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Soja: a favorita do biodiesel


BiodieselBR - 31 out 2007 - 12:43 - Última atualização em: 23 jan 2012 - 10:49
Por ser abundante no país, a soja é a matéria-prima mais utilizada para a produção de biodiesel. Mas será que esse é mesmo o melhor caminho?

Por Fernanda Guirra, de Goiânia

Ocupar a posição de oleaginosa mais utilizada como matériaprima para a produção de biodiesel faz com que a soja seja a preferida de boa parte das indústrias. Isso é fato. No entanto, as análises dos especialistas indicam que essa escolha tem acontecido muito mais por uma conveniência momentânea do que por unanimidade quanto às vantagens técnicas do grão para o setor.

A soja já responde por cerca de 80% de toda a produção de biodiesel no país. O pesquisador Marcio Turra de Ávila, da Embrapa Soja, afirma que vários fatores dão a essa commodity o papel central na produção do biocombustível. “O principal diz respeito à disponibilidade, já que a soja é a oleaginosa produzida em maior escala no Brasil”, explica.

E os números do 12º Levantamento da Safra 2007/2008, divulgados em setembro pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), são mesmo impressionantes. A atual safra brasileira de soja está estimada em 60,05 milhões de toneladas, resultado 2,8% superior ao da safra passada (58,40 milhões de toneladas). O Brasil é o segundo maior produtor mundial do grão, atrás apenas dos Estados Unidos (86,77 milhões de toneladas produzidas em 2006/2007).

“Nesta fase inicial de implantação do biodiesel como combustível alternativo, a soja é, indiscutivelmente, a melhor opção”, ressalta Ávila. No entanto, segundo ele, em médio e longo prazo, outras culturas com maior produção de óleo por hectare deverão ter sua participação aumentada, como as palmáceas (óleo de palma ou dendê, por exemplo). “Mas pela sua importância como fonte de proteína, a soja sempre será uma cultura de grandes áreas plantadas, e sempre terá participação no mercado produtor de biodiesel”, completa.

O pesquisador Antonio Bonomi, diretor do Centro de Metrologia Química do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) tem uma opinião diferente. Ele acredita que “a soja efetivamente não é a matéria-prima ideal para a produção de biodiesel”, principalmente em função do baixo teor de óleo por hectare plantado, com resultados inferiores a 500 litros por hectare. Ele destaca que o Brasil já possui vasta experiência no plantio de soja e que, portanto, não existe a perspectiva de uma “curva de aprendizado favorável”, que possibilite ganhos significativos no teor de óleo por hectare.

Para o engenheiro químico José Zílio, consultor da Alf International e que atua no negócio soja há 38 anos, o biodiesel nasceu no Brasil para eliminar a sobreoferta de óleo de soja do início da década. “Isso ocorreu da mesma forma que a colza, na Europa, encontrou uma demanda não alimentícia para evitar o colapso de preços frente à inundação de óleo de palma vindo da Ásia. Produzir combustíveis foi o modo encontrado para eliminar um excesso de oferta de oleaginosas no país”, declara.

O consultor ainda atribui o sucesso da soja ao alto teor de proteína gerado em um hectare. Segundo ele, é importante lembrar que o óleo é um subproduto dessa planta, o que acaba provocando os comentários de que a produtividade é baixa para a produção de biodiesel. “Ninguém plantaria soja se fosse apenas para obter o óleo. Os dois milhões de toneladas por ano que sobravam no país, no começo da década, é que viabilizaram o biodiesel.”

De acordo com José Zílio, em março de 2001 o Brasil exportava óleo de soja ao preço de US$ 270 por tonelada. “Um valor ridículo”, diz. Agora, calcula ele, a China paga até três vezes mais pelo óleo de soja brasileiro, exatamente porque o país criou uma demanda interna com a expansão do setor de combustíveis.

A preferência pela soja já foi motivo de preocupação até mesmo para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em agosto, ele defendeu publicamente a diversificação das matérias-primas usadas no setor de biodiesel. “Transformar a soja na matriz principal é um erro, porque o preço é determinado no mercado internacional”, afirmou o presidente, durante a inauguração da unidade da Petrobras Biocombustível localizada em Quixadá (CE).

Na ocasião, Lula avaliou que utilizar a soja na produção de biodiesel é prudente apenas em momentos de excesso de produção mundial, caracterizados por preços depreciados. “Neste caso, o uso da soja para o biodiesel pode até estimular os preços”, disse o presidente na ocasião.