Conferência BiodieselBR 2018

Exterior: Miragem na Malásia

Falta de apoio governamental, volatilidade de preços e danos ambientais estão dissipando a recém-criada cadeia produtiva de biodiesel no país

Romeu de Bruns, de Foz do Iguaçu

Produto agrícola fundamental na economia da Malásia, a palma é obtida em uma escala que excede em mais de três vezes a demanda do mercado doméstico daquele país. Diante disso, a opção por canalizar parte dessa produção para a fabricação de biodiesel parecia natural e destinada ao sucesso. Mas a questão é que, passados dois anos desde a inauguração desse setor na Malásia (a primeira usina entrou em operação em agosto de 2006), poucos projetos saíram do papel e algumas usinas até fecharam as portas definitivamente sem nunca terem utilizado plenamente suas instalações.

O país desenvolveu um plano ambicioso de apoio ao biodiesel, que tinha o objetivo de expandir o mercado de óleo de palma, incrementar a segurança energética e criar uma nova indústria exportadora. Vale destacar que os preços do diesel mineral são subsidiados na Malásia. Então, pela substituição parcial desse combustível por biodiesel, o governo esperava poder cortar ou ao menos reduzir esse subsídio em pouco tempo. Porém, o plano de adotar o B5 (mistura de 5% de biodiesel de palma no diesel mineral), inicialmente previsto para janeiro de 2008, até hoje não aconteceu. Se o B5 for instituído, serão exigidas 570 mil toneladas de óleo de palma, ou 130 mil hectares, o que equivale a 3% dos atuais 4,2 milhões de hectares cultivados.

Segundo o relatório “Biocombustíveis - A que custo?”, publicado em setembro deste ano pelo Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (IISD, em inglês), a lucratividade do biodiesel malaio é precária, pois depende em grande parte das cotações do petróleo e do óleo de palma, que são bastante voláteis. O uso do B5 pode, inclusive, aumentar os gastos do governo com subsídios a combustíveis, caso o petróleo fique mais barato (na casa de US$ 75 o barril, por exemplo) e o óleo de palma muito caro, como ocorreu nos picos de cotação registrados em março deste ano, de até US$ 1.420 a tonelada.

A principal razão para a inviabilidade dos projetos de biodiesel reside na disparada dos preços das commodities, inclusive do óleo de palma. Com isso, os produtores de biodiesel da Malásia não conseguiram atrair apoio suficiente do governo local para manter suas operações. Até hoje, esse apoio se limitou a linhas de crédito no total de US$ 16 milhões em 2004 e US$ 3,3 milhões em doações para projetos de demonstração em 2006.

Dos 92 projetos de construção de usina aprovados entre 2006 e 2007, apenas 14 saíram do papel. Quatro dessas usinas fecharam as portas definitivamente e somente nove produziram biodiesel em 2008, totalizando 134 milhões de litros até setembro (menos de 10% da capacidade de produção total). Hoje existem oito novas plantas em construção, o que significa que, se não houver novas desistências, a capacidade de produção do país deverá chegar a 2,7 bilhões de litros em 2009.

Entre as empresas licenciadas pelo governo malaio está a MyFuel Group, instalada na Zona Livre de Porto Klang, com duas plantas que somam uma capacidade de produção de 350 milhões de litros de biodiesel por ano. A indústria investiu cerca de US$ 45 milhões e começa a operar em janeiro de 2009. Segundo o gerente de desenvolvimento de negócios da companhia, James Wong, as metas do empreendimento são ambiciosas: tornar-se a maior produtora de biodiesel a partir de óleo de palma do mundo, com um faturamento anual superior a US$ 200 milhões. A MyFuel tem um acordo com a americana World Energy Alternatives (WEA), que responderá pela distribuição do produto na Europa, Ásia (na região do Oceano Pacífico) e Américas do Norte e do Sul. A MyFuel também considera a produção de biodiesel a partir do pinhão-manso – que está sendo progressivamente adotado na região – dentro de dois ou três anos. Em nota à imprensa, a empresa informou que a volatilidade dos preços do óleo de palma, apesar de ter prejudicado o setor até o momento, não invalida seu plano de negócios, que visa o longo prazo.

No primeiro semestre de 2008, muitos produtores de biodiesel não puderam utilizar grande parte da capacidade instalada devido a alta do preço do óleo de palma. “Nesse período utilizamos menos de 30% da capacidade”, diz U. R. Unnithan, diretor executivo da Carotino. A companhia – que tem parceria com o Comitê Malaio de Promoção do Óleo de Palma, o Malaysian Palm Oil Board (MPOB), órgão do governo – tem duas unidades de produção de biodiesel em Pasi Gudang, na província malaia de Johor. Ambas somam uma capacidade de produção de 120 milhões de litros/ano, destinadas quase que totalmente para o mercado europeu.

A exemplo da MyFuel e da Carotino, a maior parte do biodiesel malaio é hoje exportada, principalmente para a União Européia e para os Estados Unidos, que subsidiam o combustível, inclusive quando importado. Esses subsídios foram responsáveis pela sobrevivência das empresas que estavam operando até o momento. Porém, o relatório do IISD adverte que a adoção de políticas ambientais mais rigorosas limita o acesso a esses mercados no futuro. “Em 2006, quando as políticas de estímulo foram criadas na Malásia, as considerações ambientais eram um fator menor. O governo se referia apenas à redução das emissões de gases do efeito estufa com o aumento do uso do biodiesel”, sustenta o documento.

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