029

Entrevista: Marcos Merlin Boff - Oleoplan


Edição de Jun / Jul 2012 - 20 jun 2012 - 16:18 - Última atualização em: 10 jul 2012 - 17:23
Dividindo o comando da Oleoplan com seu pai, Irineu Boff, Marcos Merlin Boff vai preparando o terreno para o crescimento da empresa

Fábio Rodrigues, de São Paulo

Filho e neto de esmagadores de soja gaúchos, muitos podem dizer que o economista Marcos Merlin Boff tem óleo de soja no sangue. Junto com seu pai, Irineu Boff, comanda desde 1996 a Oleoplan, empresa que parece ter descoberto sua vocação para a grandeza ao entrar no mercado de biodiesel em 2007. Dona da segunda maior usina de biodiesel do país, nos últimos meses a empresa colocou em movimento um audacioso plano de expansão que poderá muito bem transformá- la na maior companhia brasileira do mercado de biodiesel.

Em rápida sucessão, a empresa anunciou planos de construir uma nova unidade produtiva em Ponta Grossa (PR), expandir sua já enorme fábrica em Veranópolis (RS) e comprar as usinas de Iraquara (BA) e Porto Nacional (TO) que pertenciam à Vanguarda Agro. Tudo somado, a capacidade produtiva da Oleoplan chegará a impressionantes 1,1 bilhão de litros ao ano – isso se não tirar mais nenhum coelho da cartola. Nesta entrevista, Marcos explica que a meta não é necessariamente ser a maior do ramo, mas ter eficiência para se manter num mercado cada vez mais competitivo.

Revista BiodieselBR – Como começou a história da Oleoplan?
Marcos Merlin Boff – A Oleoplan é uma empresa familiar fundada em 1980 para atuar no ramo de esmagamento de soja no Rio Grande do Sul. Mas a história da minha família com a soja começa antes disso. Meu avô materno, já falecido, Alcides Merlin, foi um dos pioneiros na industrialização da soja aqui no Rio Grande do Sul. Durante os anos 60 ele montou uma indústria chamada Merlin S.A., que é bastante tradicional aqui no estado. Meu pai [Irineu Boff] veio trabalhar com meu avô na época do projeto de construção da segunda fábrica da Merlin e, como meu avô gostou de meu pai, acabou o contratando para trabalhar nas operações da indústria. Foi assim que o meu pai acabou conhecendo e se casando com minha mãe. Paralelo a isso, em 1976 um pessoal construiu uma indústria de esmagamento em Veranópolis, mas, como eles não eram do ramo, resolveram se desfazer da empresa e o meu pai viu nisso uma oportunidade de criar um negócio para ele que fosse independente.

E como foi que a Oleoplan entrou no mercado de biodiesel?
Marcos Merlin Boff – Essa era uma ideia recorrente do meu pai, mesmo antes do lançamento do programa nacional do biodiesel. Na época, os preços que eram praticados no óleo de soja eram bem baixos, então ele sempre estava olhando para alternativas de valorização do produto, e o biodiesel era uma dessas opções. Quando o PNPB surgiu, em 2005, resolvemos investir na construção de uma fábrica em Veranópolis. Eu já trabalhava na empresa na época e acompanhei esse processo desde o início. Fizemos uma viagem à Europa para conhecer fábricas de biodiesel por lá. Em 2006 começamos a construção de nossa usina e, no ano seguinte, já estávamos operando. Foi bem rápido. Há cerca de três anos o biodiesel ultrapassou o esmagamento de soja e se tornou o nosso maior negócio.

Vocês parecem ter colocado em movimento um plano audacioso de crescimento. O objetivo da Oleoplan é ser a maior empresa de biodiesel no Brasil?
Marcos Merlin Boff – Na verdade, a gente não trabalha para ser a maior. Mais do que ser grandes, queremos ser eficientes. Por causa disso, nos últimos anos temos sido uma das empresas que mais tem dado resultado no setor de biodiesel. O que temos feito sempre é buscar aproveitar as oportunidades de mercado que aparecem e analisar onde estão as oportunidades de expansão. Esse é um trabalho ao qual me dedico bastante. O caso é que o mercado do Rio Grande do Sul atingiu hoje um nível de concorrência bastante elevado e acreditamos que, dado o nosso porte, é interessante deixar de ser uma empresa regional e expandir nossa atuação para todo o Brasil, de forma a não concentrarmos todo o risco de nossas operações num local só.

