
Alto custo da matéria-prima – leia-se óleo de soja – atrelado a Preços Máximos de Referência (PMRs) pouco compensatórios e redução no número de usinas participantes foram as justificativas apontadas pelas usinas para a baixa oferta durante a etapa regulamentar no 39º Leilão de Biodiesel, encerrado na última quarta-feira (08)
As usinas também consideram pouco adequada a forma como a ANP anunciou a realização do leilão complementar de biodiesel.
Alto custo da matéria-prima – leia-se óleo de soja – atrelado a Preços Máximos de Referência (PMRs) pouco compensatórios. Essa é uma das justificativas apontadas pelas usinas para a baixa oferta durante a etapa regulamentar no 39º Leilão de Biodiesel, encerrado na última quarta-feira (08). Por ser o certame de estreia do B7, o volume de 702 milhões de litros disponibilizado pelas usinas frustrou as expectativas e levou a ANP a anunciar um inédito leilão complementar.
O problema apontado por várias das usinas com quem BiodieselBR.com conversou a respeito teriam sido os preços. “A matéria-prima está muito cara aqui na nossa região e o preço de referência fica muito próximo do custo”, alega Paulo José Fuga, da usina gaúcha Biofuga.
“Aqui em Lucas [do Rio Verde] ainda está dando para levar. Mas em Rondonópolis, que fica próxima daqui, os preços da matéria-prima estão altíssimos. Com os preços de referência que a ANP anda colocando, não fecha a conta”, diz Francisco Flores, gerente de negócios da Fiagril.
A Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil (Aprobio) tenta relativizar a questão argumentando que, embora o histórico mostre que a oferta pelas usinas caia no último bimestre em função do período de entressafra da soja e da queda na demanda de óleo diesel que normalmente se verifica nos últimos meses de cada ano, a maioria das usinas ofertaram mais no L39. “As empresas normalmente ofertam menos no último bimestre. E não tivemos essa diminuição por parte das empresas”, diz Julio Minelli, diretor superintendente da Aprobio. “A maioria das empresas ofertaram a mais que no bimestre anterior”, afirma citando entre as usinas que elevaram suas ofertas a ADM, Biocamp, Biofuga, Bocchi, BSBios e Oleoplan.
Excluídas
Segundo Minelli, a oferta do L39 poderia ser maior se a Bunge, a Camera e a Noble estivessem na disputa.
No caso das duas primeiras, isso já era esperado. A Bunge ficou de fora do certame por estar com situação irregular junto à Receita Federal. Já a Camera havia anunciado que não participaria do leilão, logo depois de entrar em processo de recuperação judicial.
A grande surpresa foi a Noble que, embora tenha se habilitado, não ofereceu nem uma só gota no último leilão.
E tem mais gente que compartilha dessa opinião.
“Acho que o principal desequilíbrio foi a ausência das usinas”, acredita Carlos Omar Polastri, diretor executivo da Cesbra, usina situada em Volta Redonda (RJ). “A oferta não foi baixa, o que aconteceu foi a não participação de players que costumavam participar do processo licitatório e que não ofereceram nenhuma oferta sequer, especificamente neste leilão”, atribui Rodrigo Prosdócimo, presidente da usina mato-grossense Bio Óleo e vice-presidente da Aprobio.
Precipitação
Mas a grande polêmica do último certame acabou se desviando da baixa oferta para os desdobramentos decorrentes dela. Com receio de faltar biodiesel no mercado e de ver os preços subirem de forma descontrolada no decorrer do leilão, a ANP interviu de forma bastante incisiva.
Num primeiro momento, a agência aventou a possibilidade de realizar um leilão complementar, mas disse que só iria decidir a respeito depois de concluso o certame. Entretanto, ela optou por confirmar o leilão complementar no dia em que as etapas de aquisição das distribuidoras seriam iniciadas – a abertura do processo chegou a ser adiada para permitir o anúncio.
