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Congresso da RBTB: corrida tecnológica


BiodieselBR.com - 01 fev 2010 - 15:12 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 11:02
Congresso da Rede Brasileira de Tecnologia em Biodiesel, vitrine para instituições e pesquisadores, mostrou os esforços da comunidade acadêmica para solucionar os velhos problemas da cadeia produtiva

Alice Duarte, de Curitiba

Poucos segmentos da economia são tão dependentes de pesquisa e de tecnologia como o biodiesel. Há vários gargalos técnicos do setor produtivo que se não forem profundamente investigados e solucionados podem ser um entrave para o desenvolvimento sustentável desse mercado. Por esse motivo, especialistas, estudantes, governo e empresários voltaram suas atenções no início de novembro para o terceiro Congresso da Rede Brasileira de Tecnologia de Biodiesel (RBTB), principal fórum de discussão das ações de pesquisa, desenvolvimento e inovação na cadeia de produção e uso de biodiesel.

Se olharmos para as fotos do primeiro e do segundo congresso, realizados em 2006 e 2007, fica evidente o tamanho do crescimento, da importância e da mobilização que a RBTB conseguiu em 2009. O número de trabalhos técnicos apresentados vem dobrando a cada edição. Foram 485 neste congresso, contra 265 no segundo e 126 no primeiro. Este ano o evento teve a presença de cerca de 800 pessoas, e outras 1.350 assistiram a transmissão ao vivo realizada pelo site BiodieselBR.com. Um total de 15 palestras abordou toda a linha temática de pesquisas da rede: matéria-prima, produção, armazenamento, caracterização e controle da qualidade, co-produtos, sustentabilidade e uso do combustível.

Com tamanha mobilização, a RBTB superou os problemas internos do passado, que levaram à pouca coordenação em 2007. “De todas as redes de tecnologia que eu vi e de que participei, a de biodiesel é a melhor e a maior”, disse Nelson Roberto Antoniosi Filho, coordenador da RBTB na área de Caracterização e Controle de Qualidade do Biodiesel.

Para o ano que vem, já está tudo planejado. Os coordenadores já confirmaram que a próxima edição do congresso será em Belo Horizonte, no mês de setembro. A novidade será a realização conjunta com o Congresso Brasileiro de Plantas Oleaginosas, Óleos, Gorduras e Biodiesel – um reforço de peso para o evento.

Multidisciplinar
Como diz o slogan, o biodiesel é um combustível que se planta. Do momento em que a semente é colocada na terra até a combustão do combustível verde nos motores, há muitos técnicos envolvidos e também muita demanda por pesquisas. Esta é uma cadeia multidisciplinar, que envolve conhecimentos nas áreas de engenharia química, agronomia, engenharia mecânica, sociologia, biologia, entre outras. Se os profissionais dessas áreas trabalhassem desarticuladamente, o efeito seria o mesmo de um carro cujas rodas giram em ritmos e sentidos diferentes: ninguém sairia do lugar. Unir toda a comunidade científica brasileira e as várias instituições de pesquisa que se dedicam ao estudo da cadeia produtiva do biodiesel é a missão da RBTB – mão do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) responsável pelo desenvolvimento tecnológico do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB). A RBTB também tem a função de evitar a duplicidade de projetos e a falta de compartilhamento dos resultados, além de fazer com que o uso das verbas públicas destinadas à pesquisa seja mais eficiente.

Numa busca na Plataforma Lattes – base de dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) – é possível constatar que hoje no Brasil existem quase 6 mil pesquisadores atuando na área de biodiesel. Desses, 40% são doutores, o que traz alto nível de qualificação para esses estudos. A maior parte das pesquisas destina-se ao controle de qualidade, que soma 2.290 trabalhos. Dentro das pesquisas selecionadas para o congresso, o tema representou 17%.

“Existe também um esforço muito significativo nas pesquisas sobre co-produtos e glicerina”, disse Luiz Pereira Ramos, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Em 2009, em todo país, foram 135 trabalhos técnicos só sobre a glicerina, hoje o maior resíduo da produção de biodiesel.

De acordo com Pedro Castro Neto, professor da Universidade Federal de Lavras (Ufla) e também coordenador da RBTB na área de produção de matérias-primas, existe ainda muita necessidade de pesquisas para viabilizar a produção de matérias-primas em larga escala e a preço competitivo. Há também, segundo ele, muito que se pesquisar para melhorar a eficiência energética do biodiesel e a integração de processos, visando a sustentabilidade da produção. Outro aspecto importante destacado por Neto é a articulação com o setor industrial e a integração com outros países.

Ciclo de conhecimento
Segundo Ronaldo Mota, secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do MCT, o consumo de combustível crescerá 50% até 2030. “A humanidade está perante um novo desafio: como atender essa demanda e fazê-la sustentável? O Brasil tem uma das mais limpas matrizes energéticas do mundo. Queremos torná-la ainda melhor e chegar em 2030 com 18,5% de combustíveis renováveis”, disse na abertura do evento.

Evidente que isso demanda muito investimento público e privado em pesquisas. Programas de energia como o PNPB e o Proálcool só se consolidam com os esforços da sociedade, dos agentes e do governo.

O desafio é justamente criar um ciclo de produção de conhecimento e estabelecer uma ponte entre universidades e o setor produtivo para que o conhecimento vire prática. “Os exemplos que nós temos são de que, infelizmente, essa transferência de conhecimento não é direta nem imediata. Mas é um passo positivo, já que estamos produzindo e patenteando conhecimento”, destacou Mota.

Comparado com outros países mais avançados, ainda é tímido o repasse de recursos privados em projetos de pesquisas tecnológicas através de parcerias entre universidade e empresas. “Mas, em valores relativos, comparando o Brasil com ele mesmo, essa associação tem crescido ano a ano”, disse Mota. A Petrobras é a empresa que mais tem investido recursos em parceiras com universidades e centros de pesquisa brasileiros. Nos últimos três anos, a estatal destinou R$ 1,8 bilhão em projetos de inovação tecnológica na área de energia (maior parte em petróleo) por meio do projeto Redes Temáticas, financiado por uma fatia dos royalties do petróleo. Já os recursos do governo para pesquisas do Programa de Desenvolvimento Tecnológico do Biodiesel somaram R$ 40 milhões em ações transversais no biênio 2008/2009.

Com os investimentos necessários e uma parceria adequada entre governo, instituições de tecnologia e o setor produtivo, os maiores gargalos serão pouco a pouco eliminados do processo. O futuro e a sustentabilidade do biodiesel dependem disso.
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