Desde que o mercado de biodiesel se estabeleceu no Brasil, a mídia tem trazido notícias sobre incêndios ou explosões graves envolvendo usinas.
Desde que o mercado de biodiesel se estabeleceu no Brasil, a mídia tem trazido notícias sobre incêndios ou explosões graves envolvendo usinas. Infelizmente, esses sinistros têm sido acompanhados não só de perdas materiais, mas também de perdas humanas. Deve-se salientar que diversos especialistas apontam que a indústria de biodiesel brasileira apresenta um nível de acidente muito alto em relação a outros segmentos industriais. Obviamente, o efeito dessas notícias junto à opinião pública pode, em médio ou longo prazo, macular a imagem que o biodiesel tem de ser uma solução energética limpa e ambientalmente correta. Por essas razões, é necessário, com urgência, entender o que está acontecendo e tentar corrigir os possíveis problemas com ações preventivas.
Invariavelmente, a causa dos acidentes nas indústrias de biodiesel tem sido atribuída de alguma forma ao metanol. Os riscos associados ao uso de metanol se devem à sua alta inflamabilidade e à sua chama incolor. De fato, o ponto de inflamação do metanol é 11º C, ou seja, nessa temperatura ou acima dela o metanol gera vapores em quantidade suficiente para inflamar em caso de uma faísca ou chama. Por outro lado, quando a concentração de metanol no ar atinge 5,5%, tem-se o risco de ocorrer uma explosão. Já os demais produtos combustíveis encontrados nas usinas, que são o próprio biodiesel, o óleo ou gordura e a glicerina, não são voláteis a temperatura ambiente para apresentar uma geração de vapor suficiente para entrar em ignição ou explodir.
Já ouvi diversos relatos de que num passado não muito distante as usinas de beneficiamento de soja apresentavam frequentes incidentes com incêndios e explosões. Nesse caso, o responsável era o hexano usado como solvente para a extração do óleo, o qual é ainda mais inflamável e explosivo que o metanol. Hoje em dia, ao se visitar uma usina moderna de soja, percebe-se normas extremamente rígidas em relação ao manuseio de hexano. Nas usinas que já visitei, as plantas de extração são isoladas fisicamente do resto das instalações e apenas alguns funcionários treinados têm acesso. Toda e qualquer ação considerada de risco de acidente em regiões da planta com presença de hexano é cuidadosamente planejada e executada de forma a minimizar a ocorrência de sinistros. O resultado de todo esse cuidado, provavelmente oriundo de um amadurecimento do setor, é uma taxa muito baixa de ocorrência de acidentes graves. Outros setores, como o petroquímico ou as refinarias de petróleo, apresentam riscos ainda maiores e igualmente apresentam menores índices de acidentes.
Sem dar exemplos específicos dos acidentes já ocorridos, para não citar de forma explícita ou implícita o nome da indústria envolvida, é fácil de perceber nos relatos dos acidentes publicados na mídia que eles, possivelmente, ocorreram por alguma negligência (ou talvez imperícia?) associada ao manuseio incorreto do metanol ou de outras correntes contendo metanol. De fato, uma rápida análise do que foi publicado a respeito desses incidentes permite pensar em uma ação preventiva que teria sido eficaz para evitar o sinistro. É necessário entender que o metanol estará presente não só nos reservatórios específicos destinados ao material, mas também dissolvido em todas as correntes que entraram em contato com ele, como o biodiesel, a glicerina e mesmo a água de lavagem, e que todas estas correntes irão apresentar riscos de incêndio ou explosão pela presença de vapores do álcool.
Um ponto que eu sempre tento enfatizar com os alunos que trabalham em meu laboratório é que é muito alto o risco de acidente quando se está trabalhando com produtos inflamáveis. No entanto, é possível minimizar a ocorrência de sinistros se esses riscos são conhecidos e se criteriosos protocolos de trabalho são seguidos. Obviamente, essa filosofia se encaixa nesta discussão, ou seja, é perfeitamente possível trabalhar com metanol em uma indústria e, mesmo com a periculosidade associada a ele, ter baixos índices de acidentes. Acredito que já é hora do setor de biodiesel estabelecer normas de segurança de operação de usinas capazes de colocar os índices de ocorrência de acidentes em níveis baixos e compatíveis com um setor que tenta vender a imagem de ser ambientalmente correto e socialmente responsável.
Paulo Suarez é professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ-UnB) e foi vencedor do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia em 2005.