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A esperança na palma

materia prima palmaNa mira dos produtores de biodiesel (e outras indústrias), a palma desponta como uma promessa no cenário nacional. Mas para virar realidade, o Brasil vai precisar investir na sua capacidade de produção de sementes e mudas
Edição de Fev 2013 / Mar 2013 9 min de leitura
materia prima palmaNa mira dos produtores de biodiesel (e outras indústrias), a palma desponta como uma promessa no cenário nacional. Mas para virar realidade, o Brasil vai precisar investir na sua capacidade de produção de sementes e mudas

materia prima palmaNa mira dos produtores de biodiesel (e outras indústrias), a palma desponta como uma promessa no cenário nacional. Mas para virar realidade, o Brasil vai precisar investir na sua capacidade de produção de sementes e mudas

Juliana Tavares, São Paulo

Quando se compara as vantagens da palma (nome mundial para o dendê) frente à soja na produção de biodiesel, fica fácil entender por que o Brasil pretende expandir a cultura no país. A planta tem capacidade para produzir de 5 a 6 toneladas de óleo por hectare – cerca de 10 vezes mais do que a soja –, o que fez dela uma das fontes de óleo vegetal mais importantes do planeta, com aplicações na indústria alimentícia, onde tem a reputação de ser uma opção mais saudável, na fabricação de produtos de higiene e limpeza, e na produção de biocombustíveis.

Em números, o consumo mundial do óleo de palma saltou de 17 para 45 milhões de toneladas entre 1998 e 2009. Hoje, o produto responde por mais de um terço da demanda global de óleo vegetal.

O incrível é que nem todos esses benefícios bastaram para atrair os investimentos necessários para que o dendê ganhasse o espaço que mereceria no agronegócio brasileiro. Foi só nos dois últimos anos que a oferta de sementes e mudas da oleaginosa em escala comercial começou a se organizar. Até 2010, a única grande produtora de sementes de dendê no Brasil era a Embrapa. Como se não bastasse, na década anterior, no Pará, as regiões plantadas com o dendê da variedade africana – a mais comum – foram atingidas pelo amarelecimento fatal (AF), doença que pode dizimar dendezais inteiros, afetando drasticamente a produção.

Enquanto isso, outros países se refestelaram com a cultura e se tornaram líderes mundiais na produção, em especial a Indonésia e a Malásia, considerados os dois maiores produtores mundiais da matéria-prima, com 10 milhões de hectares cultivados.

Variedades de sementes

Quando se fala de dendê no Brasil e na América Latina, há que se considerar que a cultura tem inimigos naturais de peso. Além do amarelecimento fatal, alguns países sul- -americanos relatam outra doença séria chamada pudrición del cogollo (PC), que se tornou uma ameaça frequente para as culturas baseadas nas variedades comerciais mais comuns – os cruzamentos entres as variedades africanas (Elaeis guineenses) com a Teneras.

Tais ameaças desmotivavam os investidores a colocar mais dinheiro na cultura e foram um dos motivos do Brasil ter ficado para trás. Para tirar o atraso, antes seria preciso encontrar uma solução para o problema do AF, o que só aconteceria com o desenvolvimento de variedades mais resistentes à doença e que tivessem potencial comercial. Investimentos antes disso seriam, no mínimo, contraproducentes.

Segundo Roberto Yokoyama, diretor da Denpasa, empresa que hoje é o maior parceiro da Embrapa na produção comercial de sementes de dendê, foram precisos quase 30 anos para encontrar a solução na forma de uma variedade híbrida interespecífica (HIE) chamada BRS Manicoré, obtida a partir do cruzamento entre a palma africana e uma variedade nativa chamada caiaué, introduzida no mercado em 2010.

Segundo o entrevistado, desde a década de 80 a Embrapa vinha experimentando cruzar as duas espécies. “Foi somente em 2009, com os conhecimentos trazidos da Colômbia sobre a polinização manual de HIEs, que a Denpasa conduziu um experimento com resultado bastante satisfatório: as áreas sem polinização produziram 5 toneladas de cachos por hectare e as áreas com polinização produziram 30 toneladas de cachos por hectares, sendo o rendimento de extração de óleo nas áreas não polinizadas abaixo de 10% e, nas área polinizadas, de 19%”, conta.

Segundo Yokoyama, no experimento o custo da polinização por hectare chegou a ser próximo de cinco toneladas de cacho. “Algo economicamente viável, principalmente considerando que as plantas são imunes ao AF”, diz. “Desde então, podemos afirmar que a cultivar BRS Manicoré da Embrapa tem rendimento de extração de óleo na usina entre 23% a 24%, com custo de polinização assistida menor que 3 toneladas de cachos por hectare.”

Ao analisar as vantagens da cultura como um todo, qualquer desvantagem resultante da polinização assistida praticamente desaparece: o híbrido é resistente ao AF; o crescimento do caule é menor, o que simplifica o manejo; o ciclo de colheita fica entre 22 e 25 dias (contra apenas 12 dias na variedade Tenera), o que aumenta o rendimento da colheita; o híbrido também é menos perseguido por pragas em geral e os frutos do híbrido pós-colheita deterioram menos rapidamente, o que permite um período maior entre a colheita e o processo de extração na usina sem alterar a qualidade do óleo, principalmente no tocante à acidificação dos ácidos graxos (a acidez do híbrido varia de 1,5% a 2,5%).

