


Era inevitável. Há anos o setor conta com uma capacidade produtiva muito maior do que a demanda, e nenhuma usina relevante deixou de operar. Chegava a ser estranho ver usinas operando com uma ocupação baixa, leilão após leilão, e conseguindo continuar firme e forte. A explicação para isso eram as grandes margens de lucro que o setor conseguia. Era muito melhor vender 30% da capacidade com uma margem de 50 centavos por litro do que querer vender 100% e ter 10 centavos ou menos de retorno para cada litro.
Margens altas garantiram o retorno do investimento em tempo recorde para muitas usinas. Mas o setor vem dando sinais de que esse período acabou. A cada leilão vemos novas usinas entrando em cena, operadas por empresas com experiência no negócio da soja, algumas com um fôlego financeiro que assusta. A simples presença dessas empresas em um leilão já causa preocupação às demais.
Somado a esse fator há o crescimento da oferta. O Brasil saltou de uma capacidade de 3,88 bilhões de litros por ano no começo de 2010 para 6,81 bilhões no final de 2012. Um crescimento de 75,5% na oferta contra apenas 22,4% na demanda. E essa diferença ainda irá crescer mais. Seis novas usinas entrarão em funcionamento nos próximos seis meses e adicionarão cerca de 1 bilhão de litros anuais no mercado. Mesmo se a mistura aumentar para B6 no segundo semestre, a relação oferta e demanda ainda será desvantajosa para as usinas. As novas unidades sozinhas podem atender uma demanda adicional equivalente a “um B e meio”.
O grande catalisador desse processo é o novo modelo de leilões. Quem pode oferecer o melhor preço tem mais chances de ter seu produto comprado pelas distribuidoras. Assim, podemos ver qual usina é mais competitiva e tem mais chances de sobreviver. Se o sistema de leilão não tivesse sido alterado, usinas que hoje estão com um pé fora do mercado provavelmente estariam em uma situação muito melhor.
Como um copo pode estar meio vazio ou meio cheio ao mesmo tempo, essa situação também tem seu lado positivo, ao menos para as usinas que se mantiverem operando. Desde que chegamos ao B5, e a capacidade não parou de crescer nesse período, o governo vem escutando que se não aumentar o percentual de mistura no diesel as usinas irão quebrar, que não haverá espaço para todos e que as usinas são muito importantes para as cidades onde estão instaladas. Porém, já se passaram três anos de B5 e nenhuma usina relevante fechou as portas. A Brasil Ecodiesel não entra nessa conta porque já estava quebrando antes mesmo do B5 ser implantado.
Se usinas importantes pararem a atividade porque não estão conseguindo vender, o governo terá a certeza de que a competitividade chegou em definitivo. E terá a segurança de que os preços não irão aumentar quando a demanda ficar um pouco mais próxima da oferta. Infelizmente, o setor está precisando de um mártir. Quem será ele?