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Super produção

fotos materias superproducaoContrariando a noção de que a produtividade da soja só cresce de maneira lenta e penosa, os vencedores dos concursos promovidos pelo Cesb demonstram que dá para ultrapassar a barreira das 100 sacas por hectare
Edição de Fev 2013 / Mar 2013 11 min de leitura
fotos materias superproducaoContrariando a noção de que a produtividade da soja só cresce de maneira lenta e penosa, os vencedores dos concursos promovidos pelo Cesb demonstram que dá para ultrapassar a barreira das 100 sacas por hectare

fotos materias superproducaoContrariando a noção de que a produtividade da soja só cresce de maneira lenta e penosa, os vencedores dos concursos promovidos pelo Cesb demonstram que dá para ultrapassar a barreira das 100 sacas por hectare

Fábio Rodrigues, de São Paulo

Os sojicultores brasileiros deveriam até sentir uma pitada de vergonha. Embora, de um ponto de vista geral, estejam entre os agricultores mais sofisticados do planeta, há entre eles um grupo de elite que os deixa parecendo um bando de amadores. Revelado por concursos de produtividade – como o Desafio Nacional de Máxima Produtividade promovido pelo Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb) –, este grupo hiper-restrito conseguiu cravar 5.760 quilos de soja por hectare durante a safra 2011/2012. Resultado que a imensa maioria dos fazendeiros não consegue igualar nem sob condições ideais de plantio.

Para provar essa afirmação vale tecer algumas comparações. A produtividade média da soja brasileira apurada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) na safra passada foi de 2.651 quilos por hectare – bem menos da metade do que os superprodutores conseguiram. Só que vamos fazer o favor de ignorar esse resultado, uma vez que a temporada 2011/2012 não foi das mais felizes por conta de uma seca que atingiu em cheio alguns dos principais estados produtores. No lugar, vamos pegar os números da safra 2010/2011, que são os melhores já registrados desde que a Conab começou a acompanhar a soja em 1976. Naquele período, a média nacional foi de 3.115 quilos por hectare.

Ou seja, num ano fraco, os superprodutores colheram 85% mais soja por hectare do que os seus colegas conseguiram no melhor ano da história.

Fazendo uma continha rápida, se todos os 25 milhões de hectares plantados na safra passada tivessem produzido pelo teto, teríamos colhido inacreditáveis 144 milhões de toneladas (a produção registrada da safra 2011/2012 foi de pouco menos 66,4 milhões de toneladas). Seria mais que o suficiente para pôr um ponto final em qualquer dúvida sobre sermos – ou não – capazes de sustentar novos aumentos na mistura de biodiesel.

Não custa nada lembrar que foi justamente essa dúvida que levou a Comissão Executiva Interministerial do Biodiesel (Ceib) a optar pela prudência ao esboçar o novo marco regulatório e limitar ao B10 o cronograma de aumentos da mistura até 2020 – frustrando o setor produtivo, que defendia publicamente o B20. Conforme o diretor do Departamento de Energias Renováveis do Ministério de Minas e Energia (MME) Ricardo Dornelles admitiu durante a Conferência BiodieselBR 2012, para dar conta do B20 seriam necessários 81,7 milhões de toneladas, o que elevaria a demanda total do Brasil para 116 milhões de toneladas de soja. Bem mais do que os 87,1 milhões de toneladas das estimativas do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para a safra 2020/2021 [veja gráfico]. “Não teria sentido nos tornarmos importadores de soja para fazer biodiesel”, apontou o servidor na ocasião.

grafico produtividade

Mais Produtividade

Uma elevação drástica nos patamares de produtividade da sojicultura brasileira poderia – entre outras coisas – desatar esse nó. E é aí que entra o trabalho do Cesb. Fundado em 2009 por um grupo de pesquisadores e profissionais especializados em produtividade da soja, a entidade procura identificar os produtores que estãona vanguarda, com o objetivo de descobrir o que eles estão fazendo de diferente e divulgar isso aos quatro ventos. Para atingir essa meta, há três anos o grupo lançou o Desafio Nacional de Máxima Produtividade, iniciativa que premia os fazendeiros cujo trabalho está puxando para cima os limites da soja no Brasil.

É dos resultados da edição mais recente desse concurso que saíram os números impressionantes que abrem esta reportagem. Vale mencionar que os tais 5.726 kg/ha são a média dos dez melhores colocados, e que ela cai rapidamente conforme mais agricultores são computados. Mesmo assim, os top 120 do Desafio colheram uma média de 3.916 kg/ ha, o que é 25% mais do que a média nacional da safra 2010/2011.

