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Processos de produção: batelada ou contínuo?


BiodieselBR.com - 05 jun 2010 - 09:40 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 10:33
Murilo Alves Pereira, de Curitiba

Existem hoje 64 usinas de biodiesel autorizadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) a operar no Brasil. São pequenas e grandes empresas processando as mais diversas matérias-primas e formando um mercado bastante heterogêneo. Em pesquisa conduzida pela BiodieselBR, 57 usinas informaram qual processo utilizam: 55% (31 unidades) operam pelo processo contínuo e 45% processam o biodiesel por batelada. Os nomes dos processos são auto-explicativos. Em linhas gerais, diferenciam-se pela maneira como ocorre o processamento: se continuamente ou em bateladas (lotes). Mas qual sistema escolher?

Segundo o químico Bill Costa, gerente da divisão de biocombustíveis do Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), a diferença fundamental entre os dois processos é a escala de produção. Para produzir de modo contínuo, são necessários um grande investimento em automação e a garantia de uma quantidade considerável de matéria- prima para não interromper o processamento. Já o processo por batelada é bem mais flexível, podendo- se fazer uma nova mistura a cada batelada, mas a produção é mais reduzida.

Com uma pequena planta piloto, o Tecpar produz 800 litros de biodiesel por dia, um valor irrisório em termos de mercado. “Nosso objetivo é pesquisa e desenvolvimento. Não produzimos comercialmente”, afirma Costa. Uma das frentes do Tecpar é avaliar o desempenho das diferentes matérias- primas e as suas variáveis, otimizando assim a produção. O instituto busca matérias-primas alternativas à soja, devido ao aumento do custo de cultivo, e foca naquelas não voltadas à alimentação humana, como nabo forrageiro, pinhão-manso, crambe e tungue, entre outras. O biodiesel produzido pelo Tecpar é consumido localmente, no maquinário agrícola de pequenos produtores rurais.

O caso do Tecpar talvez seja útil neste exercício de diferenciação dos processos contínuo e por batelada porque destaca uma das principais características deste último: a produção em pequena escala. Embora existam grandes usinas produzindo por batelada, como as unidades da Brasil Ecodiesel, por exemplo, a regra é outra. A produção por batelada acaba abrangendo pequenas plantas ou a produção voltada para pesquisa.

Costa explica que no processo por batelada todas as reações se resumem ao mesmo reator. São colocados o óleo extraído da matériaprima, o álcool e o catalisador e, das reações químicas que ocorrem, forma-se o éster (biodiesel) e a glicerina. Produtos e co-produtos são então extraídos e purificados, e o processo é interrompido até que seja feita uma nova batelada. Cada batelada pode durar de 8 a 10 horas, sendo possível, portanto, realizar de duas a três operações por dia.

De acordo com o químico Evandro Luiz Dall’Oglio, professor da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), para escolher entre esse sistema ou o processo contínuo é preciso fazer uma relação de custo-benefício. “Uma produção abaixo de 60 mil litros/ dia não justifica o investimento inicial no método contínuo”, considera. É o caso da usina Bio Óleo, de Cuiabá (MT), que tem autorização da ANP para produzir 10 mil litros por dia.

Segundo Rodrigo Prosdócimo Guerra, sócio-proprietário da Bio Óleo, a usina começou a operar inicialmente com um reator, com produção de 5 mil litros por batelada. Com um investimento adicional de R$ 1,5 milhão, a usina agora está pronta para trabalhar com até seis reatores, tornando possível uma futura mudança para o método contínuo. “Precisaríamos investir mais R$ 2,5 milhões para transformar de batelada a contínuo e aumentar a produção”, sugeriu.

Um terceiro caso que justifica o método por batelada, além da pesquisa científica e a produção em pequena escala, é a diversificação dos cultivos agrícolas, uma vez que a produção por este método permite usar um óleo vegetal diferente a cada batelada. A princípio, a Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra) nada tem a ver com a produção de biodiesel. Mas uma parceria com a Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), voltada aos municípios do Vale do Rio Pardo (região central do Rio Grande do Sul), permitiu à associação incluir a produção de energia na pauta de cultivo dos agricultores.

A intenção foi buscar alternativas viáveis à produção do fumo, cultura cada vez mais combatida pelas campanhas contra o tabaco. “Não queremos parar com a produção de tabaco; isso é inviável. Mas buscamos cultivos alternativos para os agricultores”, disse o engenheiro agrônomo Marcos Dorneles, gerente do setor agropecuário da Afubra. Há dois anos os produtores da associação cultivam o girassol para produzir o biodiesel e aproveitar seus co-produtos. São meros 50 litros diários, processados em uma unidade piloto na Unisc. “A produção atende de um a dois produtores por dia, é uma escala familiar”, explicou a química Rosana Schneider, coordenadora do projeto Biodiesel do Girassol, da Unisc. “Utilizamos a matériaprima e devolvemos o biodiesel”.