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L75: De onde saiu toda esta demanda?

Reposição de estoques operacionais e ansiedade em relação ao sexto bimestre explicam demanda hiperaquecida

BiodieselBR.com 9 min de leitura

Tudo relacionado ao Leilão 75 foi bem estranho – e o certame ainda não acabou. No final desta semana, será aberta uma rodada complementar com o objetivo de reforçar a oferta de biodiesel entre 21 de setembro e o final do bimestre. Ou seja, um processo que, até agora, já fechou a compra de 1,19 bilhão de litros de biocombustível por inéditos R$ 6 bilhões terá mais uma chance para movimentar ainda mais produto. E dinheiro! Mas, entre todas as dúvidas que o L75 suscita, uma em particular se impõe: por que, afinal de contas, as distribuidoras compraram tanto biodiesel?

O L75 não foi o leilão que mais comprou biodiesel. Pelo menos, não até agora. Esta distinção ainda cabe ao L73, que – entre pregão regular e complementar – negociou um pouco mais que 1,26 bilhão de litros. Qualquer mudança no ranking vai depender do que acontecer L75C.

A grande diferença é a quantidade de óleo diesel que o certame mais recente permite colocar no mercado. Em função da redução da mistura de B12 para B10, anunciada pelo ministro Bento Albuquerque no dia último dia 13, as distribuidoras têm biodiesel suficiente para vender até 11,9 bilhões de litros de óleo diesel. Este seria – de longe – o maior volume comercializado no país num único bimestre; superando, por uma margem de robustos 7,2%, os 11 bilhões de litros que foram consumidos no quinto bimestre de 2014.

Tudo relacionado ao Leilão 75 foi bem estranho – e o certame ainda não acabou. No final desta semana, será aberta uma rodada complementar com o objetivo de reforçar a oferta de biodiesel entre 21 de setembro e o final do bimestre. Ou seja, um processo que, até agora, já fechou a compra de 1,19 bilhão de litros de biocombustível por inéditos R$ 6 bilhões terá mais uma chance para movimentar ainda mais produto. E dinheiro! Mas, entre todas as dúvidas que o L75 suscita, uma em particular se impõe: por que, afinal de contas, as distribuidoras compraram tanto biodiesel?

O L75 não foi o leilão que mais comprou biodiesel. Pelo menos, não até agora. Esta distinção ainda cabe ao L73, que – entre pregão regular e complementar – negociou um pouco mais que 1,26 bilhão de litros. Qualquer mudança no ranking vai depender do que acontecer L75C.

A grande diferença é a quantidade de óleo diesel que o certame mais recente permite colocar no mercado. Em função da redução da mistura de B12 para B10, anunciada pelo ministro Bento Albuquerque no dia último dia 13, as distribuidoras têm biodiesel suficiente para vender até 11,9 bilhões de litros de óleo diesel. Este seria – de longe – o maior volume comercializado no país num único bimestre; superando, por uma margem de robustos 7,2%, os 11 bilhões de litros que foram consumidos no quinto bimestre de 2014.

Em relação ao mesmo período do ano passado, o número representaria um salto de praticamente 15,4% nas vendas, algo fora do comum para os padrões do mercado de diesel. Nos 123 bimestres que constam dos registros da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), em apenas oito houve crescimento de dois dígitos na comparação anual e só um – o 2º bimestre de 2004 – teve desempenho superior, com crescimento anual de 16,9%.

Embora sejam claramente positivos, os números mais recentes do mercado de diesel não parecem apontar na direção de um final de ano de euforia. A impressão que fica é que o mercado se aprontou para uma festa onde ninguém sabe onde vai acontecer. “Estamos convencidos de que a demanda [no L75] foi superior à demanda do diesel b no quinto bimestre (...) não há mercado para que esses 11,9 bilhões de litros sejam consumidos”, diz o presidente executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), André Nassar, resumindo o sentimento geral.

Furando o teto

A própria ANP reconhece que foi pega no contrapé pelo nível de demanda das distribuidoras. Questionada por BiodieselBR.com, a agência reguladora informou que esperava que o L75 movimentasse entre 1,04 e 1,10 bilhão de litros. Isso colocaria o teto da demanda do quinto bimestre um pouco acima de 11 bilhões de litros, o que representaria uma alta de até 7,1% sobre 2019.

As distribuidoras esperam um resultado mais modesto que este. A Associação das Distribuidoras de Combustíveis (Brasilcom) informou que a demanda do quinto bimestre deve ficar entre 4% e 5% acima da registrada no ano passado. Traduzido em volume, isto daria cerca 10,8 bilhões de litros, permitindo que as distribuidoras comprassem quase 112 milhões de litros de biodiesel a menos e economizassem perto de R$ 570 milhões. Mesmo assim, o diretor institucional da Brasilcom, Sergio Massillon, conta que o segmento já esperava por um leilão difícil. “Para nós, não foi surpresa a disputa forte e demorada pelo produto ofertado”, garante.

