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Fábio Rodrigues, de São Paulo
No final de outubro, mais de 230 representantes da cadeia brasileira do biodiesel estiveram reunidos em Guarulhos (SP), onde participaram da Conferência BiodieselBR 2013. Organizado anualmente por BiodieselBR, o evento já está em sua 9ª edição e é o grande ponto de encontro no qual tendências e novidades são apresentadas num ambiente aberto e franco.
Foram dois dias de debates ricos demais para caberem numas poucas páginas (a cobertura em pormenores pode ser conferida no portal BiodieselBR.com), por isso preparamos resumos dos temas que mais renderam comentários entre os presentes: o novo marco; as possibilidades do mercado global; o futuro do setor; as questões de qualidade que tiram o sono de distribuidoras, postos e fabricantes de motores; e os vários insumos e coprodutos do biodiesel.
Veja todos os detalhes nos próximos tópicos.
Novo marco
Nenhum tema discutido na Conferência BiodieselBR 2013 foi tão carregado de expectativas quanto o novo marco. Embora não tenham oferecido nenhuma garantia, vários dos representantes do governo federal que participaram do evento deram sinais bem claros de que a espera dos fabricantes por novos aumentos da mistura obrigatória está prestes a terminar.Numa das primeiras palestras do evento o coordenador da Comissão Executiva Interministerial do Biodiesel (Ceib), Rodrigo Rodrigues, confirmou que o governo está mais receptivo à proposta. Tanto que ordenou que a comissão retomasse os estudos e atualizasse o texto do novo marco que já estava pronto pelo menos desde o final do 1º semestre de 2012. Segundo ele, essa nova versão do marco se encontra sob análise dos titulares dos ministérios diretamente envolvidos no Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB).
Avisando de antemão que a proposta ficou um pouco aquém do pleiteado pelo setor produtivo, Rodrigues informou que a sugestão que saiu da Ceib é de uma mistura obrigatória com teor mínimo de biodiesel variando de 5% a um máximo de 10% até 2020, com a recomendação da introdução do B7 para o próximo ano. A proposição da Ceib prevê ainda a criação de uma banda flexível entre 5% e 10% de mistura. Dessa forma, seria possível ampliar ou reduzir a adição de biocombustível ao diesel de petróleo, dependendo do cenário macroeconômico e da oferta de matérias-primas. A proposta da banda leva em conta também a possibilidade de variação do percentual da mistura obrigatória conforme a região e o tipo de matéria- prima.
Reação
O presidente da Frente Parlamentar do Biodiesel, deputado federal Jerônimo Goergen (PP-RS), comemorou a postura do governo em reabrir os diálogos em torno do novo marco, mas declarou que “o setor vai trabalhar para que o piso da mistura fique em 7%, a fim de que isso traga a consolidação do aumento”.A afirmação foi endossada pelo presidente do conselho da Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil (Aprobio), Erasmo Battistella, para quem a banda flexível deveria ser fixada entre 7% e 10%. Os fabricantes querem ainda uma banda autorizativa que chegue ao B20.
Battistella também fez um apelo para que a sinalização por parte do governo acerca do aumento da mistura obrigatória não funcione como incentivo para a construção de novas usinas. “Se aumentarmos a capacidade instalada, o setor vai sofrer nos próximos anos”, alertou.
Dois anos
Outro representante do governo no evento foi o diretor do Departamento de Energias Renováveis do Ministério de Minas e Energia, Ricardo Dornelles. Ele aproveitou para ressaltar que, embora os fabricantes digam que o novo marco esteja chegando com dois anos de atraso, essa não é a visão do Planalto, para quem esse tempo foi fundamental para consolidar o programa. “O setor está numa posição muito mais forte hoje. Tanto que o setor técnico concluiu favoravelmente ao novo marco”, comentou, acrescentando que o vento está soprando a favor do novo marco.Outros elos
A Conferência BiodieselBR não é – e nunca foi – um evento dos fabricantes de biodiesel, mas um ponto de encontro de toda a cadeia. Distribuidores e varejistas sempre tiveram toda a liberdade para dar suas contribuições, mesmo quando isso significa expressar críticas contundentes.Em 2013 não foi diferente. Luciano Libório, diretor do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom), ressaltou que o setor de distribuição está perto do limite e pode não dar conta do B7 caso o aumento venha de forma imediata. Faltam, segundo ele, caminhões para o transporte e tanques para o armazenamento do produto. “Precisamos de investimentos em tancagem”, disse, ressaltando que não é algo que possa ser feito do dia para noite.
