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Coluna: Biodiesel Verde-Amarelo


BiodieselBR.com - 04 mar 2007 - 11:53 - Última atualização em: 19 dez 2011 - 18:10

Que o Brasil é uma referência mundial na produção de etanol, destilando mais de 20 bilhões de litros/ano de álcool de cana, todos sabem. A pluralidade de ser uma referência nos biocombustíveis (e não apenas no álcool) já é mais recente. De fato, o mundo se espanta ao ver que, em apenas três anos, a produção brasileira de biodiesel passou de zero a quase 3 bilhões de litros/ano de capacidade instalada (ANP).

Ao ver esse cenário, algum desavisado seria capaz de jurar que o biodiesel produzido no país faz uso da rota etílica. Ledo engano, com raras e honrosas exceções. A maior delas, sem dúvida, a Fertibom, em Catanduva (SP). Primeira fábrica de biodiesel no Estado de São Paulo, inaugurada em 2005, hoje produzindo mais de 150 mil litros/dia de biodiesel. Sempre de etanol, hora com soja, hora com sebo, de acordo com as opções do mercado. Sim, biodiesel etílico de sebo, algo que muitos consideravam impossível. Além de vencer esse desafio, o biodiesel etílico de sebo possui um CFPP (ponto de entupimento a frio) em torno de 7oC, ou seja, cinco ou seis graus abaixo do biodiesel metílico. O mesmo vale para o biodiesel etílico de soja, que alcança tipicamente -6oC de CFPP, ou seja, o biodiesel etílico realmente facilita o manuseio do biodiesel no frio.

Não adoto as críticas que se faz ao metanol como um insumo muito perigoso ou venenoso. Na verdade, uma indústria química não é uma indústria alimentícia. Os profissionais da química são treinados para lidar com insumos perigosos e inflamáveis. O que beira o absurdo é transportar metanol (que em parte é importado) por mais de dois mil quilômetros para o interior do Mato Grosso, bem ao lado de usinas de etanol. Mais grave, de acordo com o site da empresa Methanex, o preço médio de referência (sem impostos e frete) em 2008 foi de US$ 624/t, contra US$ 510/t do etanol anidro nas mesmas condições (Unica).

Lógico que não se trata de uma mera escolha, mas sim de limitação tecnológica. O processo de transesterificação por catálise homogênea só ocorre utilizando- se excesso de álcool. Esse excesso tem que ser recuperado no final do processo. Ambos, metanol e etanol, absorvem toda a umidade presente nos óleos, gorduras e no catalisador. A remoção dessa água do etanol é que é bem mais difícil do que no caso do metanol. O etanol forma um azeótropo com a água (é como se 4% de água misturada a 96% de etanol formassem um só composto). Mesmo o etanol anidro possui cerca de 7.000 ppm de água contra 100 a 200 ppm no metanol. Essa água faz toda a diferença. Promove mais sabões, dificultando a separação biodiesel/ glicerina.

Produzir biodiesel com um álcool renovável, produto 100% nacional, mas com grandes dificuldades técnicas, deveria receber algum tipo de compensação ou benefício. Se culturas como a mamona e a palma recebem vantagens fiscais por seu caráter social, o etanol é socioambientalmente muito superior ao seu rival derivado de gás natural. Pois, por incrível que pareça, o ICMS pago pelo etanol é superior ao do metanol. Em São Paulo estamos falando de 18% contra 12%. Quem conhece as planilhas financeiras do custo de produção de biodiesel sabe que poucos centavos podem viabilizar ou afundar uma empresa.

Num momento em que o CNPq/MCT recém promoveu, em tempo recorde, um edital para desenvolver a rota etílica, contemplando 20 projetos, seria muito salutar se o Comitê do Biodiesel estimulasse o uso do etanol na produção do biodiesel, corrigindo essa distorção fiscal e mesmo desonerando aqueles que fazem a opção pelo biodiesel verde-amarelo.

Donato Aranda é professor de engenharia química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e possui o título de comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico.