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Cátia Franco, de São Paulo
No começo deste ano, a Fundação Dom Cabral – tradicional instituição educacional destinada à formação de executivos – divulgou os resultados da 2ª edição da pesquisa “Carência de Profissionais no Brasil”, na qual foram entrevistadas 167 empresas de diversos setores da economia. O estudo atualiza dados de 2010, para colocar em números uma das reclamações mais antigas das empresas brasileiras: a falta de trabalhadores qualificados para contratação no mercado.
Em 2010, 92% das companhias entrevistadas disseram ter enfrentado dificuldades para preencher seus quadros. Passados três anos, quase nada se alterou: 91% das empresas consultadas pela Fundação reiteraram a afirmação.
Segundo a pesquisa, o desafio reside na contratação de profissionais capacitados a atender as empresas em suas necessidades específicas. Essa é a tônica do mercado de trabalho no setor de biodiesel. “O país vem crescendo, no entanto a oferta de profissionais qualificados, com formação técnica, não vem acompanhando na mesma proporção”, constata Luis Carlos da Costa, diretor industrial das usinas Binatural, de Formosa (GO), e da SPBio, de Sumaré (SP) – ambas controladas pelo mesmo grupo empresarial.
“Há pouca mão de obra especializada no mercado”, ratifica Neusa Duarte, gerente de Recursos Humanos da Cargill, sexta maior usina em capacidade de comercialização de biodiesel no ranking brasileiro.
Um experiente profissional do segmento, o químico Marcellus de Avezedo Gomes Dario atuou na Agrenco e na Barralcool antes de se mudar para a Grand Valle – usina instalada em Porto Real (RJ) que deve estrear no mercado de biodiesel ainda este ano. Na atual “casa”, oferece suporte tanto na área de produção como no controle de qualidade. Ele conta que, certa vez, quando ainda estava na Barralcool, chegou a ser “emprestado” para a Fiagril – usina localizada em Lucas do Rio Verde (MT) – porque esta não estava conseguindo encontrar os profissionais que precisava para dar suporte técnico.
“À época, a Fiagril estava passando para o processo contínuo [de produção] e o pessoal deles não tinha muita experiência. Como os donos da Fiagril e Barralcool são muito amigos, o Silvio Rangel [diretor da Barracool] pediu para dar um suporte técnico, fazer o treinamento do pessoal de laboratório”, recorda.
O relato de Dario sobre o apoio pontual, porém muito providencial, ilustra de forma clara como a carência de profissionais qualificados impacta no dia-a-dia das usinas. E como torna acirrada a disputa pelos poucos profissionais tarimbados existentes.
Importação
Embora nenhum dos entrevistados pela reportagem confirme abertamente que as usinas assediam os funcionários umas das outras, as condições para que isso ocorra estão todas dadas. “Para os cargos de gerência, recrutamos profissionais que moravam em outras cidades e estavam empregados em outras usinas”, confirma Paulo José Fuga, gerente da unidade de biodiesel da Biofuga, em resposta à indagação sobre onde a usina, que é uma das novatas do setor, foi recrutar seus profissionais.Fuga esclarece que a busca por profissionais em outras cidades não foi bem uma opção, mas uma necessidade. Camargo, município no norte do território gaúcho no qual a usina da Biofuga está incrustada, não oferece mão de obra qualificada.
Outra que precisou importar profissionais em função de sua localização foi a própria Grand Valle. Situada num estado que tem pouquíssima tradição no biodiesel, a usina trouxe do Mato Grosso – um dos maiores produtores do biocombustível do país – gente de ponta para montar sua planta. De lá, vieram o químico Dario e, também, Mário Pereira da Silva, que responde pela gerência da usina. “Aqui as pessoas não têm conhecimento de nada. Você tem que explicar o que é uma válvula, um decantador, o que é uma reação. Nesse sentido, a dificuldade nessa região é muito grande”, afirma o gerente da Grand Valle.
Silva, aliás, é oriundo da indústria do óleo, tendo trabalhado na Ceval e na Bunge. Sua porta de entrada para o mercado de bio-diesel foi a Agrenco, na qual trabalhou por três anos e meio. “Fiz a montagem completa da fábrica. Na Agrenco, peguei muita experiência com o pessoal que veio de Mato Grosso, de uma usina grande de lá, a Fiagril”, conta o gerente.
Já Dario chegou à Grand Valle com uma boa bagagem. Desde 2004 trabalhando com biodiesel, o químico estava na Barralcool quando, em 2008, foi convidado por um ex-colega de trabalho para integrar a equipe de profissionais da Agrenco. Lá, ele conheceu Silva, que, por sua vez, o levou para a Grand Valle.
Como se pode ver pela sobreposição dessas histórias todas, não é nada incomum que os funcionários do setor troquem de casa.
