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A Vanguarda quer tirar o atraso


Isto É Dinheiro - 08 jun 2012 - 09:36

Poucas empresas brasileiras viveram em uma espécie de montanha-russa corporativa como a Vanguarda Agro, resultado da fusão entre a Maeda, a Brasil Ecodiesel e a antiga Vanguarda Brasil, para criar um colosso do agronegócio brasileiro. Ao longo do tempo, seus principais sócios – os investidores Salo e Helio Seibel, o empresário Otaviano Pivetta (controlador da antiga Vanguarda), Silvio Tini (ex-controlador da Brasil Ecodiesel) e o investidor espanhol Enrique Bañuelos – nunca se entenderam sobre a estratégia da companhia, que nasceu, em 2003, com a ambição de ser a estrela maior do emergente mercado de biocombustível derivado de mamona.
 
vanguarda080612bEsforço concentrado: Seibel (à esq.), acionista, e Moreira Franco, CEO, apostam na produção de soja, milho e algodão para fazer a Vanguarda, enfim, decolar.


Tanto que em sua trajetória teve seis presidentes, passou por diversas reestruturações e seu quadro societário teve seguidas alterações. A última delas foi a saída de Bañuelos. No início de maio, a Veremonte Participações, braço de investimentos do empresário no Brasil, vendeu, por R$ 42 milhões, sua fatia no negócio. Com isso, pôs um ponto-final na disputa com seu ex-sócio Pivetta, ficando com uma fatia reduzida a cerca de 3%. Bañuelos entrou na sociedade no fim de 2009, quando a companhia estava na “bacia das almas”, mergulhada em dificuldades. Um ano antes, a empresa havia passado por um duro processo de reestruturação, que resultou na redução de uma dívida de R$ 290 milhões.
 
Os bancos credores (Bradesco, Fibra, Fator e BMG) também concordaram em transformar uma parcela de R$ 72 milhões em ações. Foram esses papéis que acabaram nas mãos da Veremonte. Num primeiro momento, a saída de Bañuelos trouxe paz à Vanguarda Agro, que agora trabalha para recuperar o atraso e definir uma estratégia clara para o mercado. A primeira medida já foi tomada. Em abril, foram vendidas, por R$ 100 milhões, as unidades de biodiesel da Bahia e do Tocantins. Do vasto port-fólio da fabricante de biodiesel, que já chegou a reunir 63,3 mil hectares de terras, seis unidades industriais e cerca de dez centros de armazenagem, restaram apenas três usinas, no Maranhão, Ceará e Piauí. “O biodiesel deixou de ser uma prioridade para nós”, afirma Seibel, que se manteve como um dos controladores da Vanguarda Agro.
 
 vanguarda080612a “Hoje, os custos de aquisição da matéria-prima e do transporte do combustível tornam inviável produzir biodiesel no Brasil”, afirma Bento Moreira Franco, CEO da companhia. As disputas societárias apenas explicitaram o fracasso do modelo de negócio que deu origem à Brasil Ecodiesel. A mamona nunca rendeu o esperado em termos de produtividade. A substituição do insumo por óleo de soja também se revelou um fiasco, devido à disparada dos preços dos grãos. Mesmo com todas as reestruturações e abatimentos de dívida, a sangria provocada pela atividade se refletiu até 2011. No balanço do período, a Vanguarda Agro amargou prejuízo de R$ 187,2 milhões, dos quais R$ 161,1 milhões eram referentes à atividade de biodiesel.
 
“Nos próximos trimestres a situação deve se equilibrar, pois não teremos mais a influência do biodiesel”, diz Moreira Franco. “A aposta no plantio e comercialização de grãos com forte demanda externa foi uma decisão acertada”, diz o analista Rafael de Lima Filho, da Scot Consultoria. Os acionistas da Vanguarda, no entanto, ainda precisam superar uma série de obstáculos. O principal deles é o elevado endividamento de R$ 483,4 milhões, número que corresponde a oito vezes a geração de caixa anual, medido pelo Ebitda consolidado de 2011. Outra dificuldade é resgatar a credibilidade perante os investidores, ressabiados com as diversas mudanças de rota. A empresa também se ressente da inexistência de uma política clara de governança corporativa.
 
Hoje, apesar de a Vanguarda possuir um dos maiores patrimônios agrícolas do País – são 340 mil hectares – seus negócios não são cobertos pelos analistas do mercado financeiro. Nos últimos 12 meses, seus papéis se desvalorizaram em 60%, na Bovespa. Para melhorar a imagem, seus executivos e controladores têm feito um périplo por bancos e tradings, para falar desse novo momento da Vanguarda. Além disso, eles estão elaborando um novo modelo de governança, que inclui a criação de comitês estratégicos. Em meios às dificuldades, Moreira Franco acredita que existe um clima de boa vontade do mercado em relação à companhia. “Não deixamos de plantar por falta de insumos e nenhum banco nos negou crédito”, diz ele.

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Por Rosenildo Gomes FERREIRA
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