Ricardo Hashimoto, representante da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e Lubrificantes (Fecombustíveis), também aproveitou o microfone para expressar preocupação. Os donos de postos temem que os problemas de qualidade na mistura registrados depois da adoção do B5 em 2010 se repitam quando o B7 for implementado. Ele também ressalta que, para os postos, os problemas de qualidade assumem uma dimensão muito maior. “Não estou falando só dos consumidores, mas de uma questão legal”, disse, lembrando que os associados da Fecombustíveis se arriscam a tomar multas pesadas e sofrer outras sanções se flagrados com produto fora da especificação.
Representada por Henry Joseph Jr., a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) ressaltou a evolução na tecnologia dos motores, que nos últimos anos precisaram atender exigências ambientais muito mais rígidas. Segundo ele, há entre os fabricantes de veículos a percepção de que seriam necessárias novas rodadas de testes para garantir que os motores podem rodar sem maiores problemas com um percentual maior de biodiesel.
Outro elo importante – embora um pouco à parte da cadeia – é a Petrobras, que administra o sistema de leilões e as entregas de biodiesel. Segundo o gerente de comércio de biodiesel da estatal, Sandro Barreto, a empresa tem feito um grande esforço para não se tornar uma pedra no caminho do setor. Nos últimos leilões os processos burocráticos foram brutalmente simplificados e soluções inovadoras adotadas, caso dos estoques reguladores com opções de compra.
Barreto aponta que, graças a essas melhorias, foi possível reduzir substancialmente a margem cobrada pela Petrobras. “No leilão passado, o custo da Petrobras foi de R$ 35 e estamos buscando chegar a R$ 20 no ano que vem”, comemorou.
Mercado internacional
As muitas transformações pelas quais o mercado global vem passando nos últimos tempos foi outro dos temas que mereceram a atenção do público na Conferência BiodieselBR 2012. Especialmente no que diz respeito à União Europeia, que há vários anos vem se mantendo como o maior mercado para o biocombustível no mundo. Mas segundo o vice-presidente sênior da Evonik, José Berges, há tempos “um nervosismo brutal” tomou o mercado europeu. “Pela primeira vez, o consumo de biodiesel está recuando”, constatou o executivo ao analisar os números nada favoráveis deste ano.Berges destacou que isso está reforçando os instintos protecionistas entre os produtores europeus. O resultado é a adoção de medidas para impedir a entrada de biodiesel argentino e indonésio no mercado europeu – repetindo o que já havia acontecido com os Estados Unidos há uns poucos anos. Mau sinal para quem está pensando em disputar uma fatia desse mercado, como as usinas brasileiras.
Já o vice-presidente da Basf, Carlos Eggers, vê nesse episódio uma oportunidade em aberto para quem queira exportar para a Europa. Essa opinião é reforçada pelo presidente do conselho da Aprobio, Erasmo Battistella, que incentivou os produtores presentes a buscarem as certificações necessárias para vender à Europa [leia mais sobre as certificações na reportagem “Certificar para exportar” nesta edição de BiodieselBR]. Para ele, a oportunidade “certamente surgirá”.
Ressalvas
Já Berges mostrou-se mais cauteloso em relação às investidas do Brasil no mercado de exportação. Tomando o exemplo da Argentina, que vem enfrentando sérias dificuldades depois do fechamento do mercado europeu, o palestrante opinou que para o Brasil seria mais sustentável aumentar a mistura do que exportar. As chances existem, afirmou, mas esbarram em diversos fatores tais como a falta de competitividade do país em aspectos importantes como logística e matéria-prima.Ainda assim, o executivo da Evonik acredita que o setor de biodiesel brasileiro tem todas as condições para continuar crescendo de forma saudável valendo-se unicamente da força de seu mercado interno – entendimento com o qual também concorda o representante da Basf.
Projeções trazidas por Carlos Eggers indicam que, mesmo nos cenários mais conservadores, a produção na América do Sul deverá praticamente dobrar de tamanho até 2020, podendo chegar a 10 bilhões de litros. “Isso considerando que o Brasil implante o B10 e a Argentina continue com o B7 e mantenha o mesmo patamar de exportações”, ressalvou.
