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Da cozinha para a usina


Edição de Abr / Mai 2008 - 15 abr 2008 - 11:46 - Última atualização em: 13 dez 2012 - 16:59
A necessidade de matérias-primas mais baratas coloca o óleo de cozinha no centro das atenções das usinas e dos grandes centros urbanos. Com o impulso do biodiesel, o óleo vegetal reciclado pode viver agora sua era de ouro.

Rosiane Correia de Freitas, de Curitiba

No ano passado, um contribuinte paranaense ligou para o Congresso Nacional. Estava entusiasmado com a história do biodiesel, de que o presidente Lula vinha falando. E queria saber como poderia fazer para pegar carona na nova onda do país. As perguntas dele eram: “Dá para fazer esse biodiesel em casa? É só cozinhar no tacho e espremer no espremedor de torresmo?” Se fosse, dizia ele, ele derrubaria todas as suas plantações e plantaria mamona. A atendente da Câmara dos Deputados ficou confusa e não soube o que responder.

Na verdade, tudo não passava de uma brincadeira. O contribuinte era Wilmutt, um comediante que passa trotes em atendentes de telefonia do país todo. A telefonista do Congresso era só mais uma vítima, que foi parar no site do paranaense.

O que talvez nem o comediante nem a atendente soubessem é que a onda do biodiesel pode ter mesmo a participação de cada um dos brasileiros. E de uma maneira bem mais fácil do que a proposta por Wilmutt. Não é necessário derrubar plantações nem plantar mamona, muito menos cozinhar plantas em tachos. Basta recolher o óleo de cozinha usado. Por mais simples que a atitude pareça, pode representar o aumento de uma matéria- -prima importante para o avanço do biodiesel brasileiro.

Embora ainda tenha uma participação incipiente na produção do biodiesel – que é fabricado em sua imensa maioria com soja –, o óleo vegetal usado é considerado parte importante do programa nacional de biodiesel. Os motivos para se animar com a matéria-prima são vários: além de estar disponível em grande quantidade e a custo baixo, o óleo vegetal usado hoje representa um problema ambiental de grandes proporções. Se o país conseguir evitar que seja jogado pelo ralo, estará também reduzindo consideravelmente a poluição das águas e contribuindo para baixar os custos de tratamento da água no Brasil. Não é pouca coisa.

“O cálculo que temos dá conta de que cada litro de óleo jogado nas pias tem a capacidade de contaminar um milhão de litros de água lá fora”, afirma Walter Bottura Júnior, da Bioauto, uma empresa paulista que vem apostando firme na coleta de óleo para a produção de diesel vegetal. “Na região metropolitana de São Paulo, por exemplo, temos 14 milhões de pessoas consumindo óleo”, diz Bottura, preparando-se para anunciar o resultado de uma conta estarrecedora. “Se cada um joga por mês 500 mililitros de óleo usado no ralo, imagine o tamanho do problema. A quantidade de litros de água poluídos chegaria aos trilhões. Nem cabe na calculadora”, completa.

Por isso, a atividade de empresas como a Bioauto, que vem se esforçando para recolher o óleo em grandes cidades, é o primeiro passo para a resolução de um problema ambiental. A aposta da empresa foi de trabalhar exatamente na região de São Paulo, devido à grande concentração populacional da cidade e do ABCD – área de entorno que inclui Santo André, São Bernardo, São Caetano do Sul e Diadema. “É aqui que se fritam os bifinhos e as batatinhas”, brinca o diretor.

Logística

O grande problema das empresas que decidiram trabalhar com o óleo rejeitado é a logística do processo. Recolher o produto é um trabalho de formiga, que exige deixar recipientes em casas e estabelecimentos comerciais e depois passar recolhendo o material nas datas combinadas. Além de demandar a compra das bombonas e dos caminhões, o processo inclui a criação de roteiros que permitam uma operação eficiente de recolhimento. Problema para gente grande resolver.

A Ambiental Vitare, por exemplo, achou uma solução mista para o problema. Por um lado, botou três caminhões nas ruas para fazer o recolhimento do óleo. A empresa tem 1.900 bombonas de 50 litros distribuídas em condomínios residenciais e no comércio. “Os condomínios ainda são problemáticos, na maioria dos casos. As pessoas não têm a cultura de guardar o óleo. O comércio tem ajudado mais”, afirma Claodemir Balotin, fundador da empresa.

