As duas matérias-primas mais importantes para a indústria nacional de biodiesel
Historicamente o óleo de soja e o sebo bovino são a fundação sobre a qual a indústria de biodiesel foi construída no Brasil. E, até hoje, são essas duas matérias-primas que garantem o lastro para que o setor funcione sem maiores sobressaltos. Acompanhar como está a oferta de ambas é fundamental para saber quanto as usinas poderão produzir – uma questão fundamental se quisermos mesmo sair do B10 que caminhar na direção do B15.
Para tentar entender as perspectivas – e os limites – dessas duas fontes de matéria-prima, a Conferência BiodieselBR 2022 recebeu a analista sênior do Rabobank, Marcela Marini; e o presidente da Organização Mundial de Reciclagem Animal (WRO), Lucas Cypriano, para participarem do 6º painel do evento Matérias-Primas do Biodiesel em 2023.
Sem pressa
De acordo com Marcela Marini – analista do Rabobank, banco holandês que se dedica ao financiamento do agronegócio –, nos últimos anos as margens da soja têm se mantido acima da média. Como consequência isso tem alimentado o apetite por investimentos entre os sojicultores. “Temos tido vendas recordes de máquinas”, diz antecipando que as boas margens tendem a se repetir ainda por esse ano.
Historicamente o óleo de soja e o sebo bovino são a fundação sobre a qual a indústria de biodiesel foi construída no Brasil. E, até hoje, são essas duas matérias-primas que garantem o lastro para que o setor funcione sem maiores sobressaltos. Acompanhar como está a oferta de ambas é fundamental para saber quanto as usinas poderão produzir – uma questão fundamental se quisermos mesmo sair do B10 que caminhar na direção do B15.
Para tentar entender as perspectivas – e os limites – dessas duas fontes de matéria-prima, a Conferência BiodieselBR 2022 recebeu a analista sênior do Rabobank, Marcela Marini; e o presidente da Organização Mundial de Reciclagem Animal (WRO), Lucas Cypriano, para participarem do 6º painel do evento Matérias-Primas do Biodiesel em 2023.
Sem pressa
De acordo com Marcela Marini – analista do Rabobank, banco holandês que se dedica ao financiamento do agronegócio –, nos últimos anos as margens da soja têm se mantido acima da média. Como consequência isso tem alimentado o apetite por investimentos entre os sojicultores. “Temos tido vendas recordes de máquinas”, diz antecipando que as boas margens tendem a se repetir ainda por esse ano.
A Guerra Russo-Ucraniana deve garantir as margens também este ano. Como o país europeu é o maior produtor de girassol – a terceira oleaginosa mais importante do mundo – a soja e seus produtos bem se mantendo apreciados.
Os bons resultados financeiros têm feito com que os agricultores brasileiros aumentem suas apostas na soja. Com isso, o Rabobank está bastante otimista em relação à safra 2022/23. A projeção oficial seja de 149 milhões de toneladas. “De maneira geral o plantio está indo muito bem, com as vendas de máquinas vem impactando o ritmo dos trabalhos”, reconhece Marcela indicando que a colheita pode chegar a 158 milhões de toneladas caso o clima seja perfeito.
Não quer dizer que não haja problemas no horizonte caso aconteça uma quebra mais séria nos estados da Região Sul. “A maioria dos modelos climáticos aponta para grande probabilidade de um La Niña, seria o terceiro seguido, afetando os resultados do Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul”, reconhece avaliando que isso poderia fazer com a que a colheita brasileira ficasse em 135 milhões de toneladas.
Precificado
O risco de uma quebra vem segurando os preços no mercado internacional. “Quando o mercado entender que esse risco passou, poderemos ver preços mais baixos. Até lá o mercado vai precificar a quebra”, afirma.
Maior consumidora de soja do mundo, a China também não tem apresentado um cenário dos mais favoráveis. “As margens de esmagamento estão deprimidas na China, onde os números têm se mantido negativos por um bom tempo”, antecipa afirmando que isso reduz não apenas os volumes embarcados para o mercado chinês, mas também o valor pago pelos compradores.
Apesar disso, Marcela vê uma margem relativamente pequena para uma queda mais pronunciada nos preços dos grãos em função dos níveis baixos de estoques. “Em 2023, os estoques dos Estados Unidos de soja, milho e trigo estarão baixos, o que deve implicar em preços elevados”, garante. Segundo ela, só depois da confirmação da safra brasileira e de uma manutenção na deprimida demanda chinesa, teremos espaço para uma recomposição dos estoques e para preços mais baixos.
Gordura Animal
Criada em 1999 para consolidar informações sobre o mercado global de reciclagem animal e representá-lo em instâncias internacionais, a WRO estima que globalmente os recicladores colocam 12,9 milhões de toneladas de farinhas e 10,9 milhões de toneladas de gorduras.
Segundo Lucas Cypriano, a participação da gordura animal vem decaindo no mercado total – isso apesar do volume de óleos e gorduras animais ofertado estar crescendo. No começo dos anos 1960, as gorduras animais representavam praticamente metade da oferta total. Em 2019, a participação havia caído para apenas 11%.
Essa perda de espaço relativo reflete mudanças no mercado consumidor. Até meados dos anos 1960, o mercado de higiene e limpeza era o destino mais importante para as gorduras animais, principalmente por causa do elevado consumo de sabão em barra que, mais tarde, começou a ser trocado por sabões em pó e líquidos.
O uso de gorduras animais na alimentação – a banha suína chegou a ser a fonte mais importante de óleos alimentares – também recuou de forma acelerada a partir de meados dos anos 1990. O material, então, começou a migrar para os mercados de alimentação animal e para a produção de biocombustíveis. “Os números não mostram arrefecimento da demanda global de biodiesel e diesel verde. A demanda está subindo na Indonésia, nos Estados Unidos e na Europa. O Brasil é o único país que reduziu a demanda”, conta acrescentando que as políticas vêm incentivando matérias-primas de baixa emissão de carbono, o que aumenta a demanda por gorduras animais.
Isso vem redesenhando os fluxos de gordura animal em termos mundiais. “Os Estados Unidos passaram a ser importadores líquidos de gorduras animais e está abrindo mercado para exportação”, diz Lucas informando que, historicamente, os EUA são exportadores do produto. “O mercado de gordura animal não consegue acompanhar essa demanda”, avalia.
Além da demanda atual de biodiesel – estimada em 50 milhões de toneladas este ano –, as projeções indicam que a produção de diesel verde e de biocombustíveis para aviação deve explodir nos próximos anos. Até o final da década a produção de diesel verde deverá atingir 23 milhões de toneladas enquanto a de bioquerosene deverá chegar a 57 milhões de toneladas até 2050. “A demanda por matérias-primas para matérias-primas consideradas de baixa emissão de carbono será grande” afirma Lucas.
Para atender à essa demanda por matérias-primas sustentáveis, Lucas espera um salto nos investimentos do setor de reciclagem animal. “Hoje, com os equipamentos que usamos, as farinhas ainda têm 12% de gordura. Vamos precisar de equipamentos mais eficientes para fazer a separação”, completa.
Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com