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Caramuru está fazendo investimentos de R$ 115 milhões


Valor Econômico - 17 jan 2019 - 08:57 - Última atualização em: 21 jan 2019 - 18:31

Assediada nos últimos anos por investidores interessados em adquirir uma participação em seu capital ou em incluí-la em parcerias ou joint ventures, a Caramuru Alimentos, ainda uma das maiores processadoras de grãos de capital nacional, continua a procurar maneiras de reduzir custos e agregar valor a seus produtos e, se nenhuma proposta interessante aparecer, seguir seu caminho por conta própria.

Resultados recentes sugerem que a estratégia vem dando certo. Segundo César Borges de Sousa, vice-presidente da companhia familiar presidida por seu irmão, Alberto, em 2018 o faturamento cresceu 13,5% em relação ao ano anterior, para R$ 4,2 bilhões, o resultado líquido voltou a ser positivo, tônica de seus balanços da última década, e projetos relevantes foram colocados em marcha.

É verdade que o comportamento do mercado de derivados de soja, seu carro-chefe, foi favorável durante boa parte do ano passado, graças sobretudo à quebra de safra na Argentina, grande exportadora de farelo e óleo. Essa realidade tende a mudar neste ciclo 2018/19, com a recuperação da oferta argentina, mas, para Sousa, o importante foi ter aberto as velas quando os ventos estavam favoráveis.

Do ano passado para cá, diz ele, a Caramuru deu início a dois projetos que resultarão em novidades em seu dia a dia. O mais importante envolve a produção de etanol a partir do melaço de soja na fábrica de Sorriso, Mato Grosso. Sousa realça, ainda, os aportes na produção de glicerina na unidade de Ipameri, Goiás. Ainda em Ipameri, uma nova linha de farelo de elevado teor proteico está sendo implantada e a fábrica de biodiesel passa por modernizações. Somadas às melhorias logísticas na região Norte do país, os investimentos em curso totalizam quase R$ 245 milhões.

Com os R$ 115,2 milhões que estão sendo aplicados para iniciar a produção de etanol a partir do melaço de soja em Sorriso – uma iniciativa pioneira no mundo –, a Caramuru pretende tornar a linha de produção de concentrado proteico de soja (SPC) localizada na unidade mato-grossense autossuficiente em combustível. Ou seja, o etanol de soja não vai gerar receita para a empresa, mas reduzirá custos.

Já a glicerina refinada que sairá de Ipameri como subproduto do biodiesel será um negócio novo, que engordará o portfólio com um produto usado principalmente por indústrias farmacêuticas, de cosméticos e alimentícia. A ideia da Caramuru é vendê-la no país e conquistar novos clientes no mercado externo, fundamental para seus negócios e onde a diversificação se torna uma vantagem competitiva.

Do faturamento do ano passado, equivalente, nas contas da companhia, a US$ 1,2 bilhão, as exportações colaboraram para US$ 557 milhões, 8% mais que em 2017. Conforme Sousa, o farelo de soja puxou os embarques: foram US$ 138 milhões em vendas de farelo não transgênico e outros US$ 128 milhões provenientes do produto feito a partir de soja geneticamente modificada, além de US$ 46 milhões em pellets. Proteínas concentradas de soja, outros subprodutos e o próprio grão, que rendeu US$ 107 milhões, completam o valor.

Conforme Sousa, o projeto da glicerina está sendo financiado com recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO) e do Banco do Brasil, mesmas fontes que irrigam os R$ 14,6 milhões que estão sendo gastos na implantação da nova linha de farelo de soja de elevado teor proteico também em Ipameri, que terá capacidade para 435 mil toneladas anuais, e os R$ 40 milhões destinados às melhorias na fabricação de biodiesel na planta.

No caso dos quase R$ 45 milhões direcionados à otimização da logística para tornar viável o transbordo rodo-hidroviário nos portos de Itaituba, no Pará, e Santana, no Amapá, e incrementar as exportações pelo Norte do país, as fontes de financiamento são do Fundo Constitucional de Financiamento do Norte (FNO) e o Banco da Amazônia. “Com esse investimento, reduziremos o custo do frete de farelo de soja não transgênica para o mercado europeu”, afirma Sousa.

Em tempos de acirramento da concorrência entre grandes tradings multinacionais como Cargill, Bunge, Louis Dreyfus Company (LDC), ADM e Cofco, entre outras que faturam dezenas de bilhões de dólares por ano, a Caramuru apostou em “comer pelas beiradas” e em nichos valorizados de mercado e até agora foi bem-sucedida. Como deixou claro o vice-presidente da companhia nesta entrevista ao Valor, é a única alternativa para resistir ao assédio.

Fernando Lopes – Valor Econômico