![]() |
![]() |
![]() |
Juliana Tavares, de Curitiba
Um vazamento, uma explosão e, em segundos, as chamas destruíram completamente as instalações da JNS Biodiesel, usina localizada no estado norte-americano do Mississippi. O episódio repercutiu nacionalmente, chocou autoridades do país e jogou uma luz sobre como os produtores de combustível tratam a segurança de suas unidades. Por sorte, ninguém saiu ferido.
Segurança e saúde, aliás, são desafios para as empresas da área industrial. Segundo estimativas da Organização Internacional do Trabalho (OIT), de um total de 2,3 milhões de mortes ocorridas durante o trabalho a cada ano, 321 mil se devem a acidentes. Ainda de acordo com a entidade, que faz parte do sistema das Nações Unidas, os custos decorrentes desse tipo de ocorrência também são significativos: cerca de US$ 2,8 trilhões são gastos direta e indiretamente com acidentes e mortes causadas pelo trabalho, o que corresponde a 4% do produto mundial – estimado em US$ 70 trilhões. Em outras palavras, acidentes de trabalho reduzem a produtividade das empresas e aumentam a carga financeira sobre o Estado – o que, por si só, justifica a adoção de práticas de segurança como uma condição para tornar o negócio sustentável.
Estabelecer procedimentos capazes de dar conta de todos os aspectos das operações de uma usina sem que isso acabe se tornando um peso para o processo produtivo tem se mostrado uma tarefa de proporções hercúleas, especialmente para um negócio que tem riscos inerentes: a fabricação do biodiesel envolve a manipulação de algumas matérias-primas um tanto perigosas e gera um produto final que é, em si mesmo, inflamável. Controlar tudo isso exige um esforço permanente de treinamento dos trabalhadores, que nem sempre sabem como agir com segurança no dia-a-dia, tornando, portanto, a incorporação deste valor um desafio a ser enfrentado diariamente pelas usinas.
Trabalhar de forma permanente com a equipe é, justamente, o principal conselho de Fernando Antonio da Costa Figueiredo, diretor industrial da Alta Mogiana, usina de etanol localizada em São Joaquim da Barra (SP). “O trabalhador precisa receber treinamentos para que possa se convencer de que é mais seguro para ele e para a empresa executar o seu trabalho dentro de normas e procedimentos”, aconselha o executivo.
Embora de outro segmento, Figueiredo entende do riscado. Há cerca de dois anos ele completou o curso de mestrado em agroenergia da Fundação Getúlio Vargas com a dissertação “Gestão Estratégica da Segurança do Trabalho na Área Industrial de uma Usina de Etanol, Açúcar e Energia Elétrica”. Segundo Figueiredo, existe uma ideia errônea de que são as pessoas que desobedecem a procedimentos e adotam atitudes arriscadas. “Na verdade, o que existe é a falta de conscientização que leva aos acidentes”, aponta, ressaltando que as respostas para a adoção das melhores práticas de segurança residem, antes de tudo, nas empresas.
Hoje, além de ter conseguido obter várias certificações que atestam o alto padrão de qualidade do ambiente de trabalho e de gestão, a Alta Mogiana cria programas de segurança para estimular os trabalhadores a reconhecer e evitar comportamentos de risco. Segundo o diretor da usina, o investimento dá resultado. “Temos áreas que estão há 19 anos sem acidentes.”
Gestão
É uma mensagem que nem todo mundo parece ter internalizado. De fato, há um cenário que frequentemente se apresenta nebuloso no qual se entrevê uma postura um tanto preocupante das usinas de biodiesel, que nem sempre parecem estar dispostas a fazer todo o esforço que se poderia esperar delas. Alguns casos recentes, inclusive, estão coalhados de denún-cias de descaso puro e simples com as melhores práticas de segurança.No início do ano, o portal BiodieselBR.com recebeu denúncias de que a usina da Petrobras Biocombustível em Candeias (BA) estava apresentando problemas ocasionados pela falta de manutenção. A negligência por parte da gerência da unidade estaria comprometendo não apenas a capacidade de produção da unidade como também as condições de segurança.
De acordo com o diretor do Sindicato dos Petroleiros da Bahia (Sindipetro-BA), Valter Paixão, tanto as manutenções corretivas quanto as preventivas não têm sido feitas, motivo pelo qual a usina de Candeias deixa de produzir com frequência preocupante. “A situação pela qual passa a usina é tão crítica que chegou a afetar o leilão de biodiesel”, denuncia.
Segundo o sindicalista, têm se tornado corriqueiros vazamentos de substâncias perigosas – como ácido clorídrico – para o meio ambiente, atingindo inclusive áreas ecologicamente sensíveis, como manguezais localizados no entorno da fábrica.
