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Óleo de cozinha: A alternativa ignorada


BiodieselBR.com - 21 jan 2010 - 16:00 - Última atualização em: 19 dez 2011 - 17:23
Óleo de cozinha pode garantir o B4 sem precisar da soja, mas ao invés de dar lucro o resíduo gera apenas prejuízos ambientais

Alice Duarte, de Curitiba

Enquanto pesquisadores, agentes públicos e investidores quebram a cabeça para viabilizar a produção de oleaginosas capazes de diminuir a dependência que a indústria de biodiesel tem da soja, bem debaixo de nossos narizes bilhões de litros de uma matéria-prima viável (e barata) são jogados pelo ralo. De acordo com o Instituto PNBE de Desenvolvimento Social, o Brasil tem uma produção anual ao redor de 1,2 milhões de toneladas de óleos e gorduras residuais (OGRs) – o popular óleo de fritura. O número é baseado no resíduo do consumo interno do produto e seria suficiente para atender toda a demanda do B4, sem a necessidade de se recorrer a outros insumos, como soja, sebo e algodão.

A maior parte desses resíduos (60%), o equivalente a 720 mil toneladas ou 818 milhões de litros, é de origem domiciliar. O restante vem de bares, restaurantes e lanchonetes, totalizando cerca de 530 milhões de litros ao ano.

A competitividade dos OGRs como insumo para o biodiesel depende, principalmente, da estruturação da logística de coleta, guarda, transporte até o local primário de recepção e transportes e armazenamentos sucessivos até que o produto chegue às unidades de produção do biocombustível. O grande gargalo para o aproveitamento comercial desse resíduo tem sido a coleta domiciliar, cuja oferta é altamente pulverizada.

Fazer girar a roda da reciclagem geraria dinheiro de ponta a ponta: dos catadores às indústrias, sem falar na economia para as companhias de saneamento e dos benefícios ao meio ambiente. Enquanto o governo federal não cria mecanismos para viabilizar esse movimento em âmbito nacional, entidades sociais e organizações (com ou sem o apoio de governos municipais) estão desenvolvendo uma rede logística reversa. Em São Paulo e Região Metropolitana, o Programa Bióleo, desenvolvido pelo Instituto PNBE, está integrando múltiplos projetos de coleta domiciliar e empresarial do produto para servir de matériaprima para as usinas de biodiesel.

O programa vem buscando informar e mobilizar a população local para o descarte correto do óleo de cozinha residual em pontos estratégicos de recepção. “Além de gerar renda para os catadores, queremos dar condições para as entidades sociais participantes financiarem seus projetos”, diz Teodora Tavares, gerente do programa.

O litro tem sido vendido por cerca de 40 centavos e, por enquanto, o único comprador tem sido a Bioauto, de Diadema (SP). Mesmo contando os gastos das usinas com o pré-tratamento desses óleos, o valor é bem atrativo se comparado ao litro de óleo de soja bruto degomado, cotado hoje a R$ 1,74 o litro.

Desde 2007 o governo federal estuda estimular o reuso desta matéria-prima através de um programa de âmbito nacional com foco nas regiões metropolitanas. No entanto, a iniciativa já emperrou várias vezes e segue caminhando lentamente, com risco de ir para o mesmo lugar do óleo de cozinha usado: o ralo.