aqui é tranquila. Mas o Mato Grosso enxerga o biodiesel como uma grande alavanca da industrialização, que permitiu dar vazão a uma parcela maior de óleo vegetal. Isso permitiu que nosso estado se tornasse o principal esmagador de soja do Brasil.

BiodieselBR – Essas barreiras das quais estamos falando também atrapalham o uso autorizativo por grandes frotas?
Rodrigo Guerra – O governo federal poderia fazer muito para facilitar o uso autorizativo. Hoje, quem quer usar mais biodiesel precisa conseguir autorização da ANP. Exigir essa autorização chega a ser um contrassenso, porque a ANP não tem poder discricionário sobre esses projetos. Tudo o que ela faz é receber a documentação e, se tudo estiver correto, ela é obrigada a dar a autorização. A forma mais simples de estimular o uso de misturas maiores em frotas seria eliminar a necessidade de qualquer autorização. Se você tem uma empresa autorizada a vender e outra autorizada a comprar, então por que barrar? Poderíamos ter um modelo em que simplesmente informássemos a ANP e pronto.

BiodieselBR – Hoje o mercado de biodiesel é dominado por usinas verticalizadas de grande porte. Ainda há espaço para as pequenas e médias como a Bio Óleo?
Rodrigo Guerra – Sem dúvida, tanto que ainda estamos no negócio. Acho que, desde que essas empresas atuem de forma inteligente, vai continuar existindo espaço para usinas de porte reduzido e não verticalizadas. Elas também precisam ter uma logística boa. As usinas pequenas e médias precisam desenvolver essas características para se manterem competitivas. Sem isso, acho muito difícil as usinas menores se manterem no mercado.

BiodieselBR – O que as pequenas e médias usinas trazem ao mercado de biodiesel que as grandes empresas não poderiam?
Rodrigo Guerra – Eu não diria que as grandes empresas não conseguiriam, mas que elas não teriam tanto interesse em algumas coisas que para as menores são atraentes. Por exemplo, atuar em mercados mais esparsos e fazer negócios com produtores de matérias-primas de pequeno porte. Para os grandes fabricantes isso daria mais trabalho do que valeria a pena. Além disso, as pequenas estão localizadas nas mais diversas regiões do país, o que traz uma capilaridade importante para o negócio como um todo.

BiodieselBR – E por que o governo deveria incentivar as pequenas usinas?
Rodrigo Guerra – O governo deveria incentivar todas as usinas. Mas falando apenas das pequenas, elas, proporcionalmente falando, geram mais empregos e distribuem melhor a renda do que as grandes. Elas também fazem mais Selo Social, garantem a pulverização geográfica do PNPB, melhorando o abastecimento em mercados locais. Além disso, elas movimentam as economias das cidades onde estão instadas. Não é raro que elas sejam a principal fonte de arrecadação desses municípios. Fora isso, elas são as que mais diversificam no uso de matérias-primas, que é uma meta antiga do programa.

BiodieselBR – Algum tempo atrás, as usinas pequenas e médias tentaram se organizar para apresentar pleitos próprios. Você até participou de uma audiência púbica no Senado que debateu as dificuldades dessas empresas. Como está essa articulação hoje?
Rodrigo Guerra – O que queríamos naquela ação [em julho de 2011] era mostrar aos políticos o que aconteceria se nada fosse feito em prol das pequenas e médias empresas. Na época nossa proposta era que os leilões fossem organizados por faixas de capacidade de produção. Por exemplo, usinas de 100 milhões de litros competiriam com outras usinas de 100 milhões de litros. Isso garantiria que os iguais competissem entre si de forma justa, que garantisse a industrialização regional e desse oportunidades de mercado para todo mundo. Ainda acho que essa seria uma maneira inteligente de tratar o mercado porque, infelizmente, é algo que está acontecendo hoje. O mercado só não escuta mais sobre isso porque as usinas pequenas estão sumindo e já não têm mais voz para gritar.

BiodieselBR – Esse não era uma problema mais agudo durante a vigência do antigo modelo de leilão?
Rodrigo Guerra – Se a gente analisar do ponto de vista do poder econômico, não faz tanta diferença. Uma usina pequena não consegue diluir os custos como uma grande, mas isso não quer dizer que ela seja menos importante. Claro que o abastecimento do mercado depende mais das grandes do que das pequenas, mas tem um risco em apostar apenas em usinas grandes porque, se uma grande sai do mercado, deixa um vácuo enorme. A gente só não está sentindo o impacto disso hoje porque temos uma sobreoferta muito grande, mas esse risco faz com que usinas de todas as faixas produtivas sejam importantes.

BiodieselBR – Havia um pleito para que parte do volume dos leilões fosse reservado e dividido entre as usinas com Selo Social. Isso não poderia funcionar como incentivo às pequenas?
Rodrigo Guerra – Antes de falar dessa proposta, a gente precisa entender que aconteceu uma mudança com o Selo Social. Quando foi lançado, ele era um diferencial competitivo para as usinas. Esse diferencial não existe mais. Hoje apenas uma usina [a Amazonbio] ainda opta por não ter selo. Todas as demais ou já têm o selo ou estão em vias de conseguir. Isso quer dizer que o selo virou um encargo, ainda que eu ache muito nobre incentivar a agricultura familiar. Essa proposta da Aprobio procurava criar um mecanismo que reduzisse esse encargo, distribuindo uma parte da demanda entre as empresas que têm selo. Da forma como a proposta foi colocada, ela seria benéfica para usinas de porte menor porque o lote teria mais representatividade.

BiodieselBR – Você também é um dos nomes mais destacados do Sindibio- MT. Como a entidade está ajudando as usinas do estado?
Rodrigo Guerra – O Sindibio busca harmonizar os diversos interesses e pleitos do setor no estado. Sempre que existe alguma questão, o sindicato representa as usinas dentro do estado e nacionalmente defendendo os interesses dos associados. Ela também favorece o congraçamento entre as empresas, mantendo um relacionamento o mais cordial possível dentro dos limites da competição natural. Finalmente, o Sindibio-MT desenvolve uma série de ações pontuais como convênios com empresas de advocacia e ações de treinamento, que ajudam a reduzir os custos das associadas.

BiodieselBR – Um dos motivos de o Mato Grosso ter desenvolvido uma capacidade produtiva importante antes de outros estados foi a soja. Estar perto da matéria- -prima ainda é uma vantagem que compensa por estar distante do mercado consumidor?
Rodrigo Guerra – Eu acho que não podemos ir nem tanto ao sul nem tanto ao norte. Precisamos ter um meio-termo entre a logística de matéria-prima e a do produto final. O equilíbrio entre essas duas coisas é fundamental. Acho que a maior prova disso foi a evolução da capacidade produtiva em Goiás. A produção por lá deu um salto exponencial nos últimos meses.

BiodieselBR – A expansão da malha ferroviária pode ajudar as usinas do Mato Grosso?
Rodrigo Guerra – Sem dúvida nenhuma. No mundo todo, o modal ferroviário é mais eficiente que o rodoviário. Passar a ter esse modal disponível certamente pode melhorar nossa competitividade de forma significativa no longo prazo. Acontece que, pelo menos por enquanto, ainda não conseguimos verificar essa vantagem por aqui. Os dados que eu tenho sobre os preços do transporte ferroviário não tornam seu uso uma vantagem efetiva comparado à opção rodoviária. Pelos custos de hoje simplesmente não compensa ter o trabalho que você teria para desenvolver a logística necessária para trocar os carregamentos rodoviários pelos ferroviários.
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