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Dieter Bockey: eficiência germânica


Edição de Out / Nov de 2011 - 15 out 2011 - 16:13 - Última atualização em: 08 mar 2012 - 11:41
Apesar das recentes turbulências, a Alemanha construiu a indústria de biodiesel mais pujante do globo. Ufop foi parte fundamental nessa história de sucesso que já dura 20 anos

Fábio Rodrigues, de São Paulo

O agrônomo Dieter Bockey acompanhou a construção da indústria alemã de biodiesel praticamente desde o rascunho. Em 1993, ele desembarcou na União para a Promoção de Plantas Oleaginosas e Proteicas (ou, no original, Ufop), que havia sido fundada há pouco mais de dois anos para tentar solucionar parte dos desafios que a agricultura alemã enfrentava na época. Então, a ideia de transformar óleos vegetais num combustível que poderia substituir o diesel de petróleo soava até um pouco exótica, mas a organização topou o desafio de desenvolver esse novo mercado.

O ponto de virada veio em 1995, quando a poderosa Volks liberou seus veículos de passeio para rodar com aquele novo biocombustível. Foi aí que as coisas começaram a engrenar. O sucesso do biodiesel na Alemanha foi tanto que o setor acabou tragado por seu próprio entusiasmo e hoje amarga um nível de ociosidade superior a 50%, acompanhado de uma série de crises existenciais que precisarão ser devidamente debeladas antes que a trajetória de sucesso possa ser retomada. Chefe da Divisão de Recursos Renováveis e Biocombustíveis da Ufop e gerente da Associação de Gerenciamento de Qualidade do Biodiesel (AGQM), entidade que tem colaborado para a consolidação da qualidade do biodiesel na Alemanha e além, Dieter Bockey compartilha conosco sua visão sobre os desafios futuros do setor que representa.

Revista BiodieselBR – Quando foi criada em 1990, a Ufop era basicamente uma associação de agricultores. Como foi que o biodiesel entrou?
Dieter Bockey - A Ufop foi fundada em dezembro de 1990, como resultado da discussão sobre reforma da política agrícola da União Europeia. Duas questões estavam sendo debatidas: a introdução das áreas de reserva para reduzir o excesso de cereais e o Acordo de Blair House, que limitava o cultivo de oleaginosas alimentares na União Europeia. Como isso levaria à redução da área plantada, começamos a nos perguntar o que fazer com essas terras que somariam cerca de 5 milhões de hectares na UE. Então, o conselho da Ufop decidiu que o biodiesel seria uma boa alternativa porque criaria uma base para a ampliação da colza. No começo dos anos 90, a colza ocupava 750 mil hectares na Alemanha e hoje a média é de 1,5 milhão de hectares.

A Alemanha é o maior fabricante de biodiesel do mundo, com uma produção estimada em 2,6 bilhões de litros. Como foi que isso começou?
Dieter Bockey – Quando o conselho da Ufop começou a promover o uso do biodiesel, no início da década de 90, optamos pelo uso do biodiesel puro e não misturado ao diesel mineral, como acontecia na França. Em 1995 houve uma guinada quando a Volkswagen anunciou que manteria as garantias de fábrica para os carros de passeio novos das marcas VW, Audi, Skoda e Seat. Isso só aconteceu em função de um pedido da Ufop e resolveu o problema do “ovo e da galinha”. Pudemos, então, passar a promover o B100 nos chamados postos de combustíveis livres que não estavam ligados às grandes companhias petrolíferas. A Ufop desenvolveu uma parceria muito construtiva com os donos desses postos. Mas o sucesso de vendas só foi possível porque até 2006 o biodiesel não era taxado e o preço do diesel fóssil estava em alta. Com a introdução da Diretiva Europeia de Taxas de Energia, as isenções aos biocombustíveis nos países membros da UE ficaram limitadas a dez anos – o prazo se esgota em 2012 – e precisaram ser revistas anualmente. Isso sinalizou que os impostos viriam, era só uma questão de tempo. Ao mesmo tempo, o governo começou a enfrentar problemas orçamentários, e os impostos não cobrados do biodiesel chegavam a € 1,2 bilhão. Em 2006, o parlamento alemão decidiu taxar o biodiesel, mas como compensação, tornou obrigatória a mistura do biodiesel com o diesel fóssil que hoje está fixada em 6,25% do conteúdo energético.

