Margem fraca no biodiesel derruba ações da 3tentos em mais de 20% em dois pregões
As ações da 3tentos acumularam queda superior a 20% em apenas dois pregões na B3. Depois de despencar 16% na terça-feira (28), o papel recuava mais de 6% por volta das 12h desta quarta (29), cotado a R$ 12 — o menor patamar em quase dois anos. O estopim foram reuniões de executivos da companhia com analistas dos principais bancos, nas quais a empresa da família Dumoncel indicou que o balanço do segundo trimestre, previsto para 14 de agosto, virá bem abaixo do que o mercado projetava para o negócio de esmagamento de soja e produção de biodiesel, segundo apurou o The AgriBiz.
Biodiesel no centro da frustração
Parte do sell side já antecipava alguma deterioração nos números por conta da piora dos preços do biodiesel nos últimos meses. O recado dos executivos, porém, indicou um tombo maior do que as projeções sugeriam.
No Citi, as estimativas para a divisão de biocombustíveis contavam com a implementação do B16 — que até agora não saiu do papel —, enquanto a partida da produção de etanol de milho da companhia sofreu atrasos, avalia o analista Gabriel Barra. O banco cortou o preço-alvo da ação de R$ 20 para R$ 17 e não descarta uma redução do guidance nas operações de biocombustíveis.
A aritmética da nova planta de biodiesel também virou contra a empresa. A 3tentos avaliava a compra de óleo de soja de terceiros para processar no início da operação, mas a estratégia deixou de ser viável: o óleo encareceu nos últimos meses, enquanto o preço do biocombustível recuou — um aperto de margem que atinge todo o parque produtor, mas pesa mais sobre quem depende de matéria-prima comprada.
Esmagamento: lucro unitário pode cair a US$ 75 por tonelada
No esmagamento, relatório do BTG divulgado na manhã desta quarta lembra que o negócio historicamente entrega lucro bruto unitário entre US$ 80 e US$ 90 por tonelada. No primeiro trimestre, a 3tentos alcançou US$ 106 por tonelada; no segundo, o número pode recuar a US$ 75. Se confirmado, o movimento representaria cerca de R$ 100 milhões a menos no lucro bruto do trimestre, calculam os analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla.
O banco projeta receita líquida consolidada de R$ 4 bilhões no período, alta de 13% sobre o ano anterior — mas com EBITDA caindo 48%, para R$ 115 milhões, e margem de 2,9%, a pior em dois anos caso se confirme. Outro ponto de atenção é o avanço das despesas com vendas, gerais e administrativas, linha que já havia incomodado no primeiro trimestre.
Bancos mantêm recomendação de compra
Apesar do susto, BTG e Citi mantiveram a recomendação de compra. Para a equipe do BTG, a deterioração não é estrutural: as margens do segmento industrial da companhia são "inerentemente voláteis", e uma queda de cerca de 15% no valor de mercado parece excessiva para um tropeço trimestral com implicações limitadas sobre a rentabilidade de longo prazo. O banco também considera atrativo o múltiplo de 6 vezes o lucro projetado para 2027.
Ruído de governança
O episódio deixou desconforto adicional no mercado em relação à comunicação da companhia. As reuniões com analistas, sem divulgação simultânea do conteúdo aos demais investidores, levantaram questionamentos sobre assimetria de informações. Encontros do tipo são autorizados pela CVM e prática comum, mas a Resolução 44 da autarquia determina que informações relevantes sejam levadas ao mercado por meio de fato relevante.
Na B3, a 3tentos está avaliada em cerca de R$ 6 bilhões.
Para o setor de biodiesel, o caso serve de termômetro: com o calendário da mistura obrigatória parado aquém do que o mercado precificava e o óleo de soja pressionando os custos, a margem industrial das usinas passou a ditar não apenas o resultado das produtoras — mas também o humor da Bolsa com o setor.
Com informações do The AgriBiz


.gif)

