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Fatos e mitos


Edição de Fev / Mar 2008 - 15 fev 2008 - 17:18 - Última atualização em: 17 dez 2012 - 09:17
Nesta entrevista exclusiva, o especialista em distribuição de biodiesel do Centro de Estudos em Logística da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Marcos Benzecry, apresenta os resultados da maior pesquisa já feita no Brasil sobre o biodiesel e separa as verdades das lendas que rondam o setor.

Liliana Negrello, de Curitiba

Durante quatro meses e meio um grupo de pesquisadores mergulhou no universo do biodiesel e construiu o mais completo retrato do setor já feito no Brasil. E fez descobertas valiosas. Quem quiser manter-se competitivo deve verticalizar a produção do biocombustível e investir nas matérias- primas de maior viabilidade econômica – soja, algodão, sebo e girassol. Sobre a mamona, insistentemente valorizada pelo governo federal, confirmou-se o que o senso comum já havia mostrado: do ponto de vista dos estudiosos, já era.

A pesquisa foi encomendada pelo Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP) e a parte relacionada a Logística e Economia foi realizada pelo Centro de Estudos em Logística da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppead – UFRJ). O estudo foi feito em três etapas. O primeiro momento foi dedicado ao mapeamento de todos os elos da cadeia de suprimentos do biodiesel (agricultura, frigoríficos, esmagadoras, refinadoras, matériaprima, usinas, insumos e bases distribuidoras). Paralelamente, houve um estudo tributário e um trabalho de benchmarking internacional em países como Alemanha, Itália, EUA e Argentina. A segunda fase da pesquisa se dispôs a calcular qual o custo do biodiesel por litro em real e se debruçou sobre as diferentes matérias-primas, regiões e cadeias de produção do país. Na última etapa foram apresentadas propostas de cunho mercadológico, social e tecnológico para gerar melhorias importantes no setor.

O resultado do trabalho você conhece nas próximas páginas. Em suas argumentações, Marcos Benzecry mostra a situação atual no país, os segredos de quem deu certo e alguns caminhos para solucionar os problemas que ainda assombram o setor.

Revista Biodieselbr - Qual foi o objetivo principal da pesquisa? Quais foram as principais conclusões?
Marcos Benzecry - O objetivo do IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis) quando contratou o estudo foi buscar uma avaliação isenta para o Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel. A intenção era fazer um panorama do setor no país. Uma das principais conclusões a que chegamos foi em relação à utiliza-ção de matérias-primas. Do ponto de vista logístico-mercadológico, vimos que existem quatro delas que realmente são competitivas – a soja, o algodão, o girassol e o sebo. A soja aparece como carro-chefe e as misturas entre as quatro matérias- primas como uma alternativa viável. Outra conclusão que julgo muito importante é em relação à verticalização da cadeia de produção. Isso significa que as usinas que possuem uma esmagadora de grãos ou até mesmo a produção agrícola são mais competitivas, produzindo biodiesel a um custo menor e ainda conseguem sair da dependência da compra do óleo vegetal. Enfim, nos parece que o setor de biodiesel vai estar nas mãos de quem tem matéria- prima competitiva e um modelo verticalizado.

Revista Biodieselbr - Como está a distribuição dessas quatro matérias-primas no país? Qual seria a solução ideal para a utilização delas?
Marcos Benzecry - O ideal seria cruzar as quatro culturas mais competitivas – aqui não estou considerando o pinhão-manso porque ainda não existem dados que permitam avaliação desta matéria-prima neste momento. Hoje, a soja está espalhada por todas as regiões do país. Já o girassol está concentrado no Sul e Centro-Oeste, e é uma cultura que pode e deve ser estimulada. O algodão é produzido especialmente no Centro-Oeste e no Nordeste. É competitivo, mas tem restrições, já que a matéria-prima é limitada pelo mercado de fibras. A produção de sebo bovino está, como grande parte dos frigoríficos, localizada no Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil – e aqui existe uma restrição: o biodiesel de sebo não deve ser usado em regiões muito frias, portanto, em algumas épocas do ano isso pode ser um problema. Acho que para resumir, por enquanto a mais viável é a soja e eventuais misturas entre as outras matérias-primas mencionadas.

Revista Biodieselbr - Hoje, cerca de 90% do óleo vegetal produzido no país vem da soja. E o senhor afirmou que de fato ela é uma das matérias-primas competitivas neste mercado. Mas quais são as desvantagens dessa dependência da soja?
Marcos Benzecry - A maior desvantagem da soja é que ela tem um teor de óleo baixo em relação a outras matériasprimas. Um outro problema é que o preço do óleo é determinado pelo mercado internacional (Bolsa de Chicago), ou seja, ele é muito vulnerável a oscilações. Porém, como mencionado, ainda assim a soja é uma das quatro matérias-primas que têm condições de fazer um biodiesel competitivo, principalmente por sua disponibilidade.