“Se ela não anunciasse as regras, teria no ar a possibilidade do sim ou não. Na hora em que ela anunciou que as distribuidoras poderiam comprar até 25% do que compraram, ela reduziu artificialmente a demanda para este leilão”, considera o diretor da Aprobio. “Quando a oferta foi muito grande, não houve nenhum movimento no sentido de equilibrar a oferta e demanda para não haver um derretimento de preço”, critica Minelli para quem houve uma precipitação por parte do órgão regulador. Segundo ele, o volume ofertado pelas usinas era suficiente para atender o 6º bimestre. “Tanto que sobraram 57 milhões de litros”, salienta.
Esse também é o entendimento das usinas ouvidas pela reportagem. “Não sou contra o leilão complementar. Mas a forma e o momento em que surgiu a ideia é que foi inoportuna e precipitada. Com isso, as distribuidoras foram autorizadas a comprar volumes menores no primeiro dia, onde os preços sempre são maiores. Creio se tratar no mínimo de uma atitude inconstitucional, principalmente se tratando de um leilão público”, considera Polastri, da Cesbra. “Não poderia ter mudado no meio do leilão. Deveria ter esperado a conclusão do leilão”, diz Fuga, da Biofuga.
A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) adota um tom mais ameno ressaltando que, no fim da história, o processo vai conseguir garantir a demanda do B7.
"A Abiove mantém acompanhamentos sistemáticos e permanentes das condições do mercado de oleaginosas no Brasil, desde o suprimento de matérias-primas até a oferta de biodiesel. As informações disponíveis até o momento mostram um resíduo de 57 mil m³ de biodiesel referentes ao L39, volume que comportaria a demanda tradicional do leilão de opções Petrobras”, afirma por e-mail Leonardo Zilio, assessor econômico da entidade. Segundo ele, o leilão complementar “poderá incluir quantidades adicionais do biocombustível ao mercado nacional”.
Para o diretor executivo da Cesbra, a medida adotada pela agência é inócua para resolver os problemas do setor de biodiesel. “Se empresas como Cooperbio, Bioverde, Grupal estivessem no mercado, a gente não estaria passando por esse problema de oferta. Não é fazendo leilão complementar que se resolve o problema. A ANP tem que procurar essas usinas que estão fora do mercado para saber o porquê elas não estão mais no segmento. A própria Petrobras [Biocombustível] amarga prejuízos trimestrais. A ANP está punindo os produtores, sem buscar a cerne da questão”, avalia Polastri.
Cátia Franco – BiodieselBR.com
As usinas também consideram pouco adequada a forma como a ANP anunciou a realização do leilão complementar de biodiesel.
Alto custo da matéria-prima – leia-se óleo de soja – atrelado a Preços Máximos de Referência (PMRs) pouco compensatórios. Essa é uma das justificativas apontadas pelas usinas para a baixa oferta durante a etapa regulamentar no 39º Leilão de Biodiesel, encerrado na última quarta-feira (08). Por ser o certame de estreia do B7, o volume de 702 milhões de litros disponibilizado pelas usinas frustrou as expectativas e levou a ANP a anunciar um inédito leilão complementar.
O problema apontado por várias das usinas com quem BiodieselBR.com conversou a respeito teriam sido os preços. “A matéria-prima está muito cara aqui na nossa região e o preço de referência fica muito próximo do custo”, alega Paulo José Fuga, da usina gaúcha Biofuga.
“Aqui em Lucas [do Rio Verde] ainda está dando para levar. Mas em Rondonópolis, que fica próxima daqui, os preços da matéria-prima estão altíssimos. Com os preços de referência que a ANP anda colocando, não fecha a conta”, diz Francisco Flores, gerente de negócios da Fiagril.
A Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil (Aprobio) tenta relativizar a questão argumentando que, embora o histórico mostre que a oferta pelas usinas caia no último bimestre em função do período de entressafra da soja e da queda na demanda de óleo diesel que normalmente se verifica nos últimos meses de cada ano, a maioria das usinas ofertaram mais no L39. “As empresas normalmente ofertam menos no último bimestre. E não tivemos essa diminuição por parte das empresas”, diz Julio Minelli, diretor superintendente da Aprobio. “A maioria das empresas ofertaram a mais que no bimestre anterior”, afirma citando entre as usinas que elevaram suas ofertas a ADM, Biocamp, Biofuga, Bocchi, BSBios e Oleoplan.
