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Moringa: 1001 Utilidades


BiodieselBR - 06 nov 2007 - 16:03 - Última atualização em: 23 jan 2012 - 11:29
Planta comum no semi-árido nordestino, a moringa tem potencial para a produção de biodiesel, mas seu cultivo em larga escala ainda requer mais estudos

Por Fernanda Guirra, de Goiânia

A moringa (Moringa oleifera Lam.) é uma planta bastante conhecida no Nordeste brasileiro, sobretudo na região do semi-árido.
A árvore, que é pouco familiar aos habitantes de outros locais do país, pode ser considerada sinônimo de “mil utilidades” entre os nordestinos. Bastam alguns minutos de conversa com estudiosos da planta para perceber que sua versatilidade gera admiração e curiosidade. Agora, com o desenvolvimento de algumas pesquisas, começa a despontar, ainda timidamente, o que seria a milésima primeira utilidade da moringa: a produção de biodiesel.

“A moringa é uma espécie perene, da família Moringaceae, originária da Índia. No Brasil, sua cultura vem sendo difundida em todo o semi-árido nordestino, principalmente devido a sua utilização no tratamento de água para uso doméstico. Além disso, exemplos de várias aplicações vêm sendo relatados ao longo dos anos: folhas e sementes são empregadas para alimentação animal e em remédios caseiros, e seu óleo tem sido usado em lamparinas, na fabricação de sabão e na lubrificação de pequenas engrenagens, como relógios”, explica a professora Simoni Meneghetti, do Instituto de Química e Biotecnologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

Segundo ela, o Grupo de Catálise e Reatividade Química da Ufal, em parceria com os professores Carlos Rodolfo Wolf e Marcelo Gossmann, da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra-RS), tem obtido resultados interessantes a partir do estudo da utilização do óleo de moringa oleífera para a obtenção de biodiesel. “Recentemente, até submetemos nossos resultados à revista internacional Energy & Fuels”, diz Meneghetti.

Os pesquisadores identificaram, em análises experimentais, que a semente seca contém cerca de 39% de óleo. “O óleo bruto obtido apresenta um grande teor de ácido oléico (78%), o que indica que o produto é adequado para a obtenção de um biodiesel com um baixo teor de insaturações. Isso tem reflexo direto, e muito positivo, em sua estabilidade à oxidação, facilitando transporte e armazenamento”, comenta a professora da Ufal. Para fazer uma comparação, ela destaca que o óleo de canola, a partir do qual é obtido grande parte do biodiesel europeu, contém tipicamente 62% de ácido oléico em sua composição.

Simoni Meneghetti afirma que o biodiesel a partir da moringa também apresentou viscosidade e massa específica dentro das determinações exigidas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). “As informações que temos indicam um grande potencial do óleo da moringa oleífera para a produção de biocombustível”, diz. Além disso, a planta é uma oportunidade de ampliação do leque das culturas oleíferas, que podem ser desenvolvidas de forma perene no Nordeste brasileiro, sem competir com lavouras de alimentos.

Apesar das boas notícias resultantes dos testes no laboratório da Ufal, a professora destaca que ainda são necessários estudos agronômicos completos sobre o cultivo da moringa em grande escala. “Isso é fundamental para a viabilização da produção do biodiesel a partir dessa matéria-prima.” Entre outras coisas, é preciso determinar os índices de produtividade da planta, além de verificar a existência de possíveis pragas.

No Laboratório de Referência em Biocombustíveis (Larbio) da Fundação Núcleo de Tecnologia Industrial (Nutec), no Ceará, os experimentos com a moringa começaram há cerca de dois anos e meio. De acordo com o técnicoquímico Jackson de Queiroz Malveira, produtores rurais da região procuraram o centro de pesquisas em busca de mais informações sobre essa planta, tão adaptada ao clima seco e à ausência de água.

Segundo ele, alguns agricultores de cidades próximas coletaram amostras de sementes da planta e levaram ao Nutec na tentativa de descobrirem, entre outras coisas, a quantidade de óleo extraído e o potencial da árvore como matériaprima para a produção de biodiesel. “Aqui no Nordeste, a moringa é muito comum, usada inclusive para arborizar áreas urbanas. É uma planta com boa adaptação à região”, ressalta.