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Juliana Tavares, de São Paulo
No ano passado, aproximadamente 17,2% do volume total de biodiesel fabricado no Brasil teve o sebo bovino como matéria-prima. Na ponta do lápis, isso dá mais ou menos 467 milhões de litros, ou – considerando uma densidade de 880 gramas por litro de biodiesel – aproximadamente 411 mil toneladas. Considerando que boa parte desse material teria ido parar em aterros não fosse pelo biodiesel, esse é um dos maiores cases de sucesso de um setor que gosta de contar vantagem a respeito do quanto seu produto é ambientalmente amigável. No entanto, o sebo ocupa um inesperado ponto cego dentro de uma indústria, que ainda olha para o produto com certo ar de superioridade.
Uma parte dessa má fama é derivada da performance notoriamente ruim do sebo em relação a um parâmetro de qualidade chamado ponto de entupimento do filtro a frio, que, grosso modo, mede a temperatura mínima a partir da qual o biodiesel começa a congelar. Devido à composição de cadeias saturadas, o biocombustível feito de sebo pode se solidificar em temperaturas relativamente amenas, o que no início do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB) rendeu dificuldades para o escoamento do produto nas regiões Sul e Sudeste, onde a temperatura pode cair bastante no inverno. Esse é um problema nada pequeno se você é um fabricante ou distribuidor e termina com uma carga de milhares de litros biodiesel congelada em seus tanques.
O problema é reconhecido também por quem entrou no mercado de biodiesel justamente para agregar valor ao sebo que produz. É o caso, por exemplo, da Fuga Couros, empresa gaúcha com atuação destacada no mercado de curtumes e processamento de subprodutos de origem animal, que acaba de construir uma usina de biodiesel com capacidade para 108 milhões de litros em Camargo (RS). “Essa era a única característica que causava preocupação entre os produtores. Mas a questão também foi superada”, afirma o diretor da companhia, Iedo Claudino Fuga.
O executivo se refere à nova especificação do biodiesel apresentada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) em maio do ano passado. Nela foi definida uma tabela de referência que estabelece valores máximos para o ponto de entupimento em cada mês do ano, com o objetivo de ajudar os fabricantes a manter o problema sob controle.
Vantagens
Afora essa dificuldade, o produto final feito a partir do sebo bovino tem até vantagens sobre o produto feito de óleo vegetal. Para começar, ele possui um índice de cetano mais elevado, o que favorece um bom funcionamento do motor, com menos desgaste e menos emissão de poluentes. No biodiesel de sebo esse número gira em torno de 65, contra 55 do biodiesel feito com óleo de soja e 45 do diesel mineral.A estabilidade à oxidação do biodiesel de sebo também é mais elevada. “Enquanto o biodiesel de soja atinge de 4 a 6 horas de estabilidade [no teste rancimat], a do biodiesel de sebo é de 16 a 20 horas, o que elimina a necessidasebode de adição de antioxidantes”, explica Alexandre Pereira da Silva, diretor comercial da JBS.
Maior processador de proteína animal do planeta, o Grupo JBS-Friboi possui uma usina com capacidade produtiva para quase 201,7 milhões de litros em Lins (SP). Originalmente fundada pelo Grupo Bertim em 2009, essa usina foi considerada a maior unidade para a produção de biodiesel de sebo do mundo e ajudou a dar credibilidade ao sebo como matéria-prima para a produção de biodiesel.
Incentivos
Uma reclamação de quem produz a partir de sebo é a falta de isonomia entre essa e as matérias-primas de origem vegetal. A gordura animal vem sendo sumariamente ignorada pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) nas regras do Selo Combustível Social, que garante aos fabricantes de biocombustível vantagens tributárias e acesso a um lote exclusivo nos leilões de biodiesel organizados bimestralmente pela ANP.Enquanto o Brasil titubeia, na Europa o uso de sebo pelas usinas tem crescido e é até incentivado. Embora a medida ainda seja controversa, muitos países europeus incluem o sebo entre as matérias-primas beneficiadas pela chamada “dupla contagem”, que multiplica por dois o volume de determinados tipos de biocombustíveis na hora de contabilizar o cumprimento das metas de emissões da União Europeia (UE). De acordo a Diretiva 2009/30 da UE, a gordura animal reciclada é uma das fontes de bioenergia mais limpas: enquanto o sebo emite apenas 14 gramas de CO2 para cada megajoule de energia gerada, o óleo de soja emite 58g de CO2 por megajoule de energia. O impacto ambiental na produção de biodiesel a partir de sebo é, portanto, quatro vezes menor.
Um estudo publicado em março pela ePure – uma associação europeia de fabricantes de etanol – sobre a implementação de mecanismos de dupla contagem em oito países europeus revelou que em seis deles o biodiesel de sebo seria elegível para receber o benefício. Isso acontece porque, como o sebo é visto como um resíduo, a UE considera que o biodiesel fabricado a partir dele não interfere com os mercados alimentares.
Abundância
Como um dos maiores produtores de carne do planeta, não falta Sebo sebo sebo para produção de biodiesel no Brasil. Dados da Associação Brasileira de Reciclagem Animal (Abra) mostram que, em 2012, a produção nacional de sebo bovino foi de 1,4 milhão de toneladas – só na grande São Paulo, são recolhidas diariamente 800 toneladas de descarte de açougues e frigoríficos. Ou seja, apesar da demanda crescente por parte das usinas de biodiesel, menos de 30% de todo esse material recebe destinação adequada.Mesmo assim, a situação atual representa um avanço significativo em relação à situação anterior, quando toda essa matéria-prima simplesmente não tinha valor algum. Antes do PNPB começar a ganhar corpo a partir do final de 2004, o sebo bovino era utilizado quase que exclusivamente pela indústria de higiene e limpeza, e praticamente não tinha nenhum valor comercial. Em alguns casos, o excedente era exportado, mas a falta de logística do país dificultava esse processo. Como, em ambos os casos, a capacidade de aproveitamento do material era limitada, não restava alternativa a não ser o descarte do material não aproveitado pelo mercado. Sem valor agregado, o produto recebia, de modo geral, um de dois destinos: ou era despejado na natureza ou queimado em caldeiras – ambos prejudiciais ao meio ambiente.
Hoje, graças ao biodiesel, as empresas que se dedicam a reciclar o que sobra do processamento dos animais conseguem receber até R$ 2 mil por tonelada de sebo vendido. Isso ajuda a fechar a conta de uma indústria que coleta o que sobra da carcaça dos animais após a retirada da carne. Esse material, processado em graxarias, é formado principalmente por ossos e é triturado para separar a farinha de osso, que vai para a fabricação de rações animais, da gordura, que vai ou para a indústria de material de limpeza ou para a produção de biodiesel.
Apesar do desânimo com a demora do governo em aumentar a mistura obrigatória de biodiesel no diesel mineral, o que impede um crescimento maior do consumo, a Abra mantém o otimismo em relação ao potencial do biodiesel de sebo. De acordo com a entidade, apesar de existir um limite de fornecimento, o consumo de sebo na matriz energética do Brasil deve crescer por se tratar de uma fonte barata de energia, que não compete diretamente com a alimentação humana e é a mais ecológica entre todas as fontes de óleo existentes.
