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Glicerina

Metanol e glicerina: eficiência das usinas e acidez da matéria-prima podem explicar inconsistências


BiodieselBR.com - 15 ago 2012 - 17:49
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Na semana passada, o portal BiodieselBR publicou uma reportagem apontando uma série de inconsistências nos dados declarados pela indústria de biodiesel para a edição 2012 do Anuário Estatístico da ANP. Pelo jeito, a explicação pode ser relativamente simples: usinas com processos de produção que podem ser melhorados e a elevada acidez da matéria-prima utilizada.

Antes vamos rememorar os fatos. Existe um aparente desencontro entre o consumo de metanol e a produção de glicerina em relação à produção de biodiesel em diversos estados brasileiros. Em Rondônia, por exemplo, as usinas do estado produziram cerca de uma vez e meia a glicerina e consumiram mais que o dobro do metanol que seria de se esperar em relação à sua produção de biodiesel em 2011. Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e Tocantins também apresentaram correlações problemáticas nessas três grandezas, locais onde justamente predominam usinas de pequeno e médio porte.

Os números básicos são públicos e, para que os leitores do portal possam entender direito a situação, o portal BiodieselBR organizou as informações numa planilha com todas os dados de produção de glicerina, biodiesel e consumo de metanol (veja tabela ao final desta reportagem).

A assessoria de imprensa da Aprobio procurou BiodieselBR para prestar os esclarecimentos em nome de sua associada AmazonBio – usina de Rondônia com 32,4 milhões de litros em capacidade. A entidade atribui as distorções observadas à dificuldades na fabricação a partir do sebo bovino associada e à impurezas contidas na glicerina que sobram do seu processo de produção. “No caso específico de Rondônia, o insumo principal é o sebo bovino, que possui alto índice de impurezas, acidez e umidade. As especificações do biodiesel, conforme requisitos da ANP exige um alto teor de éster, que neste caso é obtido pelo uso de excesso de metanol. A glicerina resultante do processo, e declarada, encontra-se carregada de impurezas, matéria-prima não convertida e água”, informa por email. 

Metanol
O professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília, Paulo Suarez, avalia que o problema não é exatamente do sebo bovino, mas está relacionado à acidez da matéria-prima utilizada. “Se uma usina usa um óleo mais ácido, vai precisar de mais metanol e, dependendo da tecnologia que ela usar, vai precisar repetir as reações 3 ou 4 vezes para conseguir um bom rendimento. Quanto mais ácido o óleo, maior o consumo de metanol”, explica.  Ele acrescentou que boa parte das usinas preferem trabalhar dessa forma, em vez de melhorar a qualidade da matéria-prima, tratando-a de antemão.

Outro especialista ouvido por BiodieselBR, o pesquisador do Centro Tecnológico de Minas Gerais (Cetec) Lincoln Cambraia Teixeira, atesta que é normal as empresas usarem 20% ou mais de metanol para garantir que as reações saiam como esperado. “Você tem que por metanol em excesso e, depois, as empresas precisam fazer a recuperação desse material. A quantidade que vai se recuperar vai depender da tecnologia que as empresas tiverem”, explica. Ele informa que será nessa fase de recuperação que os volumes de reagentes vão se aproximar mais da relação de 1 para 10 prevista na estequiometria da transesterificação.

Glicerina
Se a variação em relação ao consumo de metanol no processo produtivo é esperada, o mesmo não acontece em relação à produção de glicerina que, segundo Paulo Suarez, deve ficar em 10% do volume de matérias-primas que entram no processo produtivo qualquer que seja o caso.

Há, contudo, um ponto cego nos dados do anuário estatístico da ANP – ele não diferencia o que pode ser chamado de glicerina. Isso deixa a critério das usinas se elas vão declarar a glicerina bruta que sai dos reatores misturada com água e outras impurezas que modificam o volume esperado ou se o número representa um produto mais limpo.

Na média nacional, a relação entre a glicerina e o biodiesel produzidos durante 2011 foi de 10,2%. Isso parece indicar que a maioria das unidades produtivas declara como glicerina um produto relativamente puro.

Segundo a declaração enviada pela Aprobio, na Amazonbio o valor reportado para a ANP “é maior porque refere-se a glicerina bruta que contém água, metanol livre, sabões graxos, ésteres, sais, etc. que são arrastados durante a separação da glicerina bruta do biodiesel ou produzidos nas etapas de pós tratamento da glicerina bruta”. Considerando-se a média brasileira de 2011, a glicerina produzida da empresa continha praticamente uma vez e meia o seu próprio volume em impurezas.

Conforme apurado por BiodieselBR, os investimentos necessários para melhorar a qualidade da glicerina que sobra do processo nem sempre são viáveis, especialmente em escalas menores de produção.

Embora isso afaste um pouco – embora não completamente – a suspeita de que pode haver usinas em vários estados do país produzindo mais biodiesel do que declara, também sinaliza que há usinas que não estão dando a devida atenção à partes do processo de fabricação e podem estar não apenas desperdiçando insumos como deixando seus produtos contaminados por metanol – produto, vale lembrar, dos mais tóxicos. “Não é toda usina que tem uma unidade de retífica de metanol. Deveriam, mas não são todas que têm”, alerta Suarez.





Fábio Rodrigues