Em uma das cidades onde atua, porém, a Ambiental Vitare conseguiu implantar outro tipo de solução. Em Ponta Grossa, no interior do Paraná, a empresa realizou um convênio com o Rotary e com a prefeitura municipal. Como resultado, foi feito um projeto de conscientização ambiental que permitiu a formação dos agentes coletores. São carrinheiros, que passam pela cidade recolhendo materiais recicláveis, e que agora incluem no seu trabalho diário o recolhimento do óleo usado. Eles ganham até R$ 0,50 por litro recolhido – dinheiro que é pago a eles por meio de uma cooperativa.

A Bioauto, de São Paulo, trabalha de maneira diferente. Resolveu que, para ser eficiente, o processo de coleta tem de ter custo de compra igual a zero. “É uma parceria. Não cobramos nada pelas bombonas que deixamos nem pelo recolhimento. Mas também entendemos que não temos de pagar nada pelo óleo, que afinal de contas não tem valor comercial”, diz Bottura.

O plano parece estar dando certo. A empresa espalhou 1.500 tambores de 50 litros pela grande São Paulo: hotéis, restaurantes, motéis, cozinhas industriais e condomínios ficam com as bombonas. Cada morador dos condomínios também recebe um pote de 1,5 litro que fica em sua casa. Quando enche, leva até o latão e o deposita. “Fizemos isso em um balneário de São Paulo. Quando os moradores voltaram do verão para a capital, ligaram pedindo que implantássemos o mesmo em suas casas da cidade. E nós topamos”, diz o diretor.

Educação ambiental

A educação ambiental, em todo o caso, parece ser mesmo a peça- -chave para que todo o processo funcione adequadamente. Foi nesse ponto que a Granol, empresa com bases no Centro-Oeste brasileiro e no Estado de São Paulo, decidiu investir suas fichas. E a aposta foi na base: a educação foi feita em escolas de municípios onde a indústria tem suas sedes.

No município goiano de Anápolis, por exemplo, a empresa fez um convênio com a administração pública e implantou o projeto de conscientização em 57 escolas. Até um gibi, que tem como personagem o Supergranolzinho, foi criado. Além de palestras e ações educativas, como brincadeiras, também fez parte do processo um pequeno concurso entre as escolas. O colégio que arrecada mais óleo usado entre seus alunos ganha prêmios da empresa. Entre os alunos, a mesma coisa: o maior arrecadador do mês leva para casa, de graça, uma bicicleta.

“Tem funcionado. Também temos outro projeto, que paga às pessoas pelo recolhimento de nossa matéria-prima”, afirma Bárbara Odoki, responsável pelo marketing da Granol. Para cada quatro litros de óleo recolhido, o consumidor que procurar a empresa leva para casa, gratuitamente, uma lata de 900 mililitros de óleo novo. O material arrecadado vai direto para as duas usinas de produção de biodiesel que a empresa mantém no país: uma em Anápolis e a outra em Cachoeira do Sul, no Estado do Rio Grande do Sul.

Retrato

A Ambiental Vitare é um retrato bem acabado da situação do óleo de cozinha como matéria-prima de biodiesel no Brasil. A empresa, que já trabalhava com sebo bovino, percebeu o potencial do óleo vegetal usado. Bolou uma estratégia de recolhimento e foi à luta. Até o momento, no entanto, tem apenas uma idéia na cabeça e várias toneladas de material armazenado: mas nenhum litro de biodiesel foi produzido.

“Estamos na primeira fase, a da coleta. Temos centenas de toneladas reservadas, mas ainda não é suficiente para começar a produção”, afirma Claodemir Balotin. A empresa avalia duas soluções possíveis para o material arrecadado: permanecer com ele em estoque até que a primeira usina própria de biodiesel fique pronta ou vendê-lo no mercado antes disso.

“O preço do óleo usado deu uma subidinha, graças à subida de preço da soja”, diz Balotin. Hoje, segundo o diretor da empresa, é viável vender o produto no mercado de biodiesel – ou de sabões e cosméticos, onde já é usado há bem mais tempo – por cerca de R$ 1,00 o litro.

