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Palma de Óleo


BiodieselBR.com - 29 jun 2010 - 07:30 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 10:23
Rosiane Correia de Freitas, de Curitiba

Dendê, acarajé, vatapá são ícones tão baianos quanto Jorge Amado. Mas quem vê toda essa rica tradição gastronômica e cultural talvez não saiba que hoje o Brasil importa quase dois terços do óleo de palma (ou azeite de dendê) consumido no país. A produção local é apenas a nona do mundo, com 105 mil hectares plantados, segundo dados de 2008 do IBGE. Mas, se importamos dendê, como vamos usar esse óleo na produção de biodiesel?

Pois foi justamente para resolver esse problema que o governo federal lançou o Programa de Produção Sustentável de Palma no Brasil. A meta, ambiciosa, é chegar a 10 milhões de hectares plantados – 130 mil hectares até 2014 – e alçar o país à condição de principal produtor mundial de óleo de palma, ultrapassando os atuais líderes, Tailândia e Indonésia, responsáveis hoje por 90% da produção mundial. A estratégia é estimular o plantio em áreas degradadas da floresta amazônica – um plano que lá tem seus detratores. A entidade ambiental Greenpeace já levantou dúvidas sobre o interesse do país em produzir dendê e diz que a planta teve impacto negativo nas florestas de outros países.

Apesar das críticas, o governo está seguro e quer expandir rapidamente o cultivo no Norte e Nordeste, e para isso acena com crédito para os agricultores. Produtores dessas duas regiões terão acesso a linhas de crédito com juros de 2% a 6,75% ao ano para implantar a cultura em suas propriedades. Produtores rurais que não se enquadram no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) também serão contemplados.

E nem só de biodiesel viverá o óleo de palma. O programa quer tornar o Brasil capaz de produzir dendê suficiente para abastecer a indústria do biodiesel, mas também garantir óleo para a indústria alimentícia e – por que não? – para as baianas que vendem acarajé e tradição nas ruas de Salvador.

Depois do fracasso da mamona – primeira oleaginosa alçada à condição de baluarte do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel – o governo federal não quer se arriscar a colher outro fracasso. Já de saída, o Programa Nacional de Óleo de Palma prevê a participação de 900 agricultores familiares e de 300 médios e grandes produtores. A principal diferença entre os incentivos concedidos à mamona e o programa do dendê é que este último contará com a presença forte e os incentivos da Petrobras Biocombustíveis (PBio). Boa parte do óleo que será produzido no Norte e Nordeste do país já tem destino certo: as usinas da estatal.

Além de ter comprador garantido, os agricultores que arriscarem plantar palma dentro do programa federal e com contrato com a PBio terão direito a salário enquanto aguardam a hora da colheita. “Até eu vou querer plantar palma”, brincou o presidente Lula ao saber dos incentivos garantidos pela PBio aos produtores. “Boto a mudinha lá, jogo uma uréia e ainda recebo salário”, falou Lula no lançamento do programa, em Tomé Açú, no Pará.

Em comparação com a soja – que hoje domina a produção de biodiesel no Brasil – o dendê tem suas vantagens. Em média, a cotação do óleo é 10% mais barata que a do de soja. A produtividade por hectare plantado também favorece a palma. Segundo o ministro da Agricultura, Wagner Rossi, a palma produz dez vezes mais óleo do que a soja na mesma área, sendo possível produzir cinco toneladas de óleo por hectare a cada ano.

Mas nem só a agricultura familiar e as usinas estão envolvidas no programa. A assistência técnica e o investimento em pesquisa – outro ponto fraco do programa da mamona – devem receber R$ 60 milhões para ações em cinco eixos: melhoramento genético e obtenção de novos cultivares, ampliação e modernização da produção de sementes e mudas, facilidades para produção de plantas matrizes, ampliação da oferta de sementes e parcerias internacionais com institutos de óleo de palma.

A palma também ganhou uma Câmara Setorial, um espaço para que representantes do governo, dos agricultores, dos pesquisadores e dos empresários possam discutir as dificuldades que encontrarem pelo caminho. A esperança é que esse instrumento permita ação rápida na correção de eventuais desvios de percurso.
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