Revista Biodieselbr - O estudo deu grande destaque à importância do uso de sebo bovino para a produção de biodiesel. Ele pode vir a ser mais usado?
Marcos Benzecry - O governo está investindo em mamona e dendê, enquanto o biodiesel de sebo é mais barato e poderia atender as regiões onde hoje são feitos cultivos dessas oleaginosas de forma mais acessível, mais barata – só que, com a utilização do sebo, não há incentivo à agricultura familiar – e este é um dos pilares do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel.

Revista Biodieselbr - Por que o estudo não avaliou o óleo de cozinha usado?
Marcos Benzecry - Porque só analisamos os produtos que têm sido utilizados com volume considerável no país. Entendemos que não existe nenhuma experiência com essa matériaprima trabalhando em grande escala e para atender o B2 no Brasil.

Revista Biodieselbr - O Brasil hoje enfatiza o uso de agricultura familiar na produção de matérias-primas para o biodiesel. É necessário fazer mudanças nessa área?
Marcos Benzecry - Hoje, apesar de ser um dos pilares do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel, a agricultura familiar no cultivo de matérias-primas não é economicamente atrativa. Por isso, os produtores usam o mínimo necessário para garantir o Selo Combustível Social. É preciso fazê-la mais atrativa. As formas de o Governo torná-la mais interessante aos produtores seriam: incentivar qualquer tipo de cultura, rever o percentual de obrigatoriedade de contratações para obter o Selo Combustível Social e rever o valor do incentivo. Este valor hoje não cobre os custos que o produtor tem para dar assistência ao agricultor familiar.

Revista Biodieselbr - A esperança de que o governo incentive vários tipos de cultura tem a ver com a mamona ter se mostrado pouco competitiva?
Marcos Benzecry - Sim, o governo hoje sabe que o biodiesel de mamona é muito caro mesmo com incentivos e está estudando como alterar as tributações para incentivar outros tipos de cultura.

Revista Biodieselbr - O senhor mencionou a necessidade de uma revisão nos percentuais de uso de agricultura familiar exigidos para se ter o Selo Combustível Social. Eles hoje são muito elevados? Qual seria o percentual ideal?
Marcos Benzecry - Não temos um cálculo do percentual ideal. Porém, existe uma percepção generalizada de que os números estariam muito altos em algumas regiões do país e isso acaba afugentando o interesse dos produtores. A sugestão para o governo é refazer os percentuais a partir do novo Censo Agropecuário, que deve ser divulgado pelo IBGE ainda este ano. Assim, alguns reajustes de percentual poderiamser feitos de acordo com a real oferta da agricultura familiar em cada região do país – hoje os números são baseados em um censo muito antigo (1995/96).

Revista Biodieselbr - Onde é melhor produzir biodiesel: perto da produção agrícola ou perto do consumo?
Marcos Benzecry - A localização da esmagadora de grãos é o mais importante nesta equação, porque o transporte dos grãos onera mais do que o do biodiesel. Para entender isso, basta pensar, por exemplo, que é preciso cerca de cinco toneladas de grãos de soja para produzir uma tonelada de biodiesel. É evidentemente mais barato transportar uma tonelada de combustível do que cinco toneladas de grãos. Sem contar que o biodiesel tem maior valor ag regado. Mas o melhor, volto a insistir, é ter um modelo verticalizado – com todas as etapas. A vantagem disso pode ser verificada nos leilões realizados em novembro de 2007, nos quais as empresas que arremataram a maior parte do volume foram as de produção verticalizada.

Revista Biodieselbr - Qual o estado/região que consegue produzir biodiesel mais barato? Por quê?
Marcos Benzecry - As regiões mais competitivas são Sul, Sudeste e Centro-Oeste. No Norte, o grande problema é a distância entre produtores e bases distribuidoras. No Nordeste, a produção agrícola é muito localizada no interior, por isso, a região também tem problemas com a distância em relação às bases distribuidoras.

