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Química: por dentro da matéria-prima do biodiesel


BiodieselBR.com - 17 nov 2009 - 17:10 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 11:25
Índice de saponificação, acidez, teor de iodo, quantidade de insaponificáveis... Quais são as características mais desejáveis em um óleo ou gordura usado para fazer biodiesel? Saiba como escolher e o que deve ser feito com todas as opções disponíveis no mercado

Rosiane Correia de Freitas, de Curitiba

Soja, sebo, algodão, pinhãomanso, óleo reciclado. Esse é apenas o começo de uma longa lista de óleos e gorduras disponíveis no Brasil e que, em teoria, podem servir de base para a produção de biodiesel. No entanto, cada um é diferente em suas características básicas. O que um tem de positivo, torna-se problema no outro. E tirando logicamente a questão de disponibilidade e escala, a grande dúvida que surge na cabeça do produtor, especialmente no momento de iniciar seu negócio, é qual a matéria-prima que traz os melhores resultados e como fazer essa escolha.

Diante de centenas de dados sobre a composição e as características dos óleos e gorduras vegetais e animais, fica difícil saber, até mesmo para um especialista, em que prestar atenção. Que índice terá maior impacto na qualidade do produto final ou nos custos da produção? Para João Francisco Pedroso, engenheiro químico da SPBio Biodiesel, a análise do produtor deve se concentrar em quatro índices principais: índice de saponificação, índice de iodo, título (ponto de fusão dos ácidos graxos presentes no óleo), e teor de insaponificáveis (componentes que estão no óleo, mas que não viram sabão nem formam éster). “São características que já permitem uma análise ampla do que se pode esperar do óleo e do biodiesel”, afirma.

No entanto, mesmo com o número de dados reduzido a quatro indicadores, a escolha da matériaprima ideal para produção de biodiesel não é fácil. Trata-se de uma equação em que se pondera a viabilidade econômica, a disponibilidade do óleo ou gordura e a qualidade do produto final. “Primeiro, pela questão econômica, a gente procura trabalhar com oleaginosas que apresentem maior quantidade de óleo extraída da semente, que já sejam bem conhecidas e que também tenham grande produtividade”, diz Nicole Marques Hoff, engenheira química e professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

A análise é complexa. Uma oleaginosa com alto índice de extração de óleo garante, por conseqüência, maior produção de biodiesel no final da cadeia. No entanto, além de ser produtiva, a matéria-prima também precisa estar disponível, o que garante estabilidade na entrega e nos preços. Uma cadeia produtiva consolidada assegura à usina um produto de qualidade estável, com garantia de entrega e sem surpresas na hora de pagar a conta.

É por isso que a soja ainda reina absoluta na produção do biodiesel no Brasil. Ela está em todo lugar, muito embora suas características não sejam o que se possa chamar de ideais. Pesam contra ela basicamente dois problemas: tem baixa produção de óleo por hectare e alto índice de iodo. Comparada com o dendê e com o girassol, nesses dois pontos a soja é um competidor peso pena entre gigantes. Sua produção de óleo por hectare fica em torno de 450 quilos, enquanto o girassol chega a 680 quilos em média e o dendê atinge impressionantes 5 mil quilos por hectare.

A soja também recebe o alerta vermelho no quesito índice de iodo. O óleo apresenta de 120 a 140 miligramas de iodo a cada 100 gramas, um valor bastante acima do registrado em outras matérias-primas, como o sebo bovino, que tem entre 36 e 48 mg de iodo por 100 g. “O índice de iodo está relacionado à estabilidade e à oxidação do biodiesel, que, por sua vez, também pode sofrer forte influência do processo de produção, tanto dos óleos quanto do biodiesel”, explica o engenheiro químico da Biobrax, Anderson Kurunczi Domingos.