Engenheiro agrônomo com 24 anos de experiência como consultor na área de soja, Orlando Carlos Martins é o diretor- -presidente do Cesb. Segundo ele, o grande dilema está no fato de as médias estarem sendo puxadas porque a amplitude entre os bons e os maus agricultores tem diminuído, ao passo que a produção no topo da pirâmide permaneceu praticamente estática. “Há 25 anos tínhamos fazendas colhendo 60 sacas hectares enquanto a média nacional era de umas 30 sacas. Hoje, a média está cada vez mais perto do máximo. A produção de quem está topo não tem aumentado”, diz.

Trocando em miúdos, os maus produtores já não estão tão mal, enquanto os bons parecem ter estacionado. O pesquisador Décio Luiz Gazzoni, da Embrapa Soja, não acha estranho que algo assim aconteça. É simplesmente mais fácil conseguir melhorias dramáticas rapidamente para quem tem baixa produtividade. “Quem produz abaixo da média está errando tanto que qualquer melhoria traz bons resultados”, diz. Mas isso também não quer dizer que quem chegou no grupo de elite esteja fazendo algo de outro mundo. “Fácil não é, mas também não precisa de um tipo específico de cuidado. Não existe um pulo do gato. A tecnologia para produzir acima de 100 sacas existe e está disponível. O que a gente percebe é que os produtores que se destacam no Desafio são muito caprichosos com suas lavouras”, completa.

grafico demanda interna soja-1

Parte pelo todo

Não é todo mundo que acha que esses resultados podem ser generalizados. Concursos como esses levam em conta áreas pequenas; no Desafio, cada produtor pode concorrer com no máximo dez hectares, o que tornaria relativamente fácil otimizar a produção. Quem aponta para essa fragilidade é o assistente da Superintendência de Agronegócios da Conab, Carlos Bestetti. “Enfrentando a normalidade das lavouras de soja eu não acho que seja possível manter produtividades assim. Claro que as pessoas estão se dedicando a ganhar esses concursos”, avalia, com certa dose de ceticismo.

A crítica é mais do que válida. Dados do próprio Cesb indicam que nem os campeões do Desafio conseguem obter o mesmo resultado das áreas inscritas no restante de suas propriedades. O campeão do Desafio na região Sul, Ely de Azambuja Germano Neto – o proprietário da fazenda Mutuca – conta que colheu 6.186,6 kg/ha nos 7,6 hectares inscritos, contra 4.520 kg/ ha no restante de suas terras.

Contudo, também é preciso ressaltar que os campeões mantêm- se acima da média de seus próprios estados de forma consistente [veja gráfico]. “Até com vizinhos nossos de cerca a gente chega a ter diferenças de mil quilos [por hectare] a nosso favor”, diz o sojicultor, acrescentando que, no geral, ele colhe entre 10% e 20% mais soja que seus colegas no município paranaense de Arapoti (PR). Resultados que sinalizam que, com trabalho e dedicação, os fazendeiros podem melhorar seu rendimento. “A gente tenta fazer com que a natureza funcione a nosso favor. Claro que 95% do meu negócio é Deus que me dá, mas os outros 5% eu faço”, comenta Germano Neto, com uma dose um pouco exagerada de modéstia na qual talvez caiba o velho ditado que diz “Deus ajuda quem se ajuda”.

Essa é uma constante que Gazzoni, também ele membro do Cesb, tem percebido entre os vencedores do concurso. “Os campeões nos últimos anos não estavam em regiões de solo naturalmente fértil. Construir um solo bom foi algo que precisou de investimento da parte dos agricultores”, analisa, afirmando que, no caso de Germano Neto, os investimentos na qualidade do solo começaram a ser feitos há cerca de 20 anos. “Hoje ele tem um solo simplesmente espetacular”, elogia.

grafico comparativo produtividade

tabela tolerancia

Questão contábil

Entre os céticos está o vice-presidente para a Região Norte da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado do Mato Grosso (Aprosoja), Naildo Lopes. Para ele, o problema não é atingir números vistosos, mas se isso faz sentido financeiro. “Eu não me assusto com cem sacas, mas precisa ver o custo disso. Para aumentar a produtividade eu sei que vou ter que pagar mais caro. Muitas vezes esse é um investimento que você faz apenas para participar do concurso”, questiona.