Excluídas
Segundo Minelli, a oferta do L39 poderia ser maior se a Bunge, a Camera e a Noble estivessem na disputa.
No caso das duas primeiras, isso já era esperado. A Bunge ficou de fora do certame por estar com situação irregular junto à Receita Federal. Já a Camera havia anunciado que não participaria do leilão, logo depois de entrar em processo de recuperação judicial.
A grande surpresa foi a Noble que, embora tenha se habilitado, não ofereceu nem uma só gota no último leilão.
E tem mais gente que compartilha dessa opinião.
“Acho que o principal desequilíbrio foi a ausência das usinas”, acredita Carlos Omar Polastri, diretor executivo da Cesbra, usina situada em Volta Redonda (RJ). “A oferta não foi baixa, o que aconteceu foi a não participação de players que costumavam participar do processo licitatório e que não ofereceram nenhuma oferta sequer, especificamente neste leilão”, atribui Rodrigo Prosdócimo, presidente da usina mato-grossense Bio Óleo e vice-presidente da Aprobio.
Precipitação
Mas a grande polêmica do último certame acabou se desviando da baixa oferta para os desdobramentos decorrentes dela. Com receio de faltar biodiesel no mercado e de ver os preços subirem de forma descontrolada no decorrer do leilão, a ANP interviu de forma bastante incisiva.
Num primeiro momento, a agência aventou a possibilidade de realizar um leilão complementar, mas disse que só iria decidir a respeito depois de concluso o certame. Entretanto, ela optou por confirmar o leilão complementar no dia em que as etapas de aquisição das distribuidoras seriam iniciadas – a abertura do processo chegou a ser adiada para permitir o anúncio.
“Se ela não anunciasse as regras, teria no ar a possibilidade do sim ou não. Na hora em que ela anunciou que as distribuidoras poderiam comprar até 25% do que compraram, ela reduziu artificialmente a demanda para este leilão”, considera o diretor da Aprobio. “Quando a oferta foi muito grande, não houve nenhum movimento no sentido de equilibrar a oferta e demanda para não haver um derretimento de preço”, critica Minelli para quem houve uma precipitação por parte do órgão regulador. Segundo ele, o volume ofertado pelas usinas era suficiente para atender o 6º bimestre. “Tanto que sobraram 57 milhões de litros”, salienta.
Esse também é o entendimento das usinas ouvidas pela reportagem. “Não sou contra o leilão complementar. Mas a forma e o momento em que surgiu a ideia é que foi inoportuna e precipitada. Com isso, as distribuidoras foram autorizadas a comprar volumes menores no primeiro dia, onde os preços sempre são maiores. Creio se tratar no mínimo de uma atitude inconstitucional, principalmente se tratando de um leilão público”, considera Polastri, da Cesbra. “Não poderia ter mudado no meio do leilão. Deveria ter esperado a conclusão do leilão”, diz Fuga, da Biofuga.
A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) adota um tom mais ameno ressaltando que, no fim da história, o processo vai conseguir garantir a demanda do B7.
"A Abiove mantém acompanhamentos sistemáticos e permanentes das condições do mercado de oleaginosas no Brasil, desde o suprimento de matérias-primas até a oferta de biodiesel. As informações disponíveis até o momento mostram um resíduo de 57 mil m³ de biodiesel referentes ao L39, volume que comportaria a demanda tradicional do leilão de opções Petrobras”, afirma por e-mail Leonardo Zilio, assessor econômico da entidade. Segundo ele, o leilão complementar “poderá incluir quantidades adicionais do biocombustível ao mercado nacional”.
Para o diretor executivo da Cesbra, a medida adotada pela agência é inócua para resolver os problemas do setor de biodiesel. “Se empresas como Cooperbio, Bioverde, Grupal estivessem no mercado, a gente não estaria passando por esse problema de oferta. Não é fazendo leilão complementar que se resolve o problema. A ANP tem que procurar essas usinas que estão fora do mercado para saber o porquê elas não estão mais no segmento. A própria Petrobras [Biocombustível] amarga prejuízos trimestrais. A ANP está punindo os produtores, sem buscar a cerne da questão”, avalia Polastri.
Cátia Franco – BiodieselBR.com