O Relatório Anual da Ufop desenha um quadro bastante ruim da indústria alemã de biodiesel. Quais as razões para as dificuldades?
Dieter Bockey - Devido à isenção total e ao mercado potencialmente ilimitado do B100, no começo dos anos 2000 diversas companhias investiram em usinas de biodiesel. Não apenas alemãs, mas também de outros países que queriam vender em nosso mercado. Embora a Ufop tenha avisado dos riscos desses investimentos, muitas empresas foram atraídas, o que explica o fato de a ocupação media das usinas alemãs estar em apenas 50%. Há diversos outros componentes para explicar esse quadro. Primeiro, os investidores assumiram expectativas enganosas a respeito das políticas de promoção de biodiesel e ignoraram que o aumento na demanda de matérias-primas – somada à alta no petróleo, que aumentou os custos – fatalmente levaria ao aumento nos preços. Também faltam estratégias consistentes nas empresas do setor, várias das com questões técnicas e de qualidade. As exigências de maiores cortes nas emissões também têm levado a um endurecimento nas especificações do biodiesel, e as fabricantes não têm orçamento de pesquisa e desenvolvimento para acompanhar esse processo. A Ufop e a AGQM têm financiado projetos nesse sentido e trabalhado junto com a indústria petrolífera para melhorar o diálogo nos níveis nacional e internacional.

Em sua opinião, qual seria a melhor maneira de recolocar o setor nos trilhos?
Dieter Bockey - Está claro que o processo de consolidação da indústria de biodiesel não vai parar. A União Europeia possui uma capacidade produtiva de 21 milhões de toneladas para uma demanda máxima de 14 milhões de toneladas. Os problemas descritos anteriormente tendem a continuar e isso só poderá ser amortecido se tivermos demanda adicional de biodiesel. A Ufop está apoiando projetos para a introdução do B30, enquanto a AGQM vem olhando para a possibilidade de misturar biodiesel ao óleo utilizado no aquecimento de edifícios. De qualquer forma, em mais um ano ou dois, as exigências criadas pela Diretiva de Energias Renováveis vão nivelar completamente o terreno.

Falando na Diretiva Europeia de Energias Renováveis, ela determina que biocombustíveis vendidos na Europa emitam 35% menos gases de efeito estufa (GEE) do que sua versão fóssil. Essa é uma má notícia para quem faz biodiesel de soja. Isso não cria ainda mais problemas?
Dieter Bockey - Esse foi um compromisso político derivado de discussões muito sérias ocorridas no Parlamento Europeu em 2009. As ONGs e os partidos ambientalistas fizeram muita pressão para que as mudanças indiretas no uso da terra [ILUC, na sigla em inglês] fossem levadas em conta. As exigências não serão desafios apenas para os produtores de biodiesel feito com soja. O United Soybean Board e o Canola Council contrataram institutos para refazer os cálculos das emissões do biodiesel produzido com suas matérias-primas. A Ufop também está contratando um estudo para levantar a viabilidade da colza na União Europeia, que também vai levantar as áreas disponíveis em países do leste europeu. Ou seja, a competição ao redor dos valores de referência para as emissões de CO2 já começou. As estratégias para o biodiesel na Europa e em outras partes do mundo dependem da disponibilidade internacional das matérias-primas, e em cima disso temos os requerimentos de qualidade e ambientais.

A ideia de ILUC está ganhando tração política e afirma que os biocombustíveis são bem mais sujos do que se pensa. Qual sua opinião sobre essa nova polêmica?
Dieter Bockey - Não consideramos o ILUC uma polêmica, mas um fenômeno real. A limitação de áreas agricultáveis produz determinados “efeitos”. A questão é como esses efeitos devem ser calculados para que as leis levem em conta o fator ILUC. A criação dos valores de referência e de requerimentos na Diretiva de Energias Renováveis foram uma condição para manter os biocombustíveis como parte das políticas europeias de redução dos GEE e segurança energética, porque as ONGs estavam pressionando para que as políticas de biocombustíveis fossem completamente eliminadas. A criação dessas exigências foi um compromisso político. A questão é quem vai ser penalizado e como? A Ufop rejeita a criação de um fator ILUC universal. Nossa proposta é que apenas os países que estão destruindo florestas tropicais ou áreas com alta biodiversidade sejam penalizados. Esse seria um bom tema para debater com o Brasil. Vocês tem tido bastante sucesso em compatibilizar a produção de biocombustíveis com a criação de regulamentos de proteção às florestas tropicais.