Gargalos
Embora seja uma radiografia de diversos setores da economia brasileira, o levantamento feito pela Fundação Dom Cabral sobre a carência de profissionais coaduna em muitos aspectos com os relatos retratados nessa reportagem. Ambos, por exemplo, apontam os quadros das áreas técnicas como os mais disputados.“Os talentos procurados são semelhantes aos das indústrias processadoras de oleaginosas. Ou seja, são profissionais ligados à área técnica e de qualidade de matérias-primas e de produtos [acabados], especialmente engenheiros”, identifica Daniel Furlan Amaral, gerente de economia da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). “Também são bastante procuradas pessoas ligadas à área comercial, tais como economistas, engenheiros agrônomos e administradores”, acrescenta.
Profissionais com o perfil do diretor industrial das usinas Binatural e da SPBio estão entre os mais disputados. Não só por conta de sua formação – ele é engenheiro químico –, mas principalmente pela experiência com o biodiesel. Por dois anos, Costa trabalhou na Brasil Ecodiesel – conglomerado que já foi a maior potência produtora de biodiesel do país, mas acabou abandonando o segmento. Passou por três usinas do grupo – a de Iraquara (BA), Porto Nacional (TO) e Rosário do Sul (RS), sendo responsável pelo, entre outros feitos, pelo start up da planta de produção de biodiesel da usina de Rosário do Sul.
“Em 2008, quando ainda estava na planta gaúcha da Brasil Ecodiesel, soube que a Binatural estava ampliando sua capacidade e procurava um profissional com o meu perfil”, diz ao contar como foi parar na empresa onde hoje atua. Diante de um candidato tarimbado, a Binatural não titubeou, contratando-o para gerenciar todos os projetos de amplia-ção e modernização da usina.
Entretanto, a contratação de um profissional experiente, preparado e destinado a ocupar posições-chave na empresa pode ser onerosa. “Nem sempre é possível para as usinas arcarem com os custos relativos à aquisição desses profissionais, principalmente quando implica deslocamento, como é o nosso caso”, pontua o gerente da usina Grand Valle. “Você pode trazer um, dois, três. O restante da equipe tem que montar no local porque, do contrário, o custo vai lá no céu”, adverte Silva.
Até quem jura que não pena para montar sua equipe reconhece que, cedo ou tarde, acaba se deparando com o problema. Pelo menos na outra ponta. “Como a empresa forma seus próprios técnicos, não encontramos tantas dificuldades no recrutamento”, alega Gustavo Bianchini, diretor corporativo da Bianchini – outra novata no mercado de biodiesel brasileiro. “Contudo, enfrentamos consideráveis dificuldades na permanência do funcionário após o período de treinamento e capacitação, em razão da existência na região de uma forte concorrência exercida por empresas do setor químico e petroquímico”, revela o diretor.
A BSBios, que possui duas plantas produtoras – uma localizada em Marialva (PR) e outra em Passo Fundo (RS) –, também está entre as adeptas da filosofia de criar um corpo de profissionais próprio. “Como a disponibilidade de mão de obra qualificada no Brasil é baixa, a BSBios opta por desenvolver e capacitar os profissionais internos. São raras as vagas que contratamos do mercado externo”, manifesta-se a empresa por meio de sua assessoria de imprensa. Ao contrário da Bianchini, esta não se queixa dos avanços de outras empresas em cima de funcionários mais talentosos.
Intercâmbio
Para se fortalecer frente à concorrência – direta ou indireta –, as usinas recorrem a diversas engenhosidades criadas pelo pessoal do Recursos Humanos. A maioria das consultadas diz investir em benefícios e programas tradicionalmente ofertados no meio corporativo (plano de carreira, programas de capacitação, aperfeiçoamento, participação nos resultados etc.) na tentativa de segurar seus talentos. A BSBios, por exemplo, chega a oferecer a seus gestores cursos de pós-graduação ministrados pela própria Fundação Dom Cabral – a renomada instituição de ensino responsável pela pesquisa sobre carência de profissionais mencionada no início da reportagem.Já a Cargill tem se valido do know-how adquirido graças a uma trajetória percussora com o biodiesel no exterior. A usina brasileira já enviou profissionais da área industrial para treinamento nas plantas que o grupo possui na Argentina, Alemanha e Estados Unidos. “Essas unidades industriais são similares à de Três Lagoas, o que facilita o intercâmbio de informações, aprendizado e conhecimento”, avalia Neusa, da Cargill.
Segundo a gerente de RH da Cargill, há por parte da empresa uma preocupação constante com o grau de satisfação dos profissionais que nela trabalham. “Investimos muito na formação de talentos e percebemos que essa estratégia é valorizada pelos candidatos”, assegura. “Além disso, temos diversas iniciativas em prol do funcionário como treinamento on-the-job e subsídio educacional”, destaca.
Apesar desses esforços, não há como ter uma garantia concreta de que os grandes talentos não saiam um dia em busca de novos horizontes. Existem variáveis – muito além de renumeração, benefícios ou projeção na carreira – que, em determinados contextos, adquirem caráter decisório, como reconhece o diretor industrial da Binatural e da SPBio. “Estamos sempre investindo em programas de capacitação interna, criando comissões e fazendo avaliações de clima, pois temos em nossos colaboradores o bem mais precioso. Mas não temos muito controle acerca de sua permanência na empresa, pois, no final, é o colaborador que define o seu caminho”, conclui.