Insumos e coprodutos
Pelo que se pôde ouvir na Conferência Biodiesel 2013, não vai ser algum problema com a oferta de insumos que vai impedir o aumento da mistura obrigatória. Basf e Evonik, fabricantes de metilato de sódio, e Methanex, fabricante de metanol, dois dos principais insumos usados na produção de biodiesel, asseguraram que a produção vai atender a demanda.“Garantimos que haverá metanol o bastante e teremos a logística pronta para apoiar o crescimento”, afirmou Fernando Reinecke, gerente regional de logística da Methanex. Ele também ponderou que, embora o mercado latino-americano corresponda a apenas 4% do consumo global de metanol, a demanda na região vem crescendo mais que a média mundial. No ano passado o setor absorveu pouco menos de 2,5 milhões de toneladas do total comercializado.
Já no caso do metilato, tanto a Basf quanto a Evonik possuem fábricas em operação capazes de abastecer – com sobras – o mercado nacional.
E o óleo?
A oferta de óleos vegetais também não deve ser um empecilho. Segundo o assessor econômico da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Leonardo Zilio, em 2014 o Brasil deve colher 86 milhões de toneladas de soja. Destas, 37 milhões serão processadas no país, resultando em 7 milhões de toneladas de óleo – o bastante para atender ao B7 e ao mercado de óleo envasado.Zilio garantiu ainda que mesmo na eventualidade de uma quebra de safra, o mercado estaria garantido. “Haveria soja o bastante para processar”, salientou.
Coproduto
A glicerina está na outra ponta do processo produtivo. Segundo Carla Vilas Boas Romero, sócia da Lumina Trading, o coproduto teve sua condição de “problema” transformada em “solução”. “Há oito, nove anos, o produtor pensava ‘o que eu vou fazer com isso?’. Hoje, o cenário é muito diferente”, afirmou.De acordo com Carla, as exportações brasileiras de glicerina loira vêm crescendo desde 2008, graças à melhora da qualidade do produto. “A projeção para este ano é que sejam exportadas mais de 180 mil toneladas”, informou. A maior parte desse volume deve ter como destino a China, que até agosto havia absorvido mais de 78% da glicerina exportada pelo Brasil.
Ainda segundo a empresária, mesmo que o Brasil adote o B7 no curto prazo, o mercado chinês terá condições de absorver o volume excedente de glicerina.
Fronteiras do futuro
As fronteiras da ciência e da tecnologia que estão nas fundações da indústria de biodiesel foram amplamente discutidas durante a Conferência Biodiesel- BR 2013. Como ressaltou Marcelo Cantele, sócio da Transfertech, a área de biotecnologia está prometendo um verdadeiro salto. “Acreditamos que há uma revolução iminente”, garantiu o palestrante, que está perto de iniciar testes em escala piloto com novos processos enzimáticos de produção.Segundo Cantele, a adoção da nova geração de catalisadores enzimáticos será a primeira ruptura tecnológica no segmento de biodiesel, e deverá ser seguida pela produção por meio de processos supercríticos – que usam temperaturas e pressões elevadas. A maior vantagem de ambos os avanços é possibilitar a fabricação de biocombustível a partir de fontes de biomassa não convencionais, como, por exemplo, resíduos sólidos urbanos. “Pode parecer loucura neste ponto, mas é algo que está começando a ganhar corpo na Europa. Os resíduos urbanos são um material altamente energético que, hoje, enterramos, mas podemos usá-los para fabricar combustíveis”, avalia.
Gesmar Rosa, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ressalta que o Brasil tem investido um volume elevado de recursos em pesquisas relacionadas ao biodiesel. Um mapeamento preliminar aponta mais de 580 projetos de pesquisa ativos. “O biodiesel tem uma resposta grande em termos de pesquisa”, ressaltou, lamentando que, diferentemente do que acontece em países como os EUA, essas pesquisas não envolvam parcerias entre academia e fabricantes.
Janela
O que alguns dos palestrantes questionam é quanto tempo vai durar a janela de oportunidade disponível à indústria. Os pesquisadores Décio Gazzoni e Luiz Horta Nogueira, por exemplo, destacaram que o setor de transportes está perto de trocar os atuais motores de combustão interna por motores elétricos muito mais eficientes.Mas ambos concordam que o processo vai levar vários anos e que haverá nichos – como nos transportes aéreos – onde os biocombustíveis serão a principal opção.
Para o físico Ricardo Baitelo, do Greenpeace, os biocombustíveis vão desempenhar um papel essencial na matriz energética brasileira. “Os biocombustíveis vão ter uma função muito importante”, disse, destacando que cenários elaborados pela ONG apontam que o consumo de biodiesel no Brasil pode chegar a 13 bilhões de litros em 2050.