Mas o exemplo maior dessa situação aconteceu em janeiro de 2013, quando a liderança da unidade de Candeias teria ignorado recomendações da gerência de operação para efetuar a manutenção no vent (equipamento de despressurização de tanques atmosféricos) de um tanque. Isso acabou levando à implosão do tanque, o que, nas contas do Sindipetro- BA, deixou um prejuízo de R$ 2 milhões e reduziu a capacidade de estoque da planta em 1.000 m³. “Por mais que tenhamos denunciado, as gerências da usina negam os problemas ou dizem que vão resolvê-lo, e nada fazem”, afirma Paixão.
As acusações não param por aí. Segundo o diretor do Sindipetro, a diretoria da PBio também dispensou funcionários dos laboratórios de três usinas (Candeias- -BA, Montes Claros-MG e Quixadá- CE) sob o argumento de melhorar o faturamento das empresas, uma economia considerada irrelevante para o sindicato. “Ao todo, a PBio tem um prejuízo de R$ 125 milhões. A economia conseguida com a dispensa dos funcionários do laboratório é de R$ 10 mil. E o serviço terceirizado no laboratório rende, para cada consultor, cerca de R$ 30 mil”, desabafa o porta- -voz do Sindipetro.
Histórico de contradições
Outra empresa que tem apresentado problemas recorrentes em matéria de segurança é a Oleoplan. Em outubro passado, uma explosão atingiu um tanque de uma usina de biodiesel do grupo em Iraquara (BA), matando um trabalhador e deixando dois hospitalizados. Este foi o acidente fatal mais recente do setor. De acordo com uma nota oficial enviada a BiodieselBR pelo grupo industrial gaúcho naquela ocasião, o acidente teria se restringido às instalações destinadas ao esmagamento de soja, que ficavam distantes do processo produtivo de biodiesel. A empresa também informou que o problema seria preexistente à compra da usina pela Oleoplan – a usina em questão já pertenceu à antiga Brasil Ecodiesel (atual Vanguarda Agro), tendo sido adquirida pelo grupo Oleoplan em dezembro de 2011.A versão do Sindiquímica é outra: o tanque que explodiu fazia parte das instalações de usina de biodiesel e era usado para armazenar água rica em resíduos de metanol oriunda do processo de lavagem do biodiesel. E, independentemente dos problemas apresentados serem preexistentes à nova gestão, eles continuavam sem solução.
Essa não foi a única vez que problemas envolvendo usinas pertencentes ao grupo apareceram nas manchetes no ano passado. Outro acidente, de menor gravidade, ocorreu quando um vazamento causado pelo rompimento de um duto entre dois tanques acabou contaminando com biodiesel o arroio Jaboticaba, em Veranópolis (RS).
Segundo o promotor da Comarca de Veranópolis, Lúcio Flavo Miotto, a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) limitou o uso dos tanques de armazenamento até que fossem feitos os devidos reparos e adaptações. Além disso, foram exigidas medidas, como análise e laudo do conjunto do sistema, de forma a averiguar se a empresa trabalha com segurança para o meio ambiente. Mas, segundo o promotor, ainda não foi definido como a empresa fará a reparação dos danos ambientais. “Infelizmente, não houve acordo com a empresa e o assunto está sendo discutido judicialmente”, informou Miotto a BiodieselBR sem dar mais detalhes sobre o andamento do processo.
Além da Oleoplan e da PBio, a usina gaúcha Olfar também registrou acidentes no ano passado. Nesse caso foi um vazamento de óleo que causou a morte de aproximadamente cinco toneladas de peixes na Lagoa da Fantasia, em Erechim (RS). A produtora de biodiesel teria recebido, na ocasião, multa pouco superior a R$ 224 mil por danos ambientais.
Procuradas pela reportagem para darem suas versões dos fatos, nenhuma das três empresas mencionadas retornou às insistentes solicitações de entrevista até o fechamento desta reportagem.
Prevenir é o melhor investimento
Não investir em segurança é um problema cultural do brasileiro. É o que afirma o diretor da corretora de seguros empresariais Diamond Mountain, Maurício Carasso. “Ao pensar em segurança estamos falando de custos incertos, que podem ou não acontecer. No entanto, o brasileiro está muito mais preocupado em pagar as contas no final do mês, o que desmotiva esse tipo de investimento”, explica o executivo.O que a maioria dos empresários não leva em consideração, segundo ele, é que a falta de investimentos em segurança significa ter de absorver no futuro custos tão elevados que podem comprometer a própria sobrevivência da empresa. A Chevron, por exemplo, teve de pagar mais de R$ 95 milhões para compensar os danos causados por dois vazamentos de óleo na Bacia de Campos acontecidos em novembro de 2011 e março de 2012. No entanto, Carasso alerta que os custos de um acidente industrial vão muito além das multas. “Há responsabilidade civil, lucros cessantes e perda de mercado”, enumera, ressaltando que negligenciar a área de segurança pode “levar qualquer empresa à falência”.
E não apenas isso. Um levantamento feito no começo de 2012 pelo pesquisador José Pastore, da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe/USP), revelou que o país gasta, por ano, R$ 71 bilhões – na época isso equivalia a 9% da massa salarial do país. A falta de investimentos em segurança traz custos sociais incalculáveis, além de sofrimento e perda de vidas humanas.