Por isso vocês anunciaram os planos de construir uma usina no Paraná?
Marcos Merlin Boff – Exato. Aí aconteceu a mudança que levou à regionalização dos leilões de biodiesel e passou a ser mais interessante diversificarmos para outras regiões do país em vez de produzir na região Sul, onde nossas duas usinas acabariam competindo entre si. Foi então que vimos que a Vanguarda estava querendo se desfazer de negócios que não fossem ligados à agricultura e tivemos um estalo de que esse seria um caminho mais rápido para entrar no Norte e Nordeste. O negócio todo demorou seis meses para ser concluído e desde 5 de abril estamos operando as usinas de Iraquara e Porto Nacional.

Como fica esse investimento dentro do modelo de leilões que diminui os benefícios da regionalização? Pela narrativa que você fez, a impressão é vocês foram pegos no contrapé.
Marcos Merlin Boff – Essa foi uma mudança de regras que a gente não estava esperando. Desde seu lançamento, o PNPB tem o desenvolvimento das regiões Norte e Nordeste como um de seus focos, apesar de, na prática, isso não ter acontecido. Com as mudanças no modelo de comercialização acontecidas no ano passado, criou-se um cenário mais favorável aos investimentos nessas regiões e fizemos um movimento rápido para tentar aproveitar esse momento. Agora temos essa nova alteração que acabou deixando pendente a criação de algum tipo de estímulo para aquelas regiões do país. De uma forma ou de outra, nosso investimento foi feito pensando que ele tem potencial para ser competitivo, independentemente de qualquer incentivo, porque esse é o caminho natural para qualquer negócio.

Fora esse porém, o que você achou das novas regras do leilão de biodiesel?
Marcos Merlin Boff – Foi uma evolução positiva para o mercado no sentido de fazer com que a questão da qualidade do produto e do atendimento às distribuidoras seja mais valorizado dentro do PNPB. Isso a gente vê como uma coisa bastante positiva. Entendemos que é justo que as distribuidoras levem em conta a diferenciação logística e o relacionamento que têm com cada produtor. Isso abre um caminho interessante para que as distribuidoras remunerem os produtores de acordo com o benefício que percebem neles. Mas ainda vemos pontos que precisam ser aprimorados, como a questão do estímulo ao desenvolvimento regional e à agricultura familiar. No novo modelo, não é relevante para as distribuidoras valorizar as usinas que geram mais desenvolvimento regional ou fomentam melhor a agricultura familiar. Para nós, ficou faltando esse ponto.

Somando tudo, a Oleoplan terá 1,1 bilhão de litros em capacidade produtiva. Onde é que vocês esperam vender esse biodiesel todo?
Marcos Merlin Boff – Queremos estar preparados para o momento em que o mercado de exportação de biodiesel for viabilizado, mas acreditamos que o mercado interno ainda tem muito potencial de crescimento. No ano passado, o Brasil importou mais de 9 bilhões de litros de óleo diesel e, para este ano, a projeção é de 13 bilhões. Enquanto isso, o biodiesel é um mercado de mais ou menos 2,5 bilhões de litros e um crescimento potencial de cerca de 1 bilhão de litros se evoluirmos para o B7. Isso nos permitiria deixar de importar um grande volume de diesel, gerando impactos positivos em toda a cadeia produtiva do biodiesel.

Com os investimentos que a Oleoplan tem feito, como é que você tem visto o avanço de multinacionais de grande porte sobre o mercado?
Marcos Merlin Boff – Isso era esperado. A ADM foi a primeira a entrar no mercado e já deixou claro que as multis viriam. Por isso, quando você perguntou se queremos ser os maiores, eu disse que preferimos ser eficientes. Aqui no Rio Grande do Sul, a gente tem uma história de convivência com essas empresas no negócio de esmagamento e originação de grãos, e sabemos que enfrentá- -las e disputar poder com elas é muito difícil. São empresas muito poderosas. O segredo é manter um nível de eficiência que nos permita participar e prosperar dentro desse mercado.