A explicação para um movimento tão pouco ortodoxo parece vir dividida em duas partes: a primeira tem a ver com o passado recente do setor; a segunda, com incertezas em relação ao futuro. Essa é leitura de Marcus D’Elia, sócio diretor da Leggio, consultoria especializada no mercado de petróleo e gás. “Parte das compras no L75 foi para repor estoques operacionais. Também existe uma preocupação grande a respeito dos preços do biodiesel no último bimestre, o que pode ter levado a uma antecipação das compras”, opina.

Em parte, o mercado ainda está sentido os efeitos do Leilão 72. No terceiro trimestre, as entregas de biodiesel só conseguiram atender à demanda “tirando tinta da trave”.

Mas nem o volume recorde do L73 parece ter sido suficiente para normalizar a situação das distribuidoras. De acordo Sérgio Massillon, a “recomposição de estoques” foi mesmo um dos fatores que turbinaram a demanda no Leilão 75.

Gato escaldado

O sócio fundador da Raion Consultoria, Eduardo Melo, também avalia que o somatório entre o começo conturbado do leilão e o trauma do terceiro bimestre pode ter ajudado a catalisar a situação.

A oferta das usinas na Etapa 2 do processo foi claramente insuficiente para atender o B12, precipitando o anúncio da redução da mistura obrigatória pelo MME.

Segundo Melo, o mercado interpretou a decisão como um sinal de que poderia faltar biodiesel de novo e resolveu se precaver. “O mercado ficou assustado, há poucos meses algumas distribuidoras tiveram que restringir suas vendas por falta de biodiesel em algumas praças. O movimento de arrematar mais [biodiesel] também se deve a isso”, avalia.

De olho no futuro

Incertezas em relação ao futuro imediato do mercado também tiveram seu peso. Apesar de ter assumido a liderança isolada do mercado global de soja, o Brasil deve fechar o ano raspando os grãos que ainda sobraram no fundo dos silos. Tudo graças a uma taxa de câmbio que tornou a exportação praticamente irresistível.

Os dados mais recentes da Abiove indicam que o país deverá encerrar o ano com menos de 420 mil toneladas de soja em grão estocadas, o menor volume da série histórica. “Isso acendeu o sinal amarelo para o pessoal das distribuidoras. Eles resolveram comprar agora porque não sabem como será dezembro”, pontua André Nassar, acrescentando que este foi um movimento mais pronunciado entre as grandes distribuidoras, que possuem mais tancagem e caixa para formar estoques. O tamanho deste efeito deve aparecer conforme a ANP publique os dados do mercado. “As retiradas de setembro e outubro vão deixar mais claro quanto biodiesel está sendo carregado [para o sexto bimestre]”, complementa.

Segundo Marcus D’Elia, da Leggio, o movimento das distribuidoras de antecipar parte de suas compras de biodiesel seria motivado pelo receio de aumentos ainda maiores nos preços da oleaginosa. O receio se justifica pelas contas do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea): a soja em grão já acumula alta superior a 50% desde o começo do ano.

O problema é que o interesse das distribuidoras pela estocagem biodiesel se chocou com um momento em que as usinas retraíram sua oferta, justamente por causa da relação pouco favorável entre o preço da soja e os Preços Máximos de Referência (PMRs), definidos pela ANP. “O incentivo para a oferta foi baixo. Por causa dos PMRs, as usinas tiveram que fazer uma conta que nem sempre foi satisfatória”, lamentou André Nassar.

O resultado foi um leilão que entrou em curto-circuito. As negociações se prolongaram por uma semana, puxando o preço médio do biodiesel para inéditos R$ 5.067,67/m³, com algumas usinas quebrando a barreira dos R$ 6.000/m³. “Algumas das distorções do Leilão 75 são realmente difíceis de explicar. Ninguém espera que os preços [do biodiesel] se estabilizem nesses patamares”, ressalta D’Elia.

Em busca de uma solução

Há um esforço para que a situação não se repita. No final de agosto, o MME reativou o Comitê de Monitoramento do Abastecimento de Biodiesel (CMAB). O organismo criado no começo de 2017 para nivelar informações entre todos os atores do mercado ainda não havia realizado nenhuma reunião neste ano.

Dentro do governo federal também há uma movimentação para redesenhar todo o sistema de negociação de biodiesel. Há cerca de um mês, o secretário de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis do MME, José Mauro Coelho, confirmou que os leilões deverão ser substituídos por um mercado aberto até 2022. A proposta agrada às distribuidoras ligadas ao Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP).

“O IBP entende que há espaço para se repensar o modelo atual dos leilões, garantindo maior liberdade de comercialização entre os agentes e possibilitando que o mercado regule oferta e demanda”, diz por meio de nota. Para o curto prazo, a entidade defende a diminuição do percentual de mistura obrigatória e a liberação de importações de biodiesel.

Os fabricantes de biodiesel defendem o diálogo. “Não queremos viver essa mesma situação no Leilão 76. Nós queremos um leilão normal, que comece e termine. Para isso, temos que ter clareza sobre a demanda, os estoques e a capacidade de oferta; sem demanda inflada por outros fatores”, pontua André Nassar. “Conseguir isso vai exigir capacidade de negociação do MME e da ANP”, encerra.

Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com

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