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Tabaco: é proibido fumar


Edição de Out / Nov 2012 - 31 out 2012 - 11:33 - Última atualização em: 13 dez 2012 - 10:39
materia tabaco
Pesquisas ainda são muito recentes, mas tabaco energético já surge como opção para os fumicultores brasileiros


Tatiane Matheus, de São Paulo

Uma parceria entre a empresa italiana Sunchem e a gaúcha M&V Participações está trazendo uma novidade ao Brasil que, se vier a dar certo, poderá revolucionar tanto a produção de tabaco quanto a de biodiesel no país. Trata-se do tabaco energético. Ao contrário de sua prima mais famosa que vem sendo cultivada há décadas para abastecer a indústria do cigarro, a única fumaça que esse nova variedade de tabaco vai produzir sairá dos canos de escapamento. Seu principal produto é um óleo vegetal que pode ser aproveitado na produção de biodiesel e bioquerosene de aviação. Fora isso, a planta também gera coprodutos, como biomassa para geração de energia e ração animal.

O motivo do entusiasmo que a novata vem causando é o seu elevado teor de óleo. As sementes desse novo tabaco têm 40% de óleo, enquanto no grão de soja o teor fica em torno de 18%. “A produtividade é de 6 a 10 toneladas de semente por hectare. Isso dá de 2,4 a 4 toneladas de óleo”, explica o economista Sérgio Camps de Morais, CEO da Sunchem South Brazil, empresa fundada para trazer a novidade ao território nacional.

Em 1990, o especialista em genética agrícola Corrado Fogher, da empresa italiana de biotecnologia Plantechno, realizou pesquisas a respeito do tabaco convencional e descobriu que sua semente poderia ser usada na produção de óleo. A partir daí, a empresa passou 13 anos trabalhando no aperfeiçoamento dessa característica. No ano de 2003, obteve sucesso no desenvolvimento do tabaco energético. Em 2007, a Plantechno fundou a Sunchem para iniciar uma fase de provas do novo produto em escala mundial. Nesses cinco anos foram feitos testes na Itália, Egito, Estados Unidos, Namíbia, Senegal e Costa do Marfim.

A iniciativa, inédita no país, vem sendo testada em Rio Pardo, cidade gaúcha a 140 quilômetros da capital Porto Alegre. No final do ano passado, foram plantados quase 10 hectares e a primeira colheita deve ocorrer até o fim de setembro. “Plantamos entre março e abril deste ano. A colheita atrasou porque as chuvas mataram uma parte da planta já germinada, mas ela rebrotou”, explica Camps, acrescentando que somente após a colheita será possível ter uma ideia da produtividade e aprender como trabalhar com a planta. “Este ano será um aprendizado. A planta aguentou frio, seca muito forte e não morreu. O pessoal que trabalha com tabaco, o tradicional, ficou surpreendido”, completa empolgado.

Segundo Camps, a intenção é iniciar uma produção em escala comercial já no ano que vem e em 2015 instalar uma indústria para fazer o esmagamento e extrair o óleo das sementes. A perspectiva é de um investimento de aproximadamente R$ 20 milhões para concretizar uma estrutura com capacidade para esmagar em torno de 100 mil toneladas de tabaco energético ao ano. Nas contas dos investidores, um complexo desse porte poderia absorver a produção de uma área plantada de 10 mil hectares.

O CEO da Sunchem revela que se o óleo vegetal oriundo do tabaco energético enfrentar dificuldades de comercialização dentro do mercado brasileiro, o produto poderá ser exportado. Já haveria até um grupo holandês interessado. Um ponto positivo está no fato do tabaco energético não ser usado para alimentação humana, como acontece com a soja. Isso também ajuda a blindar essa matéria-prima contra flutuações de preço, comuns no mercado de commodities agrícolas.

Aproveitamento

“Não queremos competir com o tabaco de fumo”, explica o presidente da M&V Participações, Sérgio Detoie. Segundo ele, o tabaco energético poderia ser plantado na entressafra da variedade convencional, aproveitando o conhecimento e a estrutura das milhares de famílias agricultoras que têm nesse plantio seu principal ganha-pão. “O foco é usar a cadeia produtiva já existente.”

O Brasil é um dos líderes no ranking mundial de produção e exportação de tabaco. Na safra 2010/2011, o Brasil produziu 833 mil toneladas, ficando atrás somente da China. O plantio é uma atividade econômica substancial que envolve 704 municípios da região Sul, emprega 742 mil pessoas no meio rural e gera R$ 4,1 bilhões de receita aos produtores. Segundo a Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), o tabaco representou, em média, 56% da renda total dos produtores que se dedicaram ao seu plantio em 2011. A indústria do tabaco também é uma grande pagadora de tributos, tendo gerado uma arrecadação de quase R$ 10 bilhões no último ano.

Apesar de sua evidente importância econômica, a atividade está contra as cordas por sua relação com a indústria do cigarro. Entidades governamentais e civis ligadas à área da saúde têm feito uma pressão e tanto para que o Brasil adote o mais rapidamente possível as recomendações da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT) – tratado internacional proposto em 1999 pela Organização Mundial da Saúde para restringir o uso do fumo.

O problema é que desmontar um arranjo produtivo desse tamanho não é algo que possa ser feito de forma indolor. Dada a relevância dessa cultura na receita de várias centenas de municípios, o presidente do Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco), Iro Schünke, afirma que uma situação de caos se instalaria na região Sul caso as restrições adotadas pelo governo brasileiro acabassem empurrando a produção para paísesconcorrentes (EUA, a vizinha Argentina, Zimbábue, Maláui e Indonésia), levando impostos, renda e empregos. “Acreditamos que o governo seja sensível à importância social e econômica da cadeia produtiva do tabaco, até mesmo porque os grandes clientes internacionais, como, por exemplo, as grandes cigarreiras, têm feito e continuam fazendo altos investimentos no país”, diz Schünke.

