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Para Abiove, ‘oportunismo’ da Petrobras pode afastar investimentos de esmagadores


BiodieselBR.com - 14 dez 2020 - 16:37

Um avanço “oportunista” da Petrobras sobre mercado de biocombustíveis poderá levar – como efeito colateral – a uma redução em novos investimentos a atividade de esmagamento. Essa foi a avaliação feita pelo presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), André Nassar, durante um encontro com jornalistas realizado nessa segunda-feira (14).

Representantes dos fabricantes de biodiesel e da Petrobras vêm se estranhando publicamente desde que a petroleira resolveu desengavetar o HBio e defender que o produto resultante possa ser contabilizado como parte do mandato de biodiesel.

Patenteado pela Petrobras em 2006, a tecnologia permite coprocessar óleos e gorduras renováveis juntamente com petróleo dentro das refinarias gerando um produto chamado diesel RX que já sairia de fábrica com uma parcela renovável. Segundo o gerente geral de Marketing da Petrobras, Sandro Barreto, disse na edição mais recente da Conferência BiodieselBR a ideia não seria substituir completamente o biodiesel, mas permitir o aproveitamento de “folgas” nas unidades de hidrotratamento de refinarias. O produto final ainda teria que ser misturado com biodiesel para atingir o percentual obrigatório exigido em lei.

Por exemplo: se a Petrobras vendesse seu diesel RX com uma carga renovável de 5%, as distribuidoras ainda teriam que adicionar 7% de biodiesel para chegar ao B12. Dessa forma, cada metro cúbico do produto final seria composto de 880 litros de diesel fóssil, 50 litros do diesel renovável da Petrobras e 70 de biodiesel.

Menos investimento

A perspectiva de que a Petrobras abocanhe parte do seu mercado de biodiesel de uma hora para outra nunca agradou aos fabricantes que veem risco à própria sobrevivência do setor.

Para André Nassar, no entanto, os reflexos poderiam ir além da indústria de biodiesel. O negócio de esmagamento também se tornaria menos interessante. Segundo ele, com a Petrobras no mercado diminuiria a oportunidade que os esmagadores hoje têm de agregar mais valor ao óleo que eles mesmo produzem por meio da produção de biodiesel. “Hoje, faz sentido investir em esmagamento porque também produzimos biodiesel. Na nossa visão isso vai reduzir a atratividade do negócio”, critica acrescentando que nem o fato da Petrobras passar a absorver mais óleo no mercado compensaria a perda em termos de agregamento de valor.

Ainda segundo o executivo da Abiove, a mudança acabaria concentrando o mercado em poucos atores. “O biodiesel consegue agregar valor em todo o território brasileiro. O produto da Petrobras concentraria essa agregação de valor em poucas unidades”, completa.

Importação

Haveria ainda, segundo Nassar, o risco da petroleira decidir buscar sua matéria-prima fora do país. “Pode ser que a Petrobras prefira importar seu óleo”, reclama apontando para a recente sinalização dada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) de que a liberação do uso de matérias-primas importadas para a produção de biodiesel pode se tornar definitiva.

Desde o lançamento do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB), todo o biodiesel vendido no país tinha que ser fabricado a partir de óleos e gorduras nacionais. Cerca de um mês atrás essa obrigatoriedade foi abolida, em tese, como uma resposta à baixa disponibilidade de soja no mercado interno nesse final de ano.

“Entendemos que essa decisão [de liberar a importação] era desnecessária (...) mas a decisão já está tomada. Para o governo parece ter um sentido político”, resigna-se.

Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com
Com informações adicionais da Reuters