Como vocês têm acompanhado os debates em relação ao novo marco regulatório do setor?
Marcos Merlin Boff – Nossa expectativa é que o novo marco ajude o programa a amadurecer. Mas dá para ver que os agentes do governo estão se articulando para criar um ambiente positivo para o setor como um todo. Temos o novo modelo de comercialização, a ANP também está fazendo a sua parte para melhorar a qualidade do produto oferecido, o MDA promoveu um debate amplo para reformular as regras do Selo Combustível Social. Temos acompanhado tudo isso dentro da Ubrabio, mas ainda não sabemos muito sobre os detalhes do novo marco. Só o que sabemos é o que foi divulgado pela imprensa. O que podemos esperar é um horizonte de longo prazo pra termos um planejamento melhor de onde e como investir.

Em sua opinião, o novo marco demorou?
Marcos Merlin Boff – Entendo que o mercado já teria condições de fornecer um percentual maior de biodiesel há mais tempo e isso gerou um excesso de oferta prolongado que está sacrificando bastante o setor. Então, acho que demorou, mas também acho essa demora natural, porque, como este é um setor de energia, é preciso avançar com cautela.

A Oleoplan tem uma subsidiária chamada Palmaplan que está investindo em dendê na Região Norte. Como esse projeto tem caminhado?
Marcos Merlin Boff – Esse é um projeto que já tem três anos e é de longo prazo. Queremos começar estabelecendo um núcleo de plantio próprio que vai dar sustentação para a instalação de uma esmagadora de dendê. Hoje temos mais de mil hectares plantados com palma de óleo e queremos chegar a 3 mil. Paralelamente, estamos preparando um projeto que deverá somar mais 7 mil hectares da agricultura familiar.

Como a Palmaplan se encaixa na estratégia geral da Oleoplan dentro do mercado de biodiesel?
Marcos Merlin Boff – A Palmaplan é uma empresa totalmente financiada pela Oleoplan, mas que vai ter autonomia à medida que comece a produzir. Claro que ela não deixa de fazer parte de nossa estratégia como grupo, a palma de óleo é uma matéria-prima que a gente acha que já tem um potencial bem concretizado no Brasil e um futuro muito bom como negócio em si mesmo.

Você falou do envolvimento da agricultura familiar no Norte, mas como é a participação dos pequenos agricultores nas outras localidades?
Marcos Merlin Boff – No Sul, temos um relacionamento histórico com os agricultores familiares que vem desde o início da Oleoplan, além de uma atuação bastante expressiva em número de produtores envolvidos. A entrada no biodiesel e a criação do Selo Combustível Social só nos fez aprimorar mais uma relação que já existia. Passamos a promover mais a assistência técnica e a firmar contratos antecipados. No Nordeste, queremos desenvolver algum tipo de fomento, mas ainda estamos planejando como vamos conduzir esse projeto.

Vocês já têm ideia de qual vai ser a oleaginosa com que vão trabalhar no Nordeste?
Marcos Merlin Boff – Ainda não, até porque ainda estamos conhecendo como funciona a agricultura na região. Mas não descartamos a mamona. O maior núcleo de produção dessa oleaginosa no Brasil fica perto de uma das usinas que compramos da Vanguarda, então ali é uma região que, teoricamente, tem uma boa vocação. O importante é que um projeto de agricultura familiar só vai gerar resultados se for bom não apenas para a empresa que está fomentando, mas também para quem estiver plantando. Se não for assim, o sujeito vai plantar no primeiro ano e depois não vai querer mais ouvir falar.

A Oleoplan foi uma das empresas que optou por permanecer na Ubrabio depois do racha de maio do ano passado. Por quê?
Marcos Merlin Boff – Estivemos entre os fundadores da Ubrabio e acreditamos que grande parte do que o setor conseguiu nesses anos foi graças ao trabalho que a entidade promoveu. Pelo que temos visto existe um alinhamento natural entre os pleitos e os desejos dos produtores de biodiesel. Eles têm sido bastante uniformes, apesar do setor contar com mais de uma associação. Logo, não vimos qualquer motivação para não continuar com a Ubrabio. Além disso, a Ubrabio tem uma característica que consideramos muito importante, que é o fato dela não ter apenas produtores de biodiesel como associados, mas também fornecedores de insumos e tecnologia.

Recentemente foi divulgado que a Polícia Federal está investigando uma denúncia de formação de um cartel para manipular os resultados dos leilões de biodiesel. Como a Oleoplan vê esses acontecimentos?
Marcos Merlin Boff – Olha, nem sei o que responder porque esse é um negócio sobre o qual não sabemos nada. Tudo o que a gente sabe sobre essas denúncias foi o que saiu nos jornais e na própria BiodieselBR. Fora isso, não estou sabendo de mais nada.