O Cesb garante que a conta não apenas fecha, como ainda rende dividendos. “A gente fez a análise econômica dos ganhadores e constatou que eles tiveram uma rentabilidade maior nas áreas de desafio do que nas áreas convencionais de suas propriedades, anima-se Orlando Martins [veja gráfico]. Germano Neto, por exemplo, garante que não tem do que reclamar do retorno sobre seus investimentos. Segundo ele, na área inscrita no Desafio ele obteve um lucro de R$ 3.216,98/ha, contra uma média de R$ 2.007,83/ha no restante da propriedade. Ou seja, foi um bom negócio, ainda maiscom os preços que a soja vem apresentando nos últimos tempos (em setembro as cotações da soja em Chicago bateram seu recorde histórico). Como os agricultores mais bem capitalizados ficam em posição para fazer investimentos nas suas fazendas, não é coincidência que o financiamento de máquinas agrícolas pelo Programa de Sustentação de Investimentos (PSI) do BNDES tenha batido recordes no segundo semestre do ano passado, segundo informações divulgadas em dezembro pelo Mapa. E, de uns tempos para cá, as máquinas agrícolas vêm tendo sua própria revolução tecnológica, com controles automatizados hipereficientes e perdas reduzidas. Tudo isso se traduz em produtividades melhores, mas tem um custo elevado – uma colheitadeira último tipo custa várias centenas de milhares de reais. Jogo para gente graúda, portanto.

Bestetti, da Conab, lembra que não é todo mundo que tem acesso à ultima tecnologia, o que coloca as maiores produtividades fora do alcance de boa parte dos agricultores. “Não tem nem como comparar a maioria dos produtores com quem faz agricultura de precisão e tem seu solo todo georreferenciado”, comenta. Não quer dizer que essa seja uma condição sine qua non. “As máquinas facilitam, mas não são o ponto de corte. Dá para conseguir boas produtividades com máquinas bem mais antigas”, alivia Gazzoni.

Há um ponto menos visível que para Naildo Lopes, da Aprosoja, representa um fator de restrição na disposição dos produtores em avançar: a falta de seguros agrícolas sofisticados. Para produzir mais é preciso colocar mais dinheiro na lavoura, logo, os riscos aumentam. “Se a gente tivesse um seguro agrícola como nos Estados Unidos estaríamos melhor. Quando a gente produz bem, avançamos; quando não, quebramos”, reclama. Em setembro, Lopes acompanhou uma comitiva da Aprosoja que visitou algumas das áreas mais afetadas pela seca e o que ele viu por lá o ajudou a ter um entendimento melhor da importância dessa ferramenta. “Teve agricultor que ganhou mais com o seguro do que ganharia com a colheita”, relata.

 grafico desafio restante

tabela tolerancia

Variedades

Ainda segundo Bestetti, da Conab, a sojicultura comercial brasileira enfrenta uma dificuldade de fundo que limita sua capacidade: as cultivares transgênicas e precoces mais populares entre os grandes produtores comerciais não são exatamente as mais produtivas. Um relatório divulgado pela consultoria Ceres em meados de dezembro passado aponta que quase 90% da área de soja na safra 2012/2013 foi plantada com variedades geneticamente modificadas. “O problema é genético. Quando a geração atual de transgênicas foi desenvolvida o foco não era aumentar a produtividade”, diz, explicando que as transgênicas conquistaram os produtores porque, imunes a certos herbicidas, facilitam eliminar plantas invasoras de forma a deixar a soja sozinha na terra. Isso aumenta os rendimentos, mas sojas convencionais – especialmente em áreas pequenas que podem ser cuidadas com lupa – continuam produzindo melhor.

Nesse caso, a solução dependeria da popularização de novas variedades transgênicas mais produtivas, que só agora estão entrando no mercado e poderão contribuir bastante nesse sentido. No entanto, o próprio Bestetti admite que, apesar de essa ser uma limitação importante, o fator decisivo está mesmo nos produtores. “A técnica utilizada é um fator limitante mais importante do que a variedade plantada”, reconhece.

Rede

Orlando Martins explica que o Desafio Nacional de Máxima Produtividade tem uma meta oculta: ao mesmo tempo em que destaca quem está conseguindo as maiores produtividades do país, o prêmio produz dados sobre o que essas pessoas estão fazendo de diferente. “Temos um grupo de agricultores que está conseguindo produzir 100 sacas ou mais de soja por duas ou três safras seguidas. Isso nos permite pesquisar partindo de dados concretos para entender como ele consegue produzir tanto de forma sustentada”, comenta.

A meta, no fim das contas, é que isso sirva para dar um empurrãozinho na produtividade de toda a sojicultura brasileira. “Nosso objetivo é desenvolver um sistema de produção que permita chegar a entre 70 e 80 sacas por hectare”, completa Martins.

Pode não ser o suficiente para os mais de 400 mil sojicultores brasileiros alcançarem a elite dos superprodutores, mas bastaria para fazer a produção brasileira chegar a 120 milhões de toneladas, colocando no chinelo a tão falada supersafra que o país está se preparando para colher este ano, cujo resultado deve ficar em 80 milhões de toneladas. Um verdadeiro salto quântico.
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