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Univaldo Vedana: Produzir é o que importa


Edição de Abr / Mai 2008 - 15 abr 2008 - 13:50 - Última atualização em: 13 dez 2012 - 16:59

Quando o Programa Brasileiro de Biodiesel foi criado em 2004 e virou lei no inicio de 2005, a realidade brasileira e mundial era uma. Tínhamos o petróleo que, embora caro, custava menos da metade do que vale hoje. As commodities agrícolas (soja, milho, trigo e seus derivados) valiam cerca de um terço dos preços atuais. O agronegócio brasileiro estava entrando em uma grave crise com endividamento crescente por causa dos baixos preços agrícolas.

Justamente nessa fase de baixos preços dos produtos agrícolas e com o barril de petróleo a U$ 50, o biodiesel virou coqueluche mundial. A conta fechava, e em alguns países com incentivos fiscais o resultado ficava melhor ainda. Paralelo a isso, a instabilidade política de alguns dos principais países produtores de petróleo e a necessidade de segurança energética dos países consumidores fizeram com que governos e empresários investissem em combustíveis renováveis, diminuindo com isso a dependência e alavancando a produção, o emprego e a renda dentro desses países.

A falta de matéria-prima para a produção de biocombustíveis vista hoje é resultado da rapidez com que se passou a transformar produtos agrícolas em biocombustíveis, sem que houvesse um aumento na mesma proporção da produção no campo. Somente o Brasil, com a cana-de-açúcar, fez corretamente o dever de casa. Aumentou a produção de álcool com o correspondente aumento no plantio de cana e conta ainda com a possibilidade de diminuir a produção de açúcar em favor do álcool se o mercado for interessante. Os Estados Unidos que num curto espaço de tempo construíram dezenas de usinas de álcool de milho sem o incremento no plantio, e isso forçou o aumento do preço do milho no mercado mundial. Quando as usinas de etanol passaram a usar o milho que já tinha outro destino, não só o preço do milho subiu, mas também o preço da soja e do trigo. A principal razão disso é que na safra passada os americanos plantaram mais milho e menos soja. A produção de milho foi a maior desde o final da segunda guerra, mas mesmo assim não foi suficiente para reverter a tendência de preços.

Apesar dos problemas que o setor de biodiesel enfrenta hoje não só no Brasil, mas no mundo inteiro, o aumento da produção de biodiesel é um caminho sem volta. A produção de biodiesel deverá obrigatoriamente nos próximos anos chegar a seis bilhões de litros no Brasil, zerando a importação de diesel pronto, que responde pela evasão de mais de três bilhões de dólares por ano.

Para alcançar este objetivo os investimentos em usinas para mais de dois terços dessa produção já estão quase prontos. A capacidade das usinas autorizadas e em processo de autorização ultrapassa os quatro bilhões de litros por ano. Cerca de 80% dessas usinas foram construídas com objetivo de utilizar o óleo de soja para a produção de biodiesel. Como o preço do óleo de soja no mercado está alto e o preço final do biodiesel não tem acompanhado, algumas usinas se viram obrigadas a parar ou reduzir sua produção.

Com os preços atuais o mercado de biodiesel ficará restrito ao mínimo obrigatório legal, B2 até 30 de junho e B3 a partir de 1º de julho, totalizando um consumo para o ano de cerca de 1,2 bilhão de litros.

A ociosidade das usinas precisa ser enfrentada com produção no campo de oleaginosas não alimentícias, onde o preço pode ser determinado pela usina. Solos agricultáveis, tecnologia agrícola de ponta, oleaginosas adaptadas aos diversos climas brasileiros e produtores em condições de atender a demanda por biodiesel estão apenas aguardando a chamada das usinas para iniciarem a produção através de parcerias ou de integrações.