Isso, porém, ainda está longe de significar lucro para as empresas. “Estou trabalhando sem margem alguma, por enquanto. O dinheiro que se ganha paga apenas o preço da logística que montamos”, diz Balotin, encerrando com uma frase que diz muito sobre o estágio de desenvolvimento do óleo usado como matéria-prima de biodiesel no país: “Estamos fazendo uma aposta no futuro.”

Processo

O processo de produção de diesel a partir do óleo vegetal usado não é muito diferente do que ocorre com outras matér ias-pr imas. Todos os processos começam com um tipo de gordura que passa por procedimentos de extração de impurezas, numa primeira fase, e por processos químicos de transesterificação, numa etapa seguinte. A peculiaridade do óleo está na fase um.

A limpeza do óleo de cozinha tem dois pontos básicos: filtragem e decantação. Os filtros servem, antes de mais nada, para excluir materiais sólidos que ainda estejam no óleo. Também é extraída a água existente na matéria-prima. Só depois ela segue para a decantação. Por último, aí sim, se inicia a química da transesterificação.

Pode-se considerar que as perdas de material incluídas no processo são razoáveis. Para cada litro de óleo impuro que se coloca em filtragem, as usinas conseguem extrair, do outro lado, prontos para uso, cerca de 650 mililitros. Ou seja: a perda fica em torno de 35%.

Uma das vantagens ambientais do processo está na possibilidade de utilizar apenas processos físicos na retirada de impurezas do material. É o que faz a Ambiental Vitare, por exemplo. “Usamos apenas processos físicos, nada de química. Só filtros, caldeiras e clarificadores. Não colocamos nada de soda cáustica”, garante Claodemir Balotin, que se recusa a armazenar óleo para vender à indústria de sabões. “Lá, eles adicionam soda cáustica, que é tão perversa para o meio ambiente quanto o próprio óleo jogado no ralo. Não é o que queremos”, afirma.

É suficiente?

Quando se começa a analisar o potencial do óleo de cozinha usado para a produção de biodiesel, uma das perguntas que vem à mente é: será que o óleo disponível no país é suficiente para dar um impulso razoável ao biodiesel brasileiro? A resposta pode estar em Ponta Grossa, município paranaense distante cerca de cem quilômetros da capital Curitiba.

Lá, na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), um professor está concluindo uma pesquisa de dois anos sobre o tema. O pesquisador, curiosamente, não é um engenheiro, e sim um geógrafo. Trata-se de João Alfredo Madalozo, atual diretor do Setor de Ciências Exatas da universidade. A pesquisa é a base de seu mestrado em Geociências. O trabalho, feito para a linha de pesquisa em Gestão do Território, terá como tema da dissertação a relação entre óleo de cozinha e biodiesel.

Uma das perguntas que o professor se propôs a responder é exatamente essa: em que medida o óleo de cozinha é – ou pode vir a ser – relevante para o biodiesel nacional. A pesquisa de campo, feita por meio de aplicação de questionários, mostra o resultado para Ponta Grossa. No município, a quantidade de óleo rejeitado mensalmente pelos moradores e pelo comércio equivale a 5% do total da necessidade de diesel da mesma população.

Em outras palavras, isso quer dizer o seguinte: seria possível, teoricamente, aumentar a proporção de biodiesel no combustível brasileiro para 5% e ainda assim basear toda a produção apenas em óleo de cozinha rejeitado. Lógico que, para esse cenário, seria preciso recolher absolutamente todo o óleo usado disponível no país – o que está longe, muito longe de se tornar uma realidade provável.

Mas outra pergunta se impõe: a população está disposta a guardar esse óleo em suas casas até que alguém venha recolhê-lo? Porque, se isso não acontecer, todo o processo fica prejudicado seriamente. A dissertação do professor, que virá a público no segundo semestre deste ano, traz também indícios nesta área.

“A questão ambiental parece importar muito mais para as pessoas do que o dinheiro que elas poderiam ganhar no processo”, afirma Madalozo, com base nas respostas que obteve da população de Ponta Grossa. “Até porque são apenas centavos que cada um poderia ganhar. Enquanto isso, o ganho ambiental é tremendo”, diz o professor. Outro dado da pesquisa é que há, segundo o professor, uma nítida diferença de comportamento entre as classes sociais que fizeram parte do levantamento. “Parece que os consumidores mais modestos, de classe social mais baixa, se importam mais com a questão ambiental do que os mais ricos. Os mais abastados se importaram menos”, garante. Os resultados completos da pesquisa, porém, só serão conhecidos quando a dissertação for defendida e aprovada.

