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Craqueamento: UNB, Embrapa e Amazônia


BiodieselBR.com - 25 nov 2007 - 13:55 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 11:17
UnB
Uma das pesquisas mais avançadas sobre o craqueamento de óleos orgânicos no Brasil se encontra no Distrito Federal. Mais propriamente dentro da Universidade de Brasília (UnB). Lá, uma das questões centrais que ocupam a cabeça dos técnicos envolvidos no processo é o balanço energético resultante do craqueamento. Traduzindo: eles querem saber qual é a proporção de energia que precisam aplicar em relação à quantidade de energia que vão conseguir gerar ao final da reação. Até o momento, o balanço é de três para um: ou seja, a cada unidade de energia utilizada, geram-se três unidades de energia combustível.

“Estamos conseguindo converter entre 60% e 70% do óleo usado em combustível”, afirma o professor Paulo Suarez, um dos coordenadores do trabalho dentro da UnB. Uma das vantagens que o pesquisador vê no craqueamento de óleos e gorduras de origem vegetal ou animal em relação ao concorrente de origem fóssil é a temperatura necessária para conseguir o fracionamento do material. No caso dos produtos orgânicos, o aquecimento varia entre 350ºC e 430ºC, dependendo do óleo usado. Muito menos que os 500ºC mínimos exigidos pelo petróleo. E a menor necessidade de calor acaba barateando o processo.

Outro ponto positivo do craqueamento de óleos orgânicos é a versatilidade. Além de ser possível usar materiais de diversas origens, Suarez conta que não é preciso usar óleo de primeira qualidade para obter bons resultados. “Conseguimos produzir diesel a partir de óleo de frango, por exemplo, com todas as impurezas, sem fazer nenhum tipo de tratamento. Isso não seria possível na transesterificação”, explica o professor.

Esse também é um fator de barateamento do processo. Apesar disso, os técnicos da UnB ainda não têm uma análise econômica da produção desse tipo de diesel renovável. Uma das apostas até o momento é que no mínimo o craqueamento servirá como um processo complementar para a produção de biodiesel tradicional nos próximos anos. O óleo que não for bom o suficiente para ser usado na transesterificação pode ser encaminhado para esse outro processo e uma técnica se soma à outra para obter mais combustível.

O principal problema enfrentado, segundo Suarez, ainda é a escassez de recursos destinados a esse tipo de pesquisa. O trabalho da UnB tem seus apoiadores, como o Ministério da Ciência e Tecnologia, a Fundação Banco do Brasil e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Mesmo assim, não é suficiente – 80% da verba existente ainda vai para a melhoria do processo de transesterificação e a velocidade da pesquisa sobre o craqueamento fica um pouco comprometida, o que afasta alguns pesquisadores.

Embrapa
Também em Brasília, a Embrapa Agroenergia toca uma pesquisa semelhante, que inclusive tem parceria com a UnB. Mas nesse caso os resultados têm sido bem menos animadores. “Nos testes que realizamos até o momento, o processo não mostrou estabilidade ao longo do tempo”, afirma José Dilcio Rocha, pesquisador responsável pelo projeto. “A reação produz um resíduo sólido dentro do reator e quando produz alguma fração de combustível a acidez é muito alta. Ao invés de produzir hidrocarboneto de cadeia longa, está produzindo ácido”, diz ele.

Isso não quer dizer que a pesquisa tenha ido por água abaixo. Novas linhas estão sendo tentadas. “Uma das alternativas que temos é utilizar um catalisador com o objetivo de baixar a acidez do produto em um processo térmico e catalítico”, explica Rocha. Segundo ele, quando a reação é meramente térmica, sem o uso do catalisador, o produto não tem sido de qualidade. “A última avaliação do processo foi muito ruim”. Para o pesquisador, a produção de diesel por craqueamento é possível, mas para que sua implantação em escala industrial seja viável ainda falta desenvolvimento de tecnologia.

“Há alguns anos se falava em craqueamento para produção em pequena escala. Não funciona dessa forma. Não é um processo tão simples para que os pequenos produtores possam utilizar. O primeiro passo seria organizar em cooperativa para que o volume de produção viabilizasse o projeto”, opina.

Amazônia
Enquanto isso, no norte do país, pesquisadores têm um incentivo extra para apostar suas fichas na melhoria do processo de obtenção de diesel via craqueamento. “A logística de produção de biodiesel pela transesterificação é pouco viável na Amazônia porque seria preciso transportar o álcool, o que complica o processo”, afirma o pesquisador José Roberto Zamian. Por isso o projeto que está sendo tocado dentro da Universidade Federal do Pará (UFPA), com participação do Instituto Militar de Engenharia (IME) e apoio da Eletrobrás, é particularmente importante.

Os técnicos vão utilizar óleo de palma, facilmente obtido na região. O trabalho deles é amplo: vai desde a caracterização da matéria-prima e do processo, até a especificação do produto final e a realização de testes nos motores. Mas tudo está em fase embrionária ainda, visto que este é o primeiro ano do projeto. “O objetivo final é permitir a geração de energia elétrica com motores estacionários (geradores) na Amazônia”, afirma Zamian, que é um dos coordenadores do projeto. No momento, os pesquisadores estão fazendo testes em escala de bancada e a partir de agora vão partir para a produção piloto.

Zamian acredita que hoje o processo de obtenção de diesel vegetal por craqueamento não é competitivo com o petróleo. Ainda mais neste momento, em que o preço do barril caiu no mercado internacional – no ano passado, a situação era completamente diferente. “De qualquer forma a pesquisa tem de ser feita, porque um processo desses não se desenvolve comercialmente do dia para a noite”, ressalta.