Revista Biodieselbr - O biodiesel pesa mais que o diesel. Como transportar o biodiesel utilizando os mesmos caminhões sem onerar o preço? Já existem soluções para este problema?
Marcos Benzecry - Dependendo da matéria- prima do biodiesel, a densidade varia entre 0,87 kg/l (soja) e 0,92 kg/l (mamona). O diesel tem densidade de 0,85 kg/l. Então, é fato, quando se enche um tanque de biodiesel ele pesa mais. Como no Brasil existe a Lei da Balança, que determina pesos máximos das cargas que circulam nas rodovias, isso pode de fato onerar mais do que o inicialmente previsto. Dependendo do peso do caminhão e da densidade da matéria-prima do biodiesel, o transporte pode ficar acima do bruto total permitido. Existe uma tolerância de 5% nos postos de pesagem para evitar injustiças em caso de diferença de calibragem das balanças – mas não convém contar com isso. A Petrobras, a ANP e o Inmetro estão estudando uma forma de solucionar este problema. Mas, por ora, o que pode acontecer é de as distribuidoras terem que transportar menos quantidade de biodiesel pelo mesmo preço do frete.

Revista Biodieselbr - A rota metílica é hoje a mais usada na produção de biodiesel. O que está atrapalhando a utilização do etanol anidro de cana na produção de biodiesel?
Marcos Benzecry - Cerca de 50% da demanda nacional por metanol é importada (em grande parte do Chile) e o resto é produzido no Rio de Janeiro e em Camaçari. Já o etanol tem enormes usinas produtoras em São Paulo, Paraná e no Nordeste. À primeira vista, o mais rentável seria usar o etanol brasileiro nas usinas de biodiesel. Porém, na produção com etanol se consome cerca de 37% a mais de álcool do que com o metanol, além de apresentar algumas dificuldades adicionais no processo produtivo do biodiesel. Ou seja, quem opera com etanol gasta mais produto. Para ser competitivo em relação ao metanol, o etanol precisaria ser em média 25% mais barato. Porém, não há como garantir isso, já que o preço do produto oscila muito no mercado. A utilização do etanol só vale a pena hoje para uma usina que produza seu próprio etanol ao preço de custo.

Revista Biodieselbr - Na opinião do senhor, qual deveria ser o preço máximo do etanol para que as usinas passassem a utilizá-lo no lugar do metanol?
Marcos Benzecry - O preço máximo deveria ser de R$ 760 a tonelada ou R$ 0,60 o litro. Analisando o preço histórico deste ano, o litro do etanol anidro oscilou entre R$ 1,09 e R$ 0,66, principalmente em função da safra.

Revista Biodieselbr - E as cooperativas? Que lugar elas terão num panorama que exige a verticalização como garantia para um bom negócio?
Marcos Benzecry - De fato, o estudo mostrou que a cadeia verticalizada é muito importante para a sobrevivência do negócio. Porém, as cooperativas possuem em geral usinas pequenas e concluímos também que nestes casosa verticalização não é economicamente atrativa. Uma possibilidade seria o governo incentivar o financiamento para as cooperativas. Assim, existiria maior possibilidade de elas competirem com sucesso no mercado do biodiesel.

Revista Biodieselbr - De que forma é possível sobreviver com os atuais preços das matérias-primas?
Marcos Benzecry - Volto à importância de o produtor ter um esquema verticalizado – ter o controle de todos os processos da operação. Dessa forma, ele tem maior chance no mercado de biodiesel. Isso porque se o combustível não estiver dando lucro, ele pode “encerrar” a produção por um período e vender o óleo da oleaginosa ou o grão. O que for mais vantajoso e der maior margem (seja o grão, o óleo ou o biodiesel).

Revista Biodieselbr - Como o senhor analisa a exportação de biodiesel? Existe uma real possibilidade de exportação quando os custos de produção internos são superiores ao preço do biodiesel no mercado internacional?
Marcos Benzecry - Bem, a exportação só vai começar a existir de fato quando a demanda do mercado nacional estiver atendida. Aí, ela será um caminho natural. Existem, claro, algumas barreiras que precisam ser ultrapassadas. A principal delas é a diferença entre as especificações do Brasil, da União Européia e dos Estados Unidos (porém, neste ponto a ANP está revisando nossas especificações e elas devem ficar mais próximas das européias muito em breve). Por outro lado, para que as exportações sejam viáveis, o governo precisaria sem dúvida avaliar a possibilidade de fornecer incentivos aos empresários.

Revista Biodieselbr - Quais são hoje as principais dificuldades para que o Brasil exporte biodiesel? É preciso criar um Selo Exportação, já que as especificações brasileiras são diferentes das especificações européias e norte-americanas?
Marcos Benzecry - Na verdade, a idéia de um selo foi aventada no estudo. Porém, se a ANP conseguir que a nossa nova norma de qualidade fique próxima das especificações européias, aí o problema estaria solucionado. Porém, vale lembrar que qualquer usina pode atualmente produzir nas especificações européias e algumas que visam exportação já estão se preocupando com isso.