Incentivo pode vir nos impostos

Todos trabalhando para recolher o óleo usado: esse seria um cenário ideal, mas que está longe de se tornar realidade no Brasil. Como fazer para aproximar o ideal da realidade? Para o professor João Alfredo Madalozo, da (UEPG), a resposta pode estar no bolso. Mais propriamente, na distribuição do dinheiro dos impostos.

“Se existe hoje o ICMS Ecológico, por que não criar algo parecido para o óleo usado recolhido?”, sugere o professor. O ICMS Ecológico, criado originalmente no Paraná em 1991 e depois expandido para outros estados, prevê a distribuição do dinheiro arrecadado com o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços de acordo com os resultados ambientais obtidos pelos municípios. A prefeitura que se dispuser a cuidar melhor do meio ambiente leva uma fatia extra do imposto.

“Uma coisa já sabemos: a administração pública tem necessariamente de ser o grande articulador desse processo, caso contrário o recolhimento da matéria-prima não ocorre no nível desejado”, conclui o pesquisador.

Pesquisa atesta resultados

Nove caminhões do sistema de coleta do lixo hospitalar do Rio de Janeiro fizeram um dos mais importantes testes já realizados no Brasil sobre o uso de óleo de cozinha para a produção de biodiesel. Pesquisadores do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com auxílio da Petrobras, colocaram combustíveis diferentes na frota e mediram os resultados durante dois anos e meio, de 2003 a 2006.

“Colocamos cinco caminhões para rodar com diesel comum, dois com B5 de soja e dois com B5 de óleo de fritura”, diz o professor Luciano Basto Oliveira, um dos responsáveis pelo projeto. Para garantir os resultados, as rotas dos caminhões eram alternadas, para que todos enfrentassem os mesmos problemas e desafios. Todos os caminhões eram da Ford, com motores Cummins e sistema de injeção Bosch. O óleo era cedido pela rede de lanchonetes McDonald´s.

Ao fim da observação, os pesquisadores chegaram a conclusões bastante favoráveis ao óleo de cozinha. “Tudo o que vimos no B5 da soja se aproximava da literatura sobre o assunto. No B5 do óleo de cozinha, também. Mas com uma vantagem: a redução de fuligem foi quatro vezes maior do que o esperado”, conta o professor.

Em todas as outras emissões, o óleo de cozinha proporcionou os mesmos resultados que o B5 da soja. Mas a soja reduz em cerca de 5% a fuligem emitida pelo motor. “O óleo de cozinha nos deu redução de 20%”, diz Basto. Os testes, segundo o professor, ainda precisam ser repetidos para ter validade científica, mas são um bom indício. De acordo com ele, os testes serão repetidos ainda no primeiro semestre deste ano.

O professor ressalta que esse teste confirma uma grande característica do óleo de cozinha: a vantagem ambiental. “Esse tipo de biodiesel nos permitiria recuperar mais créditos de carbono do que outros combustíveis”, conta ele, lembrando que a recuperação, nesse caso, já foi aprovada pelo Painel Metodológico do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) do Protocolo de Kyoto. Os créditos são concedidos porque, se jogado na natureza, o óleo acaba apodrecendo e emitindo metano.

Trabalhando atualmente na Empresa de Pesquisa Energética (EPE), ligada ao Ministério de Minas e Energia (MME), Basto vem há mais de uma década verificando a possibilidade de uso de resíduos como fontes de energia. No caso do óleo vegetal usado, ele não acha que haja problemas para o recolhimento dos milhões de litros anuais produzidos pela população brasileira. “O lixo é recolhido. E as pessoas já segregam o óleo, até para usálo novamente”. Segundo ele, além de tudo, esse tipo de produção poderia criar emprego e renda nas cidades, dando oportunidade de trabalho a coletores de óleo.

Quanto à produção a partir do óleo, Basto diz que não há problemas adicionais sérios em relação a outras matérias-primas. “O óleo é mais heterogêneo, tem mais tipos de impurezas, mas a filtragem e um tratamento correto dão conta disso”, afirma. As usinas também não têm de passar por qualquer transformação para esse tipo de processo. “No máximo, usar mais reagentes, ou ter tempos diferentes de procedimentos”, conta.