Além disso, o óleo do híbrido é mais rico em ácidos graxos de cadeia insaturada: o teor de oleína é cerca de 40% maior que em outras espécies comerciais. Mas, entre todas as suas vantagens, um aspecto considerado fundamental para a usina extratora e para o pequeno produtor é que o híbrido, nas áreas preferenciais de clima, produz o ano inteiro com pouca variação entre o período de safra e entressafra. “Hoje, podemos afirmar com segurança que plantar o BRS Manicoré é economicamente viável e bem lucrativo”, diz, otimista, Yokoyama.

grafico produtores

Sem rumo certo

Apesar dos resultados positivos do BRS Manicoré, o plantio do dendê ainda não encontra respaldo para se tornar uma cultura proeminente no Brasil. Prova disso é a falta de resultados favoráveis do Programa de Produção Sustentável de Palma de Óleo, criado em 2010 pelo governo federal. Com a intenção de lançar um conjunto de ações para disciplinar a expansão do cultivo de óleo de dendê no território brasileiro, que incluiu medidas de contenção da expansão desordenada do dendê por meio de um zoneamento agroecológico e controle por satélite sobre o plantio, mesmo em áreas desmatadas legalmente as ações se concentram quase na sua totalidade em pesquisa, desenvolvimento e inovação.

Fora isso, os resultados práticos não são assim tão vistosos. Na época em que foi lançado o programa, o país tinha aproximadamente 100 mil hectares de área plantada em produção. Hoje, essa área aumentou para 200 mil hectares – algo pequeno se comparado ao maior produtor da América Latina, a Colômbia, que possui 500 mil hectares de área plantada em produção. “Deste total, no Brasil, 100 mil hectares são de área recente que ainda não produziu, algo que acontecerá apenas em 2014”, revela o chefe geral da Embrapa, Manoel Teixeira Souza Júnior.

Para o pesquisador, a produção de dendê não se tornará relevante como fornecedora de óleo para produção de biodiesel antes da área em produção atingir 500 mil hectares. “Mas não sabemos quando isso vai acontecer. Temos um programa, mas não temos uma meta definida”, afirma.

Terra não é exatamente um problema: a pedido do Ministério da Agricultura, a Embrapa realizou um zoneamento agroecológico da cultura do dendê, no qual ficou constatado que há mais de 30 milhões de hectares favoráveis para a produção, a maioria delas sendo áreas degradadas da Amazônia Legal e áreas utilizadas para produção de cana-de-açúcar do Nordeste. “Diferentemente de outros países produtores, que expandiram as suas plantações suprimindo suas florestas nativas, o Brasil tem o compromisso de plantar a palma apenas em áreas degradadas e antropisadas, além de não poder utilizar áreas de conservação, reservas indígenas e áreas de quilombo para esse fim”, explica o técnico da Embrapa.

Faltam sementes

Essa área favorável para a produção seria uma excelente notícia, não fosse outro entrave que atrapalha os planos de expansão da cultura do dendê no país: depois de todas as dificuldades em conseguir uma cultivar resistente ao AF, o Brasil ainda possui uma baixíssima produção de sementes e não dá conta de suprir a demanda. “Nos últimos 20 anos, produzimos algo em torno de 10 milhões de sementes de dendê para o Brasil. A Embrapa, contudo, não é estruturada para isso e nem é esse o nosso objetivo. Nos últimos dois anos, o Brasil importou algo como 15 milhões de sementes. Veja a discrepância! Para que esse cenário se transforme, é preciso estimular empresas produtoras de sementes a investirem no Brasil”, explica Souza Júnior.

Para Eduardo Ieda, diretor- -presidente da Biopalma, embora a Embrapa e a Denpasa tenham capacidade de fornecer cerca de 3 milhões de sementes pré-germinadas, isso dá para formar apenas uns 15 mil hectares por ano. Ou seja, se o Brasil pretende fazer a produção decolar será preciso ou contar com a boa disponibilidade de sementes no mercado internacional ou estimular de forma mais decidida a oferta de sementes. “Para atingir o volume adequado de sementes que garanta o crescimento do setor, precisamos contar com fornecedores de sementes de alta qualidade de países como Costa Rica, Equador, Colômbia, entre outros.”

Outro gargalo apontado pelas empresas que investem em dendê, sobretudo na área do Pará, é a questão fundiária crítica na região. “Isso impede o financiamento de plantações nestas áreas”, explica Souza Júnior, da Embrapa. “Hoje temos algumas iniciativas bastante positivas de desenvolvimento desta cultura, mas ainda são, no geral, muito poucas e pequenas frente ao que é necessário ser feito com a cultura para que ela realmente permita chegarmos em 2020 ou 2025 como um produtor forte de dendê no mundo.”

O chefe geral da Embrapa também afirma que, apesar de todo conhecimento produzido para o melhoramento genético do dendê, inclusive com a produção do híbrido BRS Manicoré, ainda falta realizar grandes investimentos em tecnologia e associar a escala de produção a uma engenharia de logística adequada. “A Embrapa já reviu todo o programa de melhoramento e estabeleceu um grupo de trabalho que vai discutir um portfólio que será orientador dos próximos editais de projetos. Apesar da boa vontade, o país está longe de alcançar os grandes produtores mundiais. Precisamos, em conjunto com o governo e a iniciativa privada, entre eles produtores de dendê e produtores de biodiesel, buscar soluções para dinamizar esse processo de escala de produção. O caminho até atingirmos esse patamar é longo.”

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