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Insegurança: Contrato


BiodieselBR.com - 30 abr 2007 - 14:07 - Última atualização em: 23 jan 2012 - 09:28
Contrato

Segundo Terracini, o custo de uma operação de hedge fica em torno de 5 a 7% do capital total investido. “É uma espécie de seguro, que garante a margem de lucro de quem vende”, diz. E a maior parte dos produtores decidiu comprar o seguro. “Nas conversas que temos com o mercado percebemos que a maioria tem usado o hedge”, afirma Ricardo Dornelles, diretor do Departamento de Combustíveis Renováveis do Ministério das Minas e Energia. “O que varia é a porcentagem do produto que eles põem sob essa proteção. Essa é uma questão de estratégia individual”, diz.

A base das operações de hedge está nos contratos futuros. Aplicando isso ao caso da soja, funciona assim: um produtor, para garantir o preço da matériaprima que usará em sua usina, faz um contrato de compra para os três meses futuros. Imaginando que ele tenha dado um lance no leilão garantindo entrega a R$ 2,20 por litro de biodiesel, o nosso negociante precisará ter certeza de que comprará óleo de soja a, no máximo, R$ 1,70. Ou corre o risco de perder dinheiro. Assim, o produtor vai ao mercado de futuros – ligado à bolsa de valores – e fecha contratos a um valor fixo. Mesmo que o preço da soja dispare no mercado internacional, ele terá a garantia de receber sua matériaprima ao preço combinado.

É uma aposta. Se o preço cair, no entanto, ele terá pago mais que o necessário. O próprio Terracini, da FCStone, comenta que no ano passado o óleo de soja teve uma queda significativa de preço na bolsa. Assim, quem fez hedge imaginando que iria assegurar preço acabou perdendo dinheiro. E quem não fez, deixando para comprar a matéria-prima mais perto do prazo de entrega, se deu bem. Questão de sorte.

“Isso tem a ver com a bolha do preço do óleo de soja, que primeiro subiu demais e agora está procurando um patamar para se assentar novamente”, afirma o consultor. E esse é exatamente o problema de apostar em ficar sem a proteção. Em 2007, durante a subida dos preços, quem não se protegeu perdeu margem de lucro. E houve até quem não conseguisse cumprir integralmente seus compromissos de entrega com a ANP.

Apesar de tudo, quem está no mercado garante que o hedge vale a pena. “Na verdade, você precisa hoje de mais de um tipo de hedge”, afirma Paulo Baraldi, proprietário da Soma Corretora de Mercadorias, que atende alguns grandes nomes do mercado brasileiro de biodiesel, como a ADM, que só no 12º leilão da ANP vendeu 49 milhões de litros. “Além de se proteger contra a variação do preço da soja, é recomendável você fazer uma trava cambial também”, aconselha.

A trava cambial, ele explica, não é nada mais que outro tipo de hedge, mas exclusivamente monetário. O interessado faz o mesmo gênero de contrato futuro de compra. Só que a mercadoria, aqui, é a moeda estrangeira. “A soja é negociada na bolsa de Chicago. Falar ‘soja’, hoje, é o mesmo que falar ‘dólar’”, afirma Baraldi.

Para dobrar a proteção, porém, o que muitos produtores fazem é misturar a compra no mercado futuro com a compra do produto “físico”, ou seja, ao invés de depender 100% do hedge, o investidor garante matéria-prima ao preço atual, fechando contratos de compra e venda tradicionais assim que se encerra o leilão. Qual é a vantagem? Comprando parte “em tempo real”, o fabricante está garantindo que pelo menos uma parte vai estar ao preço que ele determinou em sua conta.

“O ideal é procurar uma corretora que possa elaborar uma estratégia específica para a empresa”, afirma Steve Cachia, analista de mercado de commodities agrícolas da Cerealpar. “A produção de biodiesel está numa situação particular, que é a de ter a venda futura garantida (no caso das usinas que venderam lotes no leilão) a um preço fixo já determinado. Por outro lado, se o preço sofre reajuste, o produtor não pode simplesmente repassar ao comprador”, diz. Segundo Cachia, essa estratégia pode prever operações no mercado físico combinadas com operações no mercado futuro, “de forma que, se o produtor perder numa operação, possa ganhar na outra. Isso fecha o ciclo. Um risco cobre o outro”, completa.

Fazer essa dupla proteção pode significar um ganho duplo. Ou pode ser também um mau negócio. Afinal, o hedge é uma garantia, mas não um remédio infalível – especialmente para aqueles que passam os limites da proteção e passam a usar os fundos de hedge para especular. No ano passado, grandes empresas como a Sadia e a Votorantim tiveram perdas milionárias – até mesmo bilionárias – com hedge, porque apostaram em contratos que previam a manutenção da moeda norte-americana em patamares baixos. Não deu certo.

Por essas e por outras, há quem não goste muito da idéia de depender tanto de mercados futuros, proteções cambiais e coisas do gênero. E há sempre uma solução mais convencional – e que pode ser igualmente eficiente – para esses negociantes. “O que nós fazemos”, explica Miguel Vaz Ribeiro, diretor da Fiagril – que vendeu 15 milhões de litros de biodiesel no último leilão da ANP – “é fechar contratos com preços fixos com nossos fornecedores pouco antes do leilão”. Segundo ele, funciona tranqüilamente, mesmo para uma empresa como a Fiagril, que depende 100% da compra de matéria- prima de terceiros.

“O hedge seria necessário para uma operação de mais longo prazo, com venda para 12 meses, por exemplo. Mas três meses dá para prever com bastante segurança, e nossos fornecedores têm fechado os contratos sem problemas”, afirma Ribeiro. Ele diz que o preço do hedge poderia incrementar seus custos em 5%, mas não acredita que, hoje, isso seja necessário.

No caso da Fiagril, Ribeiro diz que faz questão de fechar os contratos em moeda nacional – o que já reduz os riscos, eliminando a parte cambial do problema. E o diretor diz que não tem do que se arrepender. Fechou o último leilão garantindo preços para abril, maio e junho sem se preocupar com o fornecimento. E sem se preocupar com hedge.