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Matéria-prima: A entressafra da soja preocupa?


BiodieselBR.com - 02 set 2009 - 15:20 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 11:39
Com o recorde de exportações de soja no primeiro semestre do ano e as quebras de safra, agora o temor é que falte óleo para o mercado interno nos próximos meses

Marina Azaredo, de São Paulo

Com cerca de 80% de participação no volume total de biodiesel produzido no Brasil, a soja é de crucial importância para o setor. Justamente por isso, as oscilações do mercado desta commodity costumam ser acompanhadas com atenção por toda a cadeia produtiva. Com a entressafra se aproximando – período que vai de outubro até janeiro – aumenta a preocupação dos empresários. O cenário de 2009, para completar, ainda traz mais inquietação para o setor: com a quebra da safra da Argentina e as notícias de forte demanda por parte da China, o temor é de que falte óleo de soja no último trimestre do ano para as usinas de biodiesel, já que os estoques do grão ficarão em baixa. Mas essa previsão só poderá ser confirmada ou rechaçada em setembro, com a entrada da safra americana. Segundo especialistas, as condições climáticas nos Estados Unidos serão determinantes para definir o preço da soja e a quantidade de estoques finais no mercado interno.

“Tudo indica que a oferta será limitada e, conseqüentemente, a soja será mais disputada”, afirma Steve Cachia, analista de commodities da Cerealpar Corretora de Cereais. A oferta limitada se deve às quebras de safra na América do Sul causadas pela estiagem – Brasil, Argentina e Paraguai foram os países afetados – e ao ritmo crescente de compras da China. A seca na Argentina foi a pior em pelo menos 50 anos. A safra do país vizinho agora está estimada em 32 milhões de toneladas, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês). Em 2007/2008, foram produzidas 46,2 milhões de toneladas. No Brasil, a estimativa é que a redução seja de 3 milhões de toneladas em relação à safra anterior – caindo de 60 para 57 milhões de toneladas.

A crescente demanda da China por soja também contribui para as previsões de falta de óleo de soja para a produção de biodiesel. “A China tem comprado mensalmente volumes razoáveis de soja, principalmente dos Estados Unidos. Há algum tempo se fala que eles vão dar uma desacelerada, mas isso não ocorreu até agora. Os chineses continuam comendo muito bem”, analisa Fábio Trigueirinho, secretário-geral da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). Mas, segundo ele, apesar de a maior parte das importações chinesas ter procedência americana, o país asiático comprou 55% da soja exportada pelo Brasil até o mês de maio. “Pode ser que até o final do ano esse percentual caia, mas se permanecer nesse patamar, será uma alta considerável em relação ao ano passado, quando os chineses compraram 48% da soja exportada pelo Brasil”, diz.

As exportações brasileiras bateram níveis históricos no primeiro semestre do ano. De janeiro a junho, o Brasil exportou 19,2 milhões de toneladas (6,17 milhões apenas em junho), ou 76% dos cerca de 25 milhões que o país espera embarcar neste ano, com a forte demanda externa. Com uma produção de 57 milhões de toneladas e um consumo interno estimado em mais de 30 milhões, é fácil concluir que os estoques ficarão apertados.

Em maio, segundo a Abiove, os estoques de soja em grão ficaram em 13,6 milhões de toneladas, número bem menor do que os 18,4 milhões no mesmo período do ano passado (as estatísticas da entidade referem-se apenas aos estoques da indústria. Não são incluídos na conta os estoques que estão em poder de cerealistas, produtores rurais e outras tradings).

A previsão do USDA é que o estoque final da atual safra seja de apenas 1,81 milhão de toneladas. Já os números do governo brasileiro não são tão pessimistas, mas mostram uma forte redução em relação à safra anterior. Segundo estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o estoque final deve ficar em 2,45 milhões de toneladas, contra 4,54 milhões no ano anterior. “A reserva brasileira nunca é muito elevada, mas a situação parece que vai ser um pouquinho mais complicada neste ano”, analisa Cachia, da Cerealpar.

Outro fator a ser considerado é a recente alta da demanda no mercado interno por farelo e óleo de soja. Um recente relatório do USDA indicou que o Brasil foi o segundo país em que a demanda por farelo de soja mais cresceu, respondendo por 14% do aumento do consumo de farelo no mundo. De acordo com o órgão americano, isso se deve ao crescimento da economia brasileira e ao incremento das exportações de frango e carne suína. “Aumentando a demanda por carnes, naturalmente aumenta a demanda por ração. Nada compete com o farelo de soja em termos de proteína para ração animal”, afirma Mariano Marques, gerente de Oleaginosas e Produtos Pecuários da Conab. De acordo com ele, é preciso aguardar uma possível reação do mercado de carnes. “Como está havendo uma certa perspectiva de retomada, isso pode significar uma demanda maior por farelo, se tudo isso não for efeito especulativo”, explica.

O óleo e o farelo são produzidos a partir do mesmo processo: o esmagamento. Segundo os produtores, após o esmagamento cerca de 80% do grão vira farelo e 20% é transformado em óleo. Enquanto o Brasil se destaca na exportação de grão, a Argentina tem a liderança mundial na venda de farelo e óleo para o mercado externo. Portanto, a quebra da safra do país vizinho foi mais um fator que contribuiu para o incremento das exportações brasileiras de farelo e óleo.

Contribui também para o aumento da demanda o crescimento da produção de biodiesel, segundo o relatório do USDA. Devido à implementação da mistura de 4% de biodiesel ao óleo diesel no dia 1º de julho, houve um crescimento ainda mais significativo da demanda por óleo bruto. A estimativa é que sejam consumidos 850 milhões de litros de biodiesel no segundo semestre deste ano com a entrada em vigor do B4 – baseado em uma redução média de 5% nas vendas de diesel em relação ao ano passado, por causa da crise na economia. Ao final de 2009, a demanda de biodiesel (B3 e B4) deve ficar em torno de 1,49 bilhão de litros, aumento de 33% em relação ao 1,12 bilhão demandado em 2008. A obrigatoriedade do B4 é considerada por analistas como um indício de que o governo pode antecipar o B5 de 2013 para 2010, o que, inevitavelmente, vai provocar um incremento na demanda por óleo de soja.

Diante desse cenário, o aumento na cotação da commodity parece mesmo inevitável. “Tudo isso vai fazer a soja subir de preço, ou seja, vai estar acima da paridade em função da escassez do produto”, afirma Paulo Baraldi, sócioproprietário da Soma Corretora, que tem entre seus clientes a usina ADM, de Rondonópolis (MT), com capacidade de produção de 245 milhões de litros de biodiesel por ano, tendo a soja como a sua única matéria-prima.