Novidade

Schünke conta que foram necessárias décadas de investimentos pesados para que o Brasil dominasse a cultura. Antigamente o país importava sementes da planta; hoje é exportador. “O uso, entretanto, é específico para a produção de tabaco em folha, resistente a pragas e doenças, e de alta qualidade”, explica. A entidade não tem informações detalhadas a respeito do tabaco energético além das que já foram veiculadas na mídia.

“Acredito que possa sim ser uma ótima alternativa, porém ainda são necessárias pesquisas que vão determinar a viabilidade desta cultura”, opina o assessor técnico da Afubra, Nataniel Sampaio, acrescentando que como o produto ainda está em fase de pesquisa, não há como avaliar seu potencial comercial. “A Afubra não está trabalhando com o tabaco energético, mas apoia a iniciativa, assim como todas as outras que representarem alternativas de diversificação para as propriedades rurais”, diz.

Apesar de ainda não ter conhecimento sobre a fabricação de biodiesel a partir do tabaco, a associação vem acompanhando o biocombustível com grande interesse e toca dois projetos experimentais de produção – um a partir do óleo de girassol e outro do óleo de fritura usado, ambos na região central do Rio Grande do Sul. “Também, em caráter experimental, estamos avaliando a produção de biogás e etanol”, informa Sampaio.

Maior polo de produção de fumo do Brasil, Santa Cruz do Sul tem uma forte dependência econômica do setor. Segundo seu secretário de Desenvolvimento Econômico, Ubiratan Trindade, o município já vinha buscando alternativas por conta própria. “Pesquisas estão sendo realizadas no Parque Tecnológico da Universidade de Santa Cruz do Sul para o aproveitamento de subprodutos do tabaco convencional, como biomassa para geração de energia e ração animal”, informa.

Trindade conta que a prefeitura tem dialogado com a M&V Participações e que em breve essas conversas devem evoluir para a assinatura de um protocolo de intenções entre a Sunchem, a M&V Participações, a Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e a prefeitura para dar prosseguimento aos trabalhos de pesquisa. “É um projeto de extrema importância, pois possibilita o aproveitamento da própria cadeiaprodutiva, mantendo a produção de tabaco para o cigarro, mas, ao mesmo tempo, criando uma alternativa de renda ao agricultor”, opina.

O coordenador do Parque Científico e Tecnológico Regional e da Incubadora Tecnológica da Unisc, Fernando José Stanck, revela que na primeira semana de setembro foi assinado um convênio com a Sunchem para que sejam realizadas pesquisas sobre o cultivo de tabaco energético e a produção de biodiesel. “Nós iremos agregar valor com pesquisas que serão desenvolvidas pelo Centro de Excelência de Óleo, Química e Biotecnologia”, diz.

Gato escaldado

O setor de biodiesel já sofreu dois traumas marcantes relacionados com matérias-primas que chegaram ao mercado prometendo muito mais do que conseguiram entregar. Foi o caso da mamona e do pinhão-manso. Por isso, há quem desconfie do tabaco energético. “Se for rentável, plante. Mas não acho viável”, opina o assessor de política agrícola do Ministério da Agricultura, Sávio Pereira.

O assessor argumenta que há certo idealismo na tentativa de substituir a soja na produção de biodiesel. Para ele, como o Brasil produz soja em alta escala, é difícil que algo feito por poucos produtores consiga alcançar o volume necessário para a produção de biodiesel. Além disso, há benefícios fiscais envolvidos para que o biodiesel de soja seja economicamente viável em relação ao petróleo.

Diversificação

Na argumentação de Camps, o que faz do tabaco energético uma alternativa melhor do que outras oleaginosas é que ele não tenta reinventar a roda. Entra no mercado como uma oportunidade de diversificação para fumicultores que já conhecem bem seu ofício e pode ser plantado na safrinha de inverno. “A época das safras não coincidem. Não há sobreposição de colheita.”

Pereira não se dá por satisfeito e refuta a ideia de que isso baste para tornar a novidade uma opção sem riscos. “Fala-se de alternativas, mas é fato que ainda não as encontraram”, diz. O assessor também não crê que o combate ao cigarro vá derrubar a indústria do fumo no país de uma hora para a outra, de forma a confirmar os cenários pessimistas descritos por Iro Schünke, do SindiTabaco. Além do Brasil exportar 85% do tabaco que colhe, argumenta, a fumicultura “é uma cultura autossustentável e não depende do governo”.

“O tabaco energético pode ajudar na diversificação, mas não acredito que seja a solução para os milhares de produtores de fumo no Sul do Brasil”, opina o engenheiro agrônomo e gerente de assuntos corporativos da Afubra, Marco Antônio Dornelles. Para ele, ainda é preciso conhecer a mão de obra e o rendimento do tabaco energético para ter uma avaliação mais concreta. Porém, como renda complementar, acredita que seja uma das melhores opções aos produtores de tabaco.

Por sua vez, Trindade, do município de Santa Cruz do Sul, crê que o tabaco energético agregue renda para a agricultura familiar e proporcione uma alternativa sustentável para a indústria de biocombustíveis: “Estudos mostram que por ser uma cultura realizada na entressafra, vai funcionar como um complemento de renda ao produtor.”