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Matéria-prima: Um oceano de palma


Edição de Fev / Mar de 2011 - 06 abr 2009 - 17:01 - Última atualização em: 19 jan 2012 - 10:58
Fábio Rodrigues, de São Paulo

Que a dependência em relação ao óleo de soja é o calcanhar de Aquiles do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB) não é novidade. A soja pode até ter uma porção de qualidades, mas seu teor de óleo baixo – em torno de 18% – faz dela uma candidata pouco provável para servir de lastro a um programa que usa óleo vegetal de forma intensiva. Desde o lançamento do programa, todo mundo sabia que seria preciso investir em uma ou mais oleaginosas que dessem conta do aumento de demanda puxado pelo biodiesel.

Acontece que o desenho do PNPB vinha recheado de exigências difíceis de conciliar. Além de atender às nada modestas expectativas de produtividade, a candidata ideal também deveria se dar bem nas condições climáticas das regiões menos desenvolvidas do país – leia-se Norte e Nordeste –, ser adequada ao cultivo pela agricultura familiar e se equilibrar sobre uma corda bamba que tinha, de um lado, um bom patamar de geração de renda para os pequenos produtores e, do outro, a viabilidade econômica do biodiesel.


Palmas para a palma

Apesar de um flerte inicial com a mamona, na verdade o dendê ou palma de óleo sempre foi a concorrente mais cotada. Perfeitamente adaptado às condições climáticas da Região Norte, o dendê não possui um teor de óleo que chegue a impressionar (modestos 20%), mas mais do que compensa essa fraqueza com uma produtividade elevadíssima– algo entre 15 e 25 toneladas de cachos por hectare. No fim das contas, isso dá seis toneladas de óleo por hectare, fazendo da palma a única capaz de atender, de cara, a meta de cinco toneladas por hectare do Plano Nacional de Agroenergia. Some a isso um balanço energético para lá de favorável – a palma produz 5,63 unidades de energia para cada unidade investida, contra pífios 1,43 da soja – e teremos uma excelente opção para a fabricação de biodiesel.

Os números são tão favoráveis que empresas que conquistaram fatias confortáveis em mercados mais ao sul do país têm mostrado disposição de ir investir um bom dinheiro em rincões dos Estados amazônicos – especialmente no Pará e em Roraima. É o caso, por exemplo, da Oleoplan. Dona de uma usina com capacidade para 378 milhões de litros de biodiesel no Rio Grande do Sul e de outra do mesmo tamanho em projeto no Paraná, a empresa é um dos maiores players do segmento de biodiesel e está tocando um projeto de palma no município de Rorainópolis (RR).

De acordo com o diretor-presidente da companhia, Irineu Boff, serão 5 mil hectares próprios que devem receber um reforço de, pelo menos, mais 5 mil hectares de parceiros da agricultura familiar, uma unidade de extração de óleo para 60 mil toneladas ao ano e uma usina de biodiesel de 100 milhões de litros. A previsão é começar a produzir em 2014. “A decisão de investir em palma foi tomada há três anos. A Oleoplan queria expandir suas atividades na área de energias renováveis e a palma era um campo do qual não poderíamos ficar de fora”, resume o empresário, confessando ainda não ter certeza se o óleo será vendido in natura ou efetivamente transformado em biodiesel. “Como o mercado de commodities varia, vamos tomar essa decisão só quando soubermos que mercado paga melhor. Mas a atividade essencial é a extração de óleo, o biodiesel é complementar”, define.


O risco da palma

A declaração salienta um ponto importante para explicar o entusiasmo em relação à palma. O óleo de palma não depende do biodiesel para ser um baita negócio. Entre 1998 e 2009, a demanda global disparou de 17 para 45 milhões de toneladas, o bastante para colocá-lo no topo do ranking dos óleos vegetais. Isso já dá uma margem de segurança bem maior para quem esteja disposto a colocar dinheiro nesse mercado.

Segurança é importante; afinal, colocar um projeto desses para funcionar exige investimentos elevados e uma boa dose de paciência para esperar os três ou quatro anos que o dendezeiro precisa para começar a produzir – o ápice produtivo da planta chega aos sete anos –, o que implica suportar custos por um bom tempo antes de ver os primeiros resultados financeiros positivos. A boa notícia é que a vida útil da palma é de 25 anos. Para dar um parâmetro do preço pago para botar uma plantação de dendê de pé, o Pronaf Eco, linha de crédito que o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) criou para agricultores familiares interessados nessa cultura, calcula essa conta em R$6.500 por hectare. Acontece que não para por aí. Como os frutos da palma estragam numa velocidade impressionante (eles precisam ser processados em até 24 horas depois de colhidos), é praticamente obrigatório desembolsar mais R$ 40 milhões para instalar uma unidade esmagadora nas proximidades da plantação. Tudo isso antes de começar a se pensar em biodiesel.

Em novembro passado, a tonelada de óleo de palma estava sendo negociada na Bolsa de Chicago por US$ 1.115 contra US$ 1.128 a do óleo de soja. Não é uma diferença que baste para encerrar a questão a favor da palma. Ainda mais se levarmos em conta que a palma traria alguns custos ocultos. A começar pelo nó logístico que seria preciso desatar antes do biodiesel fabricado no Norte do Brasil chegar aos grandes mercados consumidores concentrados no Sul e no Sudeste. Então, o mais provável é que a maior parte desse óleo acabe sendo encaminhado para mercados capazes de absorver melhor esse custo do que a indústria do biodiesel, pelo menos em um primeiro momento.