De que forma o programa da AGQM foi concebido?
Dieter Bockey - A razão para que fundássemos a AGQM foi o surgimento de problemas de qualidade no biodiesel vendido na Alemanha. Em 1998, a Ufop e a Volkswagem realizaram uma ação para verificar a qualidade do B100 em 200 postos. Os resultados foram tão ruins – praticamente todos os postos estavam vendendo biodiesel fora das especificações – que os representantes da Volks deixaram claro que se não fizéssemos algo, eles não estenderiam mais as garantias para carros abastecidos com biodiesel. A AGQM nasceu, então, para criar um sistema de gerenciamento da qualidade para a cadeia do biodiesel e para tocar iniciativas de pesquisa. Aliás, discussões sobre qualidade e questões relacionadas aos motores seriam um bom passo para aumentar a cooperação entre nossos países.

Os postos têm relatado aumentos na formação de borras e outros problemas de qualidade relacionados ao B5 aqui no Brasil. Como vocês encaram esses desafios na Europa?
Dieter Bockey - A qualidade é uma das principais questões para garantir o futuro do biodiesel. Os consumidores precisam confiar na qualidade dos nossos produtos como confiam nos fósseis. A AGQM vem realizando projetos em cooperação com a indústria do petróleo e outros parceiros para averiguar a relevância desses problemas. Os resultados desses estudos e documentos com orientações sobre como minimizar essas dificuldades com a qualidade estão todos disponíveis no nosso site. Também apresentamos esses dados em eventos e oferecemos treinamentos para educar os profissionais do setor. É desnecessário que os mesmos problemas se repitam, por isso achamos que há uma oportunidade de cooperação entre a AGQM e os produtores brasileiros.

Quais foram os resultados obtidos pela AGQM até agora?
Dieter Bockey - A AGQM esteve envolvida em projetos para atestar misturas maiores de biodiesel no diesel de petróleo. Todos os veículos agora têm garantia de fábrica para rodar com B7, condição prévia para o padrão europeu para que o diesel EM 590 pudesse avançar do B5 para o B7. Com isso, o mercado potencial do biodiesel cresceu de 10 para 14 milhões de toneladas na Europa. Só na Alemanha, a demanda cresceu em mais de 800 mil toneladas em apenas um ano. A AGQM agora está envolvida no processo de discussão das especificações para B30 e em projetos de cooperação para a mistura do biodiesel no óleo combustível usado no aquecimento. Se misturarmos 5% de biodiesel ao óleo de calefação, o mercado cresce em 1 milhão de toneladas. Também estamos cooperando com o DIN/FAM, o organismo de padronização da Alemanha, na realização de uma rodada de testes com o objetivo de atestar a precisão dos ensaios de biodiesel feitos pelos laboratórios.

Como você vê o futuro do biodiesel no mundo?
Dieter Bockey - O biodiesel deverá continuar sendo o segundo combustível alternativo do mundo pelos próximos anos, atrás do etanol. Enquanto o biodiesel varia dependendo da matéria-prima, o etanol é sempre a mesma molécula. A disponibilidade da matéria-prima dá vantagem para o etanol, especialmente porque ele pode ser fabricado em larga escala a partir de resíduos vegetais. Por causa disso, as grandes companhias de petróleo, como a Cosan e a Shell, estão buscando oportunidades de cooperação no setor de etanol; no de biodiesel não temos esse movimento. Nosso desafio é aumentar a produção de óleos vegetais no mundo. Acontece que a demanda da indústria oleoquímica também está crescendo, graças ao desenvolvimento do conceito de biorrefinaria. Esses são mercados que podem pagar melhor pela matéria-prima, o que aumenta a competição. Precisaremos levar em consideração se vamos usar os ésteres metílicos [o biodiesel] para outras finalidades. O biodiesel é o primeiro passo para o uso de oleaginosas em grandes mercados, mas, dependendo do quadro político, a indústria vai desenvolver estratégias para ocupar outros mercados de maior valor agregado.