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O misterioso releilão e o Dendê


Edição de Fev / Mar de 2011 - 25 fev 2011 - 12:11 - Última atualização em: 22 dez 2011 - 11:10
Editorial

O leilão de biodiesel foi criado junto com o programa do governo e nunca sofreu alteração em seu formato: as usinas vendem para Petrobras e Refap. A dinâmica sempre foi essa. Já os releilões fazem parte da etapa seguinte do programa, onde a Petrobras atua intermediando o processo, através da venda deste biodiesel para as distribuidoras.

Apesar do formato de ambos permanecer o mesmo, o leilão e releilão divergem essencialmente na transparência. Enquanto o primeiro é realizado abertamente para o público, o segundo tem acesso limitado até mesmo para as distribuidoras que participam.

Como consequência, a população não faz a menor ideia de quanto custam os 5% de biodiesel que estão no diesel revendido nos postos. A Petrobras lucra nesse processo de intermediação? Por que essa etapa da comercialização fica a cargo da Petrobras Distribuidora? O governo sabe o que acontece nesses releilões? Por que o governo permite que os dados permaneçam restritos à estatal? Quem tem interesse em manter estes dados sob sigilo?

São questões que permanecem em aberto e são abordadas em profundidade na reportagem de capa desta edição. E, como você verá, os dados não são sigilosos para todas as distribuidoras. Algumas conseguem acesso às informações por vias extraoficiais. Assim, qualquer que seja o interesse da estatal, ou do governo, em manter o sigilo, ele não apenas não está funcionando como ainda contribui para promover um desequilíbrio no livre mercado.

O dendê é o outro tema em destaque na revista. Apesar de o Brasil possuir uma enorme área propícia para o plantio, a produção nacional da planta sempre foi insignificante. O mercado firme e desenvolvido do óleo mais consumido do mundo não foi suficiente para atrair o interesse dos empresários nacionais. Até agora. Estamos vendo neste momento uma verdadeira corrida ao Pará em busca de terras e à Costa Rica em busca de mudas.

A explicação para o repentino interesse no dendê em terras nacionais pode estar em dois fatores primordiais. O principal é o lançamento do Programa de Produção Sustentável de Palma de Óleo, que criou um conjunto de regras e facilidades para o desenvolvimento da planta.

O segundo é o próprio biodiesel, que vem na esteira desse programa, com a Vale e a Petrobras liderando as iniciativas. Em um primeiro momento as usinas não devem se beneficiar do óleo de palma, mas como a planta exige intensa mão de obra, o setor produtivo parece ter encontrado uma segunda oleaginosa economicamente viável para sustentar o selo Combustível Social, uma vez que os já estabelecidos agricultores familiares da soja estão ficando cada vez mais difíceis de encontrar.


Julio Cesar Vedana
Diretor de Redação