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Macaúba: produtividade, potencial e investimentos


BiodieselBR.com - 19 fev 2007 - 11:10 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 10:55
Produtividade
Apaixonado pela macaúba, o professor Sérgio Motoike, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), no interior de Minas Gerais, diz que a espécie não é apenas uma boa alternativa para o biodiesel brasileiro. É praticamente a única. “Eu sinceramente não vejo outra opção para um biodiesel sustentável no Brasil. Fazendo as contas, colocando os custos, os aspectos ambientais, a conclusão é que a macaúba é a que tem o melhor custo-benefício”, afirma.

De acordo com o professor, uma das grandes vantagens da macaúba é que nela nada se desperdiça. E os subprodutos que podem ser obtidos ajudam a compensar os custos iniciais do cultivo. “Uma parte muito importante é a torta que se obtém e que, ao contrário do que ocorre em muitas outras espécies, não é tóxica. Pode ser usada perfeitamente na alimentação animal e até mesmo na alimentação humana”, explica ele.

Entre os outros subprodutos está o óleo da polpa, que pode ser vendido a preço alto (R$ 23 o litro) para a indústria de cosméticos. Isso, no entanto, não cria nenhum problema de preço para o óleo usado no combustível, já que esse é extraído de outra parte do fruto, da amêndoa. Hoje o custo é calculado em R$ 4 por litro (com a ressalva de ainda não existir um mercado e uma cadeia produtiva formada). A parte dura da macaúba, conhecida como endocarpo, também pode ser usada para a fabricação de filtros, como hoje acontece com o babaçu. E, ao fim do processo, o bagaço pode ser vendido como biomassa.

Mas o que mais anima Motoike é a capacidade de produção em terras brasileiras. “Os números são compatíveis com um poço de petróleo. Temos 180 milhões de hectares de pastagens no país. Se se colocar 10% dessas áreas para produzir macaúba, o país vai ter uma produção de óleo compatível com o campo de Tupi”, diz ele, referindo-se ao imenso reservatório de óleo descoberto na camada pré-sal do mar brasileiro pela Petrobras.

Nos últimos anos, Motoike vem se dedicando a resolver aquele que se apresentou como o principal problema da planta em seu estado original: a baixa germinação das sementes. “Normalmente, só germinam cerca de 3% de todas as sementes da macaúba. Mas conseguimos desenvolver uma tecnologia na universidade que aumentou isso para 40% a 50% e o problema está praticamente resolvido”, afirma.

Social e ambientalmente correta
Um dos problemas que a macaúba também pode ajudar a resolver é a melhoria dos índices sociais do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB). Desde o começo do programa, o governo federal declarou que uma de suas intenções ao desenvolver os combustíveis renováveis era fazer com que pequenos produtores pudessem ganhar dinheiro com o negócio. No entanto, como o biodiesel vem sendo feito principalmente a partir de soja, plantada quase com exclusividade em grandes fazendas, os agricultores familiares ainda não ocuparam o lugar que lhe era devido.

Com a macaúba, isso pode ser revertido. E, na verdade, a Petrobras já vem usando a colheita da planta para ajudar a integrar pessoas de baixa renda na produção de agroenergia. No fim de 2009, por exemplo, a estatal convocou pessoas de 83 municípios de Minas Gerais para participar do negócio do biodiesel. Estimulou a plantação de matérias-primas como mamona, girassol e até mesmo a soja. Mas também orientou os produtores a colher a macaúba em seus maciços naturais e informou que a unidade de Montes Claros está comprando o material a R$ 0,25 o quilo. Também declarou que logo as outras usinas do país poderão passar a comprar macaúba.

No lado ambiental, a planta também poderia se tornar uma grande seqüestradora de carbono em território nacional. “A macaúba praticamente consegue neutralizar a produção de dióxido de carbono”, informa Motoike. Segundo os cálculos do professor, cada planta pode absorver por ano 19 quilos do gás, que é um dos principais causadores do efeito estufa. “Com 400 plantas, você neutraliza 8 mil quilos de dióxido de carbono”, afirma.

Aposta
Até agora, por irônico que pareça, a única empresa privada que vem apostando comercialmente no uso dessa planta tipicamente brasileira para a produção de biodiesel é... espanhola. No interior de Minas Gerais está a primeira tentativa de plantação de macaúba para extração de óleo. E o empreendimento é tocado pela Entaban, uma das maiores produtoras de biodiesel da Europa, que agora vem se aproximando do mercado sul-americano.

“Eles já vêm tentando fazer negócios na Guatemala, na Argentina e em outros países da região”, explica Orlando Arruda, empresário mineiro da região de Lima Duarte que virou sócio da Entaban em território brasileiro. “Quando eles vieram para cá, descobriram a possibilidade da macaúba e decidiram apostar”, conta o fazendeiro, que hoje está plantando em suas terras as sementes da cultura que, em cinco anos, pode se transformar em uma revolução para o biodiesel brasileiro.

As sementes, aliás, foram compradas da variedade desenvolvida pelo professor Motoike, com maior índice de germinação, o que deve tornar a fazenda independente da compra de novas sementes no futuro.

A idéia é fazer uma usina piloto nas terras de Arruda para testar o biodiesel oriundo da macaúba. O investimento pesado em maquinário virá mais para frente, quando as árvores que estão sendo plantadas nessa estação de chuvas, que vai até abril, estiverem prontas para darem os primeiros frutos. “Estamos plantando, neste ano e no outro, cerca de 1,5 milhão de árvores. E em 2015 elas estarão prontas para produzir”, diz Arruda.

Ele não está otimista sem motivos. Se tudo for como os pesquisadores esperam, o produtor estará em breve na ponta de um negócio que vale ouro. Poderá concorrer com a soja e passar a abastecer parte da frota nacional, antes de qualquer outra empresa privada, com o combustível do futuro: o biodiesel de macaúba.
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