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A história dos combustíveis líquidos praticamente se confunde com a do petróleo. Teve início em 1859, ano em que o Coronel Drake perfurou pouco mais de 20 metros para encontrar hidrocarbonetos em solo estadunidense. Na esteira desse novo negócio, John Davison Rockefeller conseguiu em poucas décadas construir uma fortuna considerada até hoje como uma das maiores do mundo, levando- -o a dizer que “o melhor negócio do mundo era uma empresa de petróleo bem administrada, e o segundo melhor uma empresa de petróleo mal administrada”.
As notícias do setor do petróleo no Brasil este ano parecem contradizer o magnata norte-americano. As ações da Petrobras não param de perder valor de mercado, além, claro, de termos visto o Império X ruir. As perdas nas bolsas são facilmente entendidas dadas as notícias relativas à Petrobras, que, após anunciar diversas vezes que havia tornado o Brasil autossuficiente em petróleo, amarga prejuízos altos e se afunda em déficit nas suas contas externas. De fato, o déficit na balança comercial da empresa foi de US$ 22,4 bilhões entre janeiro e outubro deste ano, um recorde histórico e 157% superior ao de todo o ano de 2012, fruto de uma queda de US$ 11,5 bilhões nas exportações e um aumento de US$ 34 bilhões nas importações. A situação da empresa, bem como o impacto na balança comercial brasileira, só não é pior porque o uso de etanol e de biodiesel misturados aos derivados de petróleo reduz a necessidade de se importar gasolina e diesel.
Mas qual a razão para a indústria do petróleo no Brasil não ser a melhor ou mesmo a segunda melhor do mundo? Não é segredo para ninguém que há alguns anos os preços dos combustíveis líquidos no Brasil estão abaixo do valor de mercado e não acompanham as flutuações dos preços praticados no mundo. Ou seja, os preços estão artificialmente baixos, minando não só os lucros, mas a capacidade de investimento da indústria. Assim, os investimentos necessários em ampliação da capacidade de refino não são suficientes para atender a demanda crescente e cada vez mais acelerada por gasolina e diesel, forçando o setor a importar destilados a um preço bem superior ao de revenda.
Por outro lado, os preços controlados dos derivados de petróleo afetam também a correção nos preços dos biocombustíveis. Por exemplo, o etanol hidratado concorre com uma gasolina artificialmente barata, enquanto o biodiesel com um diesel de valor ainda mais destoante em relação ao mercado internacional. Assim, não é preciso ser economista para se entender a baixa margem de lucro do setor de biocombustíveis, e é mesmo de esperar que haja uma retração nos investimentos em um futuro próximo, comprometendo ainda mais o futuro do mercado de combustíveis no Brasil.
Acredito que, se estivesse vivo, John D. Rockefeller não iria renegar a sua frase. No entanto, é bem plausível que lhe fizesse um adendo: “O melhor negócio do mundo é uma empresa de petróleo bem administrada e o segundo melhor uma empresa de petróleo mal administrada, contanto que o governo não a use para conter a inflação sem resolver seus próprios problemas estruturais que pressionam a elevação dos preços”.
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* Paulo Suarez é professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ-UnB) e foi